Felipe Pathé Duarte: "A deteção da ameaça é cada vez mais difícil"

O investigador lembra que as "causas para a radicalização violenta não obedecem a um padrão específico".

Este atentado mostra que nem um país com políticas ultra securitárias como os EUA está imune?

Sim. Nenhum estado democrático está imune a um atentado terrorista. A cada vez menor sofisticação das ações, com dispositivos do (e no) quotidiano, leva a que a deteção da ameaça seja cada vez mais difícil, mesmo com medidas ultra securitárias. Não obstante a motivação, que continua fortíssima, a reposta ao "onde" tornou-se mais vasta, ao "como" mais complexa, e ao "quando" dependente da oportunidade.

Que lições devem ser extraídas para as políticas de segurança pública?

Ainda não se sabem os contornos do atentado para poder tirar ilações. Resta perceber se integrava uma estrutura, se era um "lobo solitário" (que raramente atuam sozinhos) ou um "loco solitário". Mas, é importante ter em mente duas coisas: a necessidade de acompanhamento e monitorização de potenciais radicais violentos (já estaria referenciado pelas autoridades) e perceber qual o veiculo deste processo, se foi físico (onde), se foi virtual; não ceder à exploração política que associa migrações à radicalização violenta e ao terrorismo.

É possível impedir estes ataques?

São ataques pouco sofisticados, mas muito eficazes. Poderá ser feito um "hard-targeting" em determinadas zonas, com redes ou barreiras modulares portáteis; tecnologias que imobilizem viaturas em andamento; com o geo-fencing (controlo virtual de determinada área geográfica); ou com um novo tipo de câmara com sensores que identifica automaticamente eventos criminosos pré-identificados (projeto europeu FORENSOR).

Esta sensação de impotência face aos chamados lobos solitários gera um grande sentimento de insegurança. O que pode resultar daí?

Uma aparente ineficácia do Estado, que não tem capacidade para proteger os seus cidadãos. Poderá resultar um sentimento crescente de desconfiança na sociedade, ao qual se poderá juntar disrupção social e eventualmente polarização da sociedade. A última etapa será a alteração das dinâmicas de poder político, para governos mais restritivos.

Que significado tem para os EUA este atentado, o primeiro do género depois do 11 de setembro?

Infelizmente, era uma questão de tempo e oportunidade. Desde 2001 que houve várias tentativas de ataques terroristas jihadistas a Nova Iorque, algumas com dimensão bastante significativa: em Times Square (2010); Metro (2006, 2009 e 2016), Aeroporto JFK (2007); Sinagogas e avião militar (2009), Reserva Federal (2012)....

O que leva alguém, aparentemente integrado na sociedade, a lançar-se sobre cidadãos inocentes e matá-los?

As causas para radicalização violenta não obedecem a um padrão específico. Poderão ser vários os fatores psicossociais que espoletam a violência e encontram no jihadismo a motivação certa que legitime e justifique a ação terrorista, com a morte de civis e, na maior parte dos casos, o martírio suicida.

Como deve Portugal olhar para esta realidade?

Criandor uma cultura de contraterrorismo, que não há, e redefinir a efetividade do Sistema de Segurança Interna na partilha de informações.

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