Liderança do SEF nas mãos de uma inspetora no serviço há 25 anos

Maia Gonçalves é a primeira mulher à frente do SEF. Discurso incómodo precipita anúncio da substituição de Beça Pereira

"Uma mulher de grande carácter e valor, que vai trazer muito prestígio ao SEF." As palavras de Manuela Niza, a presidente do Sindicato dos Funcionários do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SINSEF), sobre a recém-nomeada nova diretora nacional do SEF, podem contrastar com a habitual cautela sindical nos comentários aos dirigentes do serviço, mas resumem as opiniões de várias pessoas ouvidas pelo DN, dentro e fora do SEF.

Luísa Maia Gonçalves, no topo da carreira do SEF, onde ingressou há 25 anos, como inspetora coordenadora superior, tem um significado forte para este serviço de segurança. É a segunda oportunidade que um governo PS dá aos quadros do SEF para assumirem a liderança deste serviço. A primeira vez foi em 2005, quando o atual primeiro-ministro, António Costa, era ministro da Administração Interna e escolheu Manuel Palos, um inspetor de carreira que saiu no final de 2014, depois de ter sido detido no âmbito da investigação aos vistos gold. E é novamente com um executivo socialista que é escolhida Luísa Maia Gonçalves. Todos os outros seis anteriores diretores do SEF eram magistrados, tal como o atual, António Beça Pereira, juiz desembargador.

"É uma lufada de ar fresco após tempos horribilis", completa Manuela Niza. "Saudamos a senhora ministra por tal escolha, fruto do mérito e independente de partidarismo", acrescenta.

No mesmo sentido vai a opinião de Acácio Pereira, o presidente do Sindicato da Inspeção e Fiscalização: "Nesta fase é fundamental ter alguém da carreira da liderança do SEF. A nova diretora conhece de fio a pavio todo o trabalho do serviço, da investigação à fiscalização."

Quem conhece Luísa Maia Gonçalves diz que é discreta, determinada e competente no seu trabalho. Não se lhe conhecem proximidades políticas e foi com muita surpresa interna que foi afastada por Manuel Palos, no âmbito de uma reorganização do serviço em 2012, da direção da Investigação Criminal do SEF. "Ela tinha criado e motivado uma equipa de investigação como nunca tinha havido no SEF, passava noites a fio a trabalhar quando havia uma operação em curso. A sua saída foi um grande golpe", recorda um dos elementos deste grupo. Grandes investigações, em conjunto com outros países, como as relacionadas com os "casamentos brancos", foram lideradas por Luísa Maia Gonçalves. Nasceu em Lisboa, onde se licenciou na Faculdade de Direito, mas viveu parte da sua vida em Macau, Moçambique e Inglaterra.

Saída inevitável

No início de 2014, Manuel Palos tentou recuperar a confiança de Luísa Maia Gonçalves, indicando o seu nome ao ex-ministro Miguel Macedo, para ser oficial de ligação na China, um processo que faz parte da investigação aos vistos gold. O Ministério Público acredita que a "rede" de influências queria utilizar a inspetora em seu benefício, mas a verdade é que Macedo nunca a nomeou. A "retidão e integridade", como sublinhou ainda Manuela Niza, de Luísa Maia Gonçalves, não só no SEF, como entre outras forças de segurança, não fazia parte dos requisitos de que a alegada "rede" necessitaria. Este facto, do conhecimento da ministra Constança Sousa, não condicionou a escolha.

Na verdade, segundo o DN apurou, a decisão da ministra estava tomada há vários dias. Beça Pereira tinha colocado o seu lugar à disposição logo na primeira audiência com Constança Urbano de Sousa, mas o anúncio da exoneração foi precipitado ontem, depois de ouvir o discurso do diretor do SEF, na cerimónia de início de estágio dos novos inspetores.

Beça Pereira reivindicou concursos "periódicos, de três em três anos", para inspetores e disse que os novos, que agora entraram, apenas resolviam "por algum tempo o problema da insuficiência de recursos humanos". "Verdades, mas ditas na hora errada", disse ao DN uma fonte do ministério.

O desempenho do desembargador à frente do SEF também estava a causar um grande mal-estar interno e chegaram à ministra inúmeras queixas, entre as quais uma sobre o aumento de despesas, em viagens (duplicaram) e uma alegada utilização abusiva de pernoitas em Banguecoque. A sua saída era inevitável.

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