"A vida aqui é mais colorida"

Acham as cidades portuguesas muito pequenas, os prédios muito baixos, a carne e peixe muito baratos e os vegetais muito caros. E os portugueses "muito simpáticos." Alguns nunca tinham saído da China. A maioria planeia voltar, até por obrigação, mas há quem diga que gostaria de ficar na Europa. 27 anos depois de Tiananmen, retrato de uma geração aberta ao mundo, que surpreende pela descontração e modernidade.

Yihao Zhuo, cabelo preto espetado, tshirt e jeans, parece uma personagem de Wong Kar Wai. Podia ser o rapaz que compra latas de ananás pela data e as come como forma de exorcizar o amor pela rapariga da lanchonete, de Chungking Express. Um rapaz de Hong Kong, portanto, a Hong Kong pré transição para o domínio chinês, ocidentalizada e vanguardista e livre.

Mas Yihao não é um miúdo dos anos noventa da cidadela britânica na Ásia, à beira do "handover" (a transferência de soberania, em 1997), mesmo se é de Cantão, a província mais próxima. Tem 18 anos na segunda década do século XXI e iniciou a sua licenciatura em Lisboa em 2016, no ISCTE. É da primeira leva de alunos chineses de licenciatura em Portugal, graças a uma alteração legislativa de 2014: antes só era possível matricularem-se em universidades portuguesas para mestrados e doutoramentos. No ISCTE, são 12 como ele, que chegou em outubro mas já arranjou um apartamento para dividir com outros quatro estudantes, no Saldanha. São 1100 euros, 220 a cada. Nada que a família de Yihao não possa pagar. Os pais têm três restaurantes e, raridade, mais do que um filho - algo de que só uma pequena parte (Yihao diz que são 18%) dos chineses se pode gabar, devido à política do filho único, que terminou oficialmente no início deste ano (agora o permitido são dois filhos). Mais exatamente cinco, três raparigas e dois rapazes, sendo Yihao o benjamim. Tantos? "Quando se vive no campo pode-se ter mais filhos", explica Yihao. Apenas porque se vive no campo? "E se se puder pagar. Também se pode pagar para ter mais crianças." A expressão atónita que acolhe a informação fá-lo sorrir.

Temos espantos para a troca, porém. Yihao descobriu por exemplo que cá "a carne é muito barata, e os vegetais são muito caros." Conclui: "Aqui, sendo-se pobre, só se pode comer carne." Ri, e faz rir os outros dois estudantes chineses que estão na sala do ISCTE onde nos encontramos, Qiaowei Lin e Shi Hao, respetivamente 24 e 28 anos, ela uma aluna de mestrado e ele de doutoramento, os dois também do ISCTE. Hao é também o presidente da associação dos estudantes chineses em Portugal e está muito mais próximo da imagem que se espera de um jovem da China continental que Yihao e Lin: óculos, camisa e calças de tecido, e aquilo que se pode descrever como "ar conservador". A contrastar com Lin que, com as suas jeans pretas e a tshirt da mesma cor, mais o saco Louis Vuitton (se é "verdadeiro" ou uma daquelas muito credíveis imitações que se fabricam na China ficamos sem saber - e sem perguntar) e o cabelo comprido azeviche não destoaria nas ruas mais trendy de qualquer grande capital ocidental.

Como Yihao, Lin é de Cantão, da cidade de Shenzhen, muito perto de Hong Kong e uma das maiores da China, com mais de 10 milhões de habitantes. É um importante centro financeiro (classificada em 19º num índex internacional deste ano) e também um dos portos de mercadorias mais movimentados do mundo. Lin, que está precisamente a fazer um mestrado na área de gestão financeira, está há um ano em Lisboa e já passou a fase letiva: trabalha agora na tese, que tem de entregar em 2017. Desde que chegou, tem viajado bastante. "Tive muita atividade em Lisboa nos primeiros meses, a sair à noite, etc. Mas depois comecei a achar sempre igual e maçador e comecei a conhecer outros países." Filha (única) de uma contabilista e um engenheiro, são os pais que lhe financiam os estudos, como se passa com Yihao. Já a Hao, filho (único) de uma polícia e um soldado, é o Estado chinês, através de uma bolsa.

"Dizem-me olá em chinês na rua"

Yihao Zhuo, de 18 anos, é da primeira leva de alunos chineses de licenciatura do ISCTE

Mas porquê escolher Portugal? Yihao admite que "muitos escolhem EUA e Reino Unido." Porém, prossegue, "aqui é especial. E o ISCTE é famoso no mundo." Riem. Lin ajuda: "É confortável, o clima é confortável. E os portugueses estão sempre a tentar ajudar." No caso de Lin, a universidade chinesa onde fez a licenciatura tem um protocolo com o ISCTE (ver texto nestas páginas). "Achei boa ideia vir para cá, e aprender português." A determinação ainda não deu frutos - até porque as aulas são em inglês: há muito que o ISCTE, sendo nisso pioneiro em Portugal, abre todos os anos turmas de licenciatura, mestrado e doutoramento com aulas na língua franca mundial - mas ao fim de um ano por cá não sente que isso a impeça de socializar. "Acho que muita gente aqui sabe chinês. Dizem-me olá em chinês na rua." Solta uma gargalhada. Esclarece que se refere a homens e rapazes que se metem com ela. E como e sente ao ser abordada por desconhecidos? "É giro. Lá na China isso não acontece."

Outra coisa que na China não sucede, comenta Yihao, é ver casais do mesmo sexo de mão dada ou a beijar-se na rua. "Choca-me ver isso. Quando fui ao Colombo vi um casal de rapazes a beijar-se e pensei: "Oh meu deus"." Hao intervém: "Na China também há, a diferença é que é escondido. Tive colegas homossexuais lá, e para mim está OK. Têm o direito de escolher a forma como querem viver, embora haja muita gente que não concorda." Lin assente: "Nas cidades grandes da China é normal. Há muitos casais homossexuais na minha faculdade. Acho muito bem que as pessoas façam o que querem, vivam como querem. Quero isso para mim." Yihao capitula: "Fiquei chocado ao princípio mas agora já vejo como normal." Riem. Hao vai mais longe: "Talvez no futuro, na China, as coisas mudem e seja como cá."

Sim, sem dúvida: a liberdade e descontração e mesmo a declarada esperança de que o seu país se aproxime do liberalismo de costumes e individualismo ocidentais que estes três jovens afetam não se encontra com a ideia que fazemos da China, com a contenção e rigidez e até receio que esperaríamos dos cidadãos de um regime ditatorial. Mas Tiananmen foi há 27 anos; só Hao era nascido. São os três da geração pós massacre na Praça da Paz Celestial. E, a crer no exemplo deles, muita coisa parece ter mudado desde então - a começar por esta abertura ao mundo que permite e incentiva (através de bolsas estatais) a diáspora dos estudantes, o contacto com valores e modos de vida que necessariamente os moldarão e que, se regressarem como é suposto, transportarão consigo, influindo no seu círculo e na sociedade chinesa.

Uma abertura que pode mesmo determinar que decidam abraçar o cosmopolitismo e surfar a investida da China e do seu poderio económico e empresarial em países tão improváveis como Portugal, criando uma nova geração de expatriados chineses.

Su Jing, de 25 anos, chegou a Braga em outubro

"O mundo é tão grande"

"A vida ficou mais colorida desde que vim para cá", admite Hao, que é o único a viver em casa de uma família chinesa, proprietária de um restaurante. "Tenho de agradecer terem-me dado esta possibilidade de conhecer outros países, outras culturas. E aqui é um bom sítio para estudar, conhece-se muita gente diferente."

Nos dois anos de permanência aqui - chegou em 2014- notou um incremento no número de estudantes da sua nacionalidade. Crê que serão agora cerca de mil, mais 100 a 200 do contingente de Macau (o DN tentou obter, junto da Embaixada da China, informação sobre o número de estudantes chineses efetivamente a estudar em Portugal e o modo como se processam as bolsas e o apoio a estes jovens mas Ding Wenzheng, o encarregado da área da educação, declinou, por mail, o pedido de entrevista, alegando estar muito ocupado). "Muitos vêm para aprender português", informa. Em causa estará sobretudo a relação com os países de expressão portuguesa, de África ao Brasil, onde os "interesses chineses" estão em força.

He Yongwei, 21 anos, é um desses. Chegou a Aveiro, em cuja universidade está a tirar Língua e Literatura Portuguesas, há dois meses, já com dois anos de português feitos na China. Está no último ano do curso, findo o qual pensa, precisamente, trabalhar como tradutor/intérprete para empresas chinesas, "talvez nos países lusófonos". Aproveita a entrevista para praticar, mesmo se às vezes é preciso traduzir as perguntas para inglês, para ter a certeza de que não há confusão. É a sua quarta língua já que, natural de Cantão, fala cantonês, mandarim e inglês. Como aos seus compatriotas do ISCTE, espantou-o sobretudo a dimensão das cidades - além de Aveiro conhece Coimbra e Lisboa -, neste pequeno país que é o primeiro lugar estrangeiro que visita. "Mas é muito bonito e povo é muito simpático. Muito mais do que pensava. Foi o que mais me surpreendeu, porque já estudara certas coisas nas aulas. Ajudam os estrangeiros." Ainda assim, confessa que encontrou algumas pessoas menos simpáticas, mas não quer entrar em pormenores: "Foram a exceção". Está a viver num apartamento na universidade, com um colega da mesma nacionalidade, dois portugueses e um moçambicano. O valor do apartamento, as propinas e todo o resto do custo da sua estada aqui são suportados pelo Estado chinês, com uma bolsa de 800 euros mensais - valor que parece ser o mesmo para todos os bolseiros chineses em Portugal.

"Chega perfeitamente", opina He, até porque, para já, não tem feito muito mais que vida de universidade. "Não costumo sair à noite, na China não fazemos isso." Quanto ao choque gastronómico, não o parece afetar muito. "Gosto muito de bacalhau com natas, é um ótimo prato, é o que costumo comer." Não se lembra de mais nenhum, e não parece ter ainda experimentado o cozido à portuguesa (ou não guardou na memória), ou as famosas enguias de escabeche de Aveiro. Ou mesmo os ovos moles da cidade. Livros portugueses não conhece - "É muito difícil, ainda não estou preparado" - e queixa-se sobretudo da gramática: "É horrível, muito complicada." Os pais, informa, têm "negócios" e vivem "de modo confortável". A sua família faz parte das poucas com mais que um filho - tem uma irmã mais nova. "Ela não quis para já sair da China, mas talvez um dia queira. O mundo é tão grande."

Tão grande que uma chinesa pode ir parar a Braga. Caso de Su Jing, 25 anos, no terceiro ano de doutoramento em bioquímica na Escola de Biotecnologia da Universidade do Minho. Acabada de chegar (aterrou em Portugal em outubro), Su nunca tinha estado na Europa, apesar de conhecer já o Japão, EUA e México, onde foi a conferências e encontros científicos. "Vivo numa grande cidade, Wuxi, na província de Jiangsu [no sul da China, 2,2 milhões de habitantes]. E aqui é muito diferente. Acho os edifícios muito bonitos e o céu muito limpo." Nem tudo lhe sorri, porém. Está a viver num apartamento com dois portugueses e um coreano, e não acha os transportes públicos muito eficientes. "Tenho de andar cerca de 30 minutos para ir para o campus. E não é nada fácil ir às compras, a comida não tem legendas e muita gente não fala inglês. Tenho de levar o dicionário." Ri. Encantam-na as francesinhas, as sopas e, como todos os chineses entrevistados nesta reportagem, louva o peixe português, cujo preço acha "razoável". Nos tempos livres vai ao ginásio e toma café com os amigos que fez entretanto. "Em Braga não há muito para fazer. No Porto há mais vida noturna, e vamos lá de vez em quando." Não nota muitas diferenças entre os bares portuenses e os da sua cidade, nem entre o que as pessoas fazem para se divertir. "Bebemos, dançamos e falamos."

He Yongwei, de 21 anos, aterrou em Aveiro em setembro

Numa dessas saídas, Su poder-se-á cruzar com Luoheng Zhan, aluna do terceiro ano da licenciatura de Literatura Brasileira e Cultura Portuguesa da Universidade da invicta. De todos os entrevistados, é a que melhor domina o português, falado e escrito. Em Portugal desde setembro, é de Chongqing, uma grande cidade no interior da China, com quase 10 milhões de habitantes, mas veio para o Porto num intercâmbio com a sua universidade, que se situa na maior urbe chinesa, Xangai (14,3 milhões de habitantes). "É uma cidade muito grande, muito diferente do Porto", comenta Luoheng, hesitante, como quem teme ofender. "Mas estou habituada ao Porto e gosto." É a primeira vez que esta filha única, cujos pais professores primários, confessa, lhe escolheram o curso - "Antes de entrar na universidade não tinha conhecimento sobre cultura e costumes e usos de Portugal, mas eles decidiram porque pensavam que eu teria muitas oportunidades de arranjar trabalho se estudasse português" -, sai da China. E diz que o que mais a surpreendeu foi "a civilização da Europa, ou pelo menos em Portugal". "Toda a cidade é muito limpa, os portugueses são muito bem educados. E os condutores obedecem às regras." Na China não? "Xangai é uma cidade muito grande, há muito trânsito e as pessoas não obedecem."

Outra diferença: "Os rapazes portugueses parecem-me muito tímidos, sobretudo os estudantes. Acho que preferem ser amigos a ser namorados." Nunca teve um namorado até agora, revela, e não se importava de ter um. "Mas exige tempo. E essas coisas não se decidem, acontecem. É melhor deixar a natureza tratar." No que não vê grande distinção é no nível de vida em Portugal e Xangai. "É mais caro que em Chongqing, porém. Ao princípio almoçava fora mas agora costumo cozinhar no apartamento onde vivo com outras três meninas portuguesas. Acho o preço dos restaurantes muito alto."

"Aqui é cool"

A comida pode ser, em comparação, cara, mas, para além do clima ameno e da segurança - um fator pouco consciencializado pelos portugueses, que nem sempre se dão conta de viverem num dos países mais seguros do mundo - e da aprendizagem de uma língua que interessa à economia chinesa, há um óbvio motivo para estudantes estrangeiros escolherem Portugal quando comparam destinos: as nossas universidades, sendo bem cotadas nos rankings internacionais, são comparativamente baratas. As propinas anuais ficam em sete mil euros para estudantes (de licenciatura) de fora da UE, enquanto que no Reino Unido ou nos EUA o valor é pelo menos sete vezes esse, na casa dos 50 mil. Uma poupança muito grande, mesmo que por vezes seja complicado, como confessa Yihao, compreender o inglês dos professores portugueses. "Ao princípio era "Oh meu deus". Não percebia nada, por causa do sotaque." Exemplifica com uma palavra em que o professor carregava no R - uma consoante que os chineses tendem a tornar ainda mais suave que o original, mesmo se a nova geração aprendeu inglês desde a escola primária - outra evidência da abertura da China. A determinação vai a tal ponto que, nessa altura, os estudantes são instados a escolher um nome ocidental. Yihao escolheu Mario, por causa de um futebolista italiano, Mario Balotelli - adora futebol. Lin é Moira, Su é Sophie. Quanto a He, declina um nome português, Álvaro, escolhido quando começou a estudar a nossa língua, como Luoheng, que se identifica como Patrícia.

Shi Hao, de 28 anos, está em Lisboa desde 2014 a fazer o doutoramento no ISCTE

Estranho, isto de aprender a responder por outro nome, como se para cada um destes estudantes se criassem duas personalidades, a chinesa e a ocidental, uma para lá e outra para cá. Moira, ou Lin, parece ter feito a sua escolha. No início de 2017 vai para Bordéus, em França, como parte do mestrado, e planeia fazer a seguir o doutoramento. Grande viajante, já foi a Marrocos e a vários países europeus. E tenciona continuar a fazer aquilo a que a escritora francesa Marguerite Yourcenar apelidou de "a volta da prisão": "Gosto da Europa, é um bom sítio. Penso que não vou voltar para a China." Ri. "E o vinho aqui é bom e barato." Mário, ou Yihao, e Hao (que não parece ter um nome ocidental) concordam. Hao conta que a última vez que foi à China, em visita, levou 12 garrafas na bagagem, muito mais que o permitido. "Toda a gente pede para levar vinho." Sempre tinto, especifica Mário/Yihao: "O vinho branco não é tão popular." Também ele, que aguarda a chegada da namorada chinesa - "Vem para cá estudar, como eu" - acha que ficar pela Europa é boa ideia. "Isto aqui é cool."

Já Hao, devido à sua bolsa estatal, terá de regressar à China, pelo menos durante algum tempo. "Faz parte das regras, todos os bolseiros têm de compensar o país. Mas também preferia ficar cá." E se ficasse, onde quereria viver? Reflete. "Acho que gostaria de poder variar, trabalhar em cidades modernas e em cidades antigas. Gosto de umas e outras."

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