"Este programa vai aumentar a aversão dos alunos à Matemática"

Lurdes Figueiral defende a mudança no programa de Matemática, depois dos resultados das provas de aferição terem sido conhecidos

Os resultados das provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º anos mostram que as dificuldades que os alunos têm na disciplina de Matemática são crescentes. Uma evolução negativa que leva a presidente da Associação de Professores de Matemática a sublinhar a urgência de mudar o programa da disciplina, que está a ser aplicado há três anos.

Os maus resultados das provas de aferição (conhecidos na segunda-feira) são consequência da aplicação do atual programa?

Não fazemos essa afirmação de forma tão linear. Até seria demagógico fazê-lo. Estes maus resultados são indício que alguma coisa não está bem. E entendemos que muita coisa não está bem, especialmente no ensino básico.

O que está a falhar?

É necessário um diagnóstico. Estes resultados surgem na sequência de um conjunto de fatores que estão a prejudicar muito a escola. Como é o caso dos mega agrupamentos, que obrigam os professores a andar de um lado para o outro entre várias escolas; o aumento do número de alunos por turma, que impede um trabalho personalizado com aqueles que têm maiores dificuldades; o aumento do trabalho dos professores com tarefas burocratas e meramente administrativas e a suspensão da formação contínua na disciplina de Matemática. Sabemos que para o sucesso dos alunos é muito importante a formação e o apoio aos professores. Medidas que não são compatíveis com estas opções economicistas.

Então não ficaram surpreendidos com os resultados alcançados nas provas?

Nada. São o resultado de muitos fatores gerais, como os que apresentei, e também de alguns especificidades da Matemática. Já que sabemos que esta é a primeira que é abandonada pelos alunos, quando sentem dificuldades. Desde o início deste novo programa que vimos a alertar para este fator porque as dificuldades aumentaram.

Os resultados do 5.º ano foram piores que o do 2.º e os do 8.º piores que os do 5.º ano. Não é porque as dificuldades aumentam com os anos de ensino?

Não. O grau de dificuldade que deve ser adaptado a cada etapa. E o que notamos é que as dificuldades também estão a aparecer mais precocemente. Logo nas primeiras dificuldades, devíamos estar a responder com mais estudo acompanhado, mas ensino personalizado, mais condições de apoio. Sobretudo para os alunos do ensino básico, quando os programas são iguais para todos. A formação básica de todos os jovens deve ser assegurada em igualdade para todos e dar as garantias que todos sabem as mesmas coisas.

Este novo programa é mais exigente ou é demasiado extenso?

O problema é que é inapropriado porque tem uma conceção errada do ponto de vista das teorias curriculares, confunde a coerência matemática com o ensino e as condições para o ensino da matemática. Tem níveis de formalismos e abstração desadequados para os alunos e uma didática errónea. O que vai acontecer com este programa é um aumento da aversão à Matemática e do distanciamento. O programa está em aplicação há três anos e nós alertámos logo para este problema.

Existe algum compromisso para a análise dos programas?

Este ministério constituiu um grupo de trabalho para rever este programa e para o de Matemática A, porque têm chegado muitas queixas. Mas o resultado ficou muito aquém do que entendemos ser necessário. Houve minimização dos problemas, alguns consensos, mas não foram fáceis de obter e entendemos que devia sofrer ajustamentos de acordo com a prática e a investigação da didática da Matemática quer em Portugal quer em a nível internacional.

Estes ajustes entram quando em vigor? São suficientes?

São para aplicar no próximo ano letivo. Intervir agora para alterar todo o programa é mais uma medida avulsa. Está a decorrer um trabalho de definição das grandes finalidades do ensino obrigatório e só aí deverá haver uma intervenção nos programas. Esse trabalho vai ter que ser refeito e ao contrário. Primeiro os objetivos base e depois intervir nas disciplinas. No entanto, manter este programa vai causar um atraso muito significativo no futuro. Cada ano que passa com este programa, vai fazer com que os alunos, muito precocemente, sintam que não conseguem ter sucesso com esta Matemática e vão começar a desistir da disciplina e depois mais tarde vão desistir de frequentar áreas fundamentais para o desenvolvimento do país como as tecnologias.

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