"Há poucos homens em Portugal com a coragem de Carlos Costa"

Hugo Soares, vice-presidente da bancada do PSD, acredita que não haverá oposição a Passos no Congresso, rejeita que Marcelo incomode PSD e elogia o governador do Banco de Portugal

O país percebeu o facto do PSD não apresentar propostas no Orçamento do Estado para 2016?

Não havia estratégia mais transparente: só podíamos votar contra. Relativamente às propostas de alteração, sendo este um orçamento (OE 2016)que não tinha emenda, que ainda por cima devia responsabilizar o PS, o PCP e o BE pela sua execução, não fazia sentido ao PSD, nem estar a apresentar propostas de alteração, nem a viabilizar ou obstacularizar que os partidos que são pais deste orçamento pudessem alterá-lo, consoante aquilo que fosse o entendimento deles.

Mas até o PS usou isso como jogada. E o PSD não votar, por exemplo, a favor de isentar de custas judiciais as vítimas de violência doméstica, não passa uma imagem de postura cega ou acéfala?

Olhámos para o orçamento como um todo e dissemos à priori, antes de conhecermos as propostas de alteração, qual seria a nossa posição. Ora, se o PS em determinado momento não tem a maioria que disse ter para conseguir ser uma maioria positiva, e, por essa razão, teve de usar do expedientes orçamentais e de votação parlamentar para fazer aprovar propostas de alteração ao orçamento isso diz muito do que é a postura do PS, perante questões que são essenciais, como a aprovação de um documento estratégico como é o orçamento.

A postura de não apresentar propostas vai ser replicada no Plano Nacional de Reformas?

A política está carregada de hipocrisia. Durante quatro anos, o PSD esteve a governar em tempos muito difíceis e, em todas as ocasiões que o PSD tentou chamar o PS para as grandes reformas que o país precisava, o PS nunca se sentou à mesa para qualquer compromisso. Portanto, é de uma profunda hipocrisia que o PS, agora que é governo, chame o PSD para negociar o plano de reformas. Mas nós sempre tivemos uma postura muito diferente. Se esse plano for para construir em cima do que foi construído nos últimos quatro anos, estamos disponíveis. Se António Costa optar por um plano à imagem de "Bob, o destruidor" e não de o "Bob, o construtor" [desenho animado infantil], nesse caso o PSD não pode estar disponível. Aí não conta com o PSD.

Esperava uma unidade tão grande à esquerda que se vê nos documentos mais importantes?

Mal era que, passado três meses do governo tomar posse - depois de ter feito cair o governo que os portugueses quiseram - não tivesse condições políticas de continuar a sua atuação. Mas já tivemos sinais muito claros que, quando isto for a doer, o PS não vai ter o apoio do BE nem do PCP. E, nessa altura, cabe ao PS encontrar as condições de governação que garantiu ao país e ao Presidente da República ter. Se eles estão unidos, julgo que sim. E que fique claro que este é um governo a três: é de António Costa, mas os vice-primeiro-ministros são, na verdade, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.

A " espanholização" da banca tem estado na agenda: o assunto preocupa a bancada do PSD?

Que o governo queira estar informado parece-me normal, coisa bem diferente é o primeiro-ministro imiscuir-se na correlação de forças de acionistas, de negócios ou escolher até parceiros estratégicos para entrarem no sistema financeiro português. Isso cheira a esturro, porque dá a sensação de querer controlar.

Mas Marcelo Rebelo de Sousa não tem sido um aliado de António Costa nesta matéria? E noutras.
O Presidente da República tem sido um aliado dos portugueses. Aliás, o resultado eleitoral dessas eleições que, convém lembrar, foram mais umas que o PS perdeu, porque tinha dois candidatos a eleições e os dois não chegaram para impedir Marcelo de ser Presidente.

Então o Presidente está a corresponder às expectativas do PSD?

Estamos com duas semanas desde a tomada de posse, portanto, mal era que o Presidente não tivesse a corresponder às expectativas daqueles que o elegeram. Ora o eleitorado do PSD, manifestamente votou de forma expressiva no professor Marcelo, por isso estamos absolutamente bem representados.
Passando ao congresso do PSD, que começa sexta-feira. Acredita que haverá oposição a Passos?
Não creio mesmo que vá haver qualquer tipo de oposição, porque seria inédito que um líder que ganha eleições, tivesse oposição interna. Depois de executar quatro anos de políticas dificílimas, de tirar o país de uma situação de bancarrota, seria um bocado ridículo quem fosse protagonizar esse papel no congresso.

Mas os órgãos nacionais do partido precisam de ser renovados.

Quem decide é o presidente do PSD. É perfeitamente normal que haja renovação. Mas se olharmos para o PSD, o partido já sofreu uma renovação profundíssima. No PSD, pela mão de Passos Coelho, apareceram um conjunto de novos quadros , de várias gerações, que são hoje as referências: Maria Luís Albuquerque, Carlos Moedas, Manuel Rodrigues, o próprio Luís Montenegro, António Leitão Amaro, Miguel Morgado ou Carlos Abreu Amorim.

Estaria disponível para integrar a direção nacional do PSD?

No momento de combate político que nós vivemos, toda a gente tem de estar disponível para aceitar os desafios que lhe são convocados. Mas não creio é que essa questão se coloque.

E há gente preparada para suceder ao líder, para o pós-Passos?

Falta muito tempo. O presidente do PSD vai voltar a ser primeiro-ministro e não creio que cumpra só mais uma legislatura. Mas o PSD tem pessoas preparadas para suceder a Passos Coelho que é, neste momento, a pessoa mais bem preparada para ser primeiro-ministro.

Luís Montenegro, de quem é próximo, seria uma dessas pessoas?

Até por ser próximo seria desleal da minha parte colocar o Luís Montenegro em qualquer corrida que nem sequer existe.

E por causa do caso Arrow, Maria Luís Albuquerque fica, como disse Marques Mendes, mais longe da direção do partido?

Relativamente a Maria Luís Albuquerque quero secundar o que disse o presidente: é uma pessoa de uma competência e de uma forma de estar na vida pública inatacáveis. É um grande quadro do PSD, por quem tenho muito respeito, e a quem o país deve estar agradecido pelo que fez.

O congresso do PSD não está de alguma forma condicionado pelo CDS e os temas que introduziu?

Com franqueza, não. É bom que o CDS tenha agenda própria e que Assunção Cristas tenha todo o espaço do mundo para se afirmar como líder. Mas nós teremos a nossa agenda política e os nossos temas estruturais. Por isso nada faz com que haja aqui qualquer tipo de dificuldade por o congresso do CDS ter sido primeiro.

Mas as relações com o CDS parecem mais esfriadas.

Mas não estão. A relação parlamentar é ótima e é por essa que posso responder.

Mas são agora concorrentes.

Sim, mas isso nós somos com todos os partidos, faz parte das regras da democracia. Não é por serem concorrentes que não podem ser concordantes numa esmagadora maioria de matérias.

A revisão constitucional pode vir a ser um dos temas levantado no congresso do PSD?

Sou um profundo adepto da revisão constitucional profunda e não cosmética. Precisamos de adaptar a Constituição à nossa realidade, mas sobretudo ao século XXI.

A revisão limitada do CDS, tinha a questão do governador do Banco de Portugal. Carlos Costa é um bom governador?

A minha opinião pessoal é que tenho a certeza absoluta que havia e há poucos homens em Portugal com a coragem que este governador teve na forma como geriu o caso BES e como afrontou Ricardo Salgado.

E quanto ao Banif, qual é a expectativa para o inquérito parlamentar que vai agora arrancar a sério?

Quero que apure ao máximo as responsabilidades, que permita aos portugueses chegarem ao fim e perceberem o que é que realmente aconteceu para que o Banif tivesse de ter este desfecho e que se encontre também responsáveis. Disse a propósito da comissão de inquérito do BPN que os crimes não têm partidos. Portanto, esta é uma matéria que tem de ser apurada, doa a quem doer.

A coadoção por casais do mesmo sexo, para a qual defendeu um referendo, é um assunto encerrado?

Sim. O país não pode andar para trás e para a frente em legislação que é estruturante, como essa é, e foi por isso mesmo que defendi na altura certa que devesse haver um referendo sobre essa matéria.

Vem aí a temática da eutanásia. Também defende um referendo?

Não tenho uma reflexão profunda sobre a necessidade de um referendo. É uma questão que ainda deve ser muito maturada e não gostava que fosse discutida de ânimo leve no Parlamento. Julgo que merece uma grande reflexão também na sociedade civil e isso pode ser feito através de referendo ou de um debate profundo em que o Parlamento esteja também envolvido.

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