"Fernando Medina não precisa de estar obcecado com as obras em Lisboa"

O vereador da equipa de Helena Roseta diz que "Medina não é Costa" e que "isso é claro para todos". Sobre Santana diz que se os lisboetas se lembrarem do seu mandato não o querem de volta à câmara

O pelouro dos Direitos Sociais, criado pela primeira vez neste mandato do "acordo coligatório"entre o PS e o Movimento Cidadãos por Lisboa (CPL), que vantagens trouxe à cidade?

Traduz a dimensão transversal daquilo que é a importância da pessoa. Desde as questões de género às condições básicas de vida, às questões de cidadania e participação e governação. Com o nosso trabalho, penso que nos últimos dois anos e meio foi notória a evolução da perceção da importância dos Direitos Sociais na vida da cidade.

Que realidade existe em Lisboa que não é evidente para todos, ou não é mediática como é a cidade dos turistas?

É uma realidade evidente para quem cá vive todos os dias e precisa de respostas para os seus problemas. Lisboa é a capital mais envelhecida da Europa (28% da população com mais de 65 anos, da qual 80% vive sozinha) e foi a pensar nisso que criámos o Plano de Acessibilidade Pedonal. Tem menos crianças porque a população mais jovem teve de sair - 300 mil pessoas deixaram a cidade desde 1981. Há neste momento 550 mil residentes em Lisboa, quando chegou a ter 880 mil. Para reverter isso criámos as Cresces B.A.BA, com mais vagas para crianças, e o Programa de Renda Acessível. Lisboa é, por outro lado, uma das capitais da Europa onde é maior a desigualdade entre ricos e pobres. O desemprego entre jovens até aos 25 anos é brutal, assim como nas pessoas com mais de 55. Soluções como o Fundo de Emergência Social ou iniciativas como a StartUp Lisboa pretendem alterar esta situação. Há problemas de género, como a violência doméstica ou de discriminação da população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero) que, com muitos parceiros, discutimos no recentemente criado Conselho Municipal da Igualdade.

O facto de Lisboa ter 5% da população constituída por emigrantes traz problemas também?

Para nós isso é positivo e tem de ser acompanhado e apoiado. Só na freguesia de Arroios há 60 nacionalidades, com tudo o que isso implica de diversidade cultural, mas também na necessidade de ter estruturas de apoio preparadas para ela. E estes imigrantes têm desde logo um efeito muito positivo. São quem tem mais filhos: 20% das crianças que nascem em Lisboa. Por outro lado, são contribuintes positivos para o sistema da Segurança Social e para o Serviço Nacional de Saúde, procuram trabalho e são muito empreendedores. Mas enfrentam várias dificuldades e é para as solucionar que temos o Plano Municipal para a Integração dos Imigrantes.

E agora vêm aí os refugiados...

Estamos muito empenhados nesse processo. Em apenas seis meses (desde setembro de 2015 a março de 2016) planeámos e organizámos toda uma estrutura que tem recebido muitos elogios internacionalmente. Vamos receber mil refugiados, 10% do contingente nacional, que pretendemos acolher, acompanhar e apoiar na integração. Temos um centro de acolhimento temporário na zona do Lumiar, com toda as condições, onde os refugiados serão colocados nos primeiros dias (30 a 45), para irem tratando dos seus processos. Depois o que está planeado é serem distribuídos por apartamentos que temos disponíveis em vários pontos da cidade.

E tudo isso dá votos à esquerda? O que dá votos é uma boa governação. A participação e a cidadania dão votos e isso ficou provado com a votação que tivemos: quase 17% nas eleições intercalares de 2007, com a Helena Roseta.

Como está a coesão do MCL com o PS?

Acho que a "gerigonça" no governo só foi possível por haver a perceção de todos que António Costa é um homem que consegue fazer pontes e abrir espaços de diálogo, como aconteceu em Lisboa. Foi essa a realidade dos seus mandatos na câmara. A lista do PS ganhou, mas a câmara tem seis vereadores independentes: Manuel Salgado, Catarina Vaz Pinto, José Sá Fernandes e, pelo CPL, eu, a Paula Marques (Habitação de Desen-volvimento Local) e o João Paulo Saraiva (Recursos Humanos e Recursos Financeiros). A nossa preocupação enquanto Cidadãos por Lisboa são as pessoas.

Fernando Medina compreende isso?

Medina não é António Costa. Isso é claro para todos.

E isso é uma vantagem ou uma desvantagem?

O mimetismo é sempre perigoso. Claro que tem diferenças óbvias na forma como gere esta equipa. Mais organizado, por um lado, mas com uma gestão política diferente. Não digo que seja pior ou melhor. Só diferente. Mas sente-se agora um momento estranho com o PS. Vemos o PS muito preocupado com os acordos com o PCP e o BE para as autarquias e esquece que, neste momento, tem um programa eleitoral a cumprir connosco e que é esse programa que nos move. Os objetivos que temos - "Mais pessoas, Mais emprego, Mais cidade" - e o modelo de governação atual da cidade, que está na sua base tem de ser também a base do que vamos fazer a seguir e propor aos lisboetas.

E Medina não está a fazer essa discussão com os CPL?

Não. Preocupa-nos, por exemplo, falar-se muito de obras. Mas obras para quê? Isso é o mais importante. Para nós as obras interessam porque devolvem espaço e qualidade de vida aos cidadãos. Devolver centralidade a vários espaços urbanos é uma ideia de cidade e que me parece o modelo de uma grande obra, assim como criar condições de acessibilidade, segurança e conforto nas ruas. Ou voltar a construir habitação pública.

Mas não é isso que está a acontecer?

Também se está a fazer isso, mas é muito menos mediático e promovido. Fala-se em carros e estacionamentos. Há uns dias a grande discussão era sobre 60 lugares de estacionamento...

Mas as obras dão ou tiram votos à esquerda?

É preciso que as pessoas percebam que o objetivo é criar-lhes melhores condições de vida. A esquerda não ganha eleições com obras per si, mas com o que defende e faz pelas pessoas. A prioridade tem de ser dada aos espaços para as pessoas, começar as obras pelo alargamento dos passeios. Depois vem o alcatrão. Incomoda os automobilistas? Paciência. Todos os lisboetas andam a pé e a maioria de transportes públicos. Acho que o Fernando Medina devia focar-se mais nas pessoas. As obras são uma condição necessária para vivermos melhor. É um meio. Não um fim em si mesmo. Medina não precisa de estar obcecado com as obras.

Preocupa-vos a possibilidade de Santana Lopes ser candidato e poder voltar à Câmara de Lisboa?

Se os lisboetas pensarem o que foi o mandato de Pedro Santana Lopes e o estado em que deixou a câmara, no que diz respeito ao endividamento, com certeza não o vão querer de volta. E que obras fez? Um túnel que serve essencialmente para pessoas que vêm de fora de Lisboa e piscinas que não estavam a funcionar e que foi o António Costa que teve de pagar as contas para as abrir. Essas foram as obras do Santana Lopes. Acabou. Não há mais nada. Do ponto de vista social não vejo também resultados do seu mandato e do ponto de vista da gestão, a imagem da câmara estava completamente debilitada. Sinceramente, acho que já passou o seu tempo. Foi presidente de câmara, foi primeiro-ministro, mas já passou o seu tempo. As coisas não voltam para trás...

E Assunção Cristas é uma possível candidata que vos preocupa?

A Assunção Cristas é candidata a primeiro-ministro, julgo eu. Foi para isso que o CDS a elegeu como líder.

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