Paulo Mendo: "É Mendo? Se é Mendo é do contra"

Nasceu numa família marcada pelos ideais republicanos e laicos. Os Mendos eram do contra, da oposição. Seguiu as pisadas, foi preso pela PIDE, exilou-se em Marrocos, mas nunca desistiu da medicina

Adalberto Paulo da Fonseca Mendo. Abreviando, Dr. Paulo Mendo. Médico, neurologista, neurorradiologista, diretor de serviço, diretor do Hospital de Santo António, político desde sempre, ministro da Saúde, republicano e laico. Tem quase 84 anos e é um homem do Norte. Um homem que "sempre foi feito no Norte", apesar de ter nascido em Lisboa. Não há que enganar, diz. A sua alma está no Porto, naquele Porto que conhece o nevoeiro ou a chuva miudinha, que não dispensa um certo ar setentrional, ou uma gente marcada por uma "humildade orgulhosa", "muito verdadeira", que ainda procura o aperto de mão e mantém a porta aberta para quem vier por bem. No Norte "procura-se a honradez", diz. Mas isso não faz, ou não fez que não gostasse de outros locais, como "Marrocos ou Lisboa", ou que deixasse de viajar. "Viajei muito com a Verónica." E é de Verónica, a mulher, com quem partilhou um amor de 61 anos, de quem mais nos fala. Verónica morreu há três anos, de doença prolongada, mas deixou-lhe o Sidi, um caniche com nome árabe - tal como todos os nomes que deram aos cachorros que tiveram durante a vida, e que foram vários -, de tom acastanhado e bem ensinado. "O nome significa senhor respeitoso. Foi para não me sentir sozinho." Paulo e Verónica apaixonaram-se aos 18 anos, casaram aos 22. Tiveram um filho, Pedro, e construíram "um amor que não era a prazo como os de agora." Ao filho, arquiteto, passou o gosto pela fotografia. Por isso, diz, estão sempre do outro lado da câmara. Da medicina, de que ainda fala no presente, está reformado desde o início de 2000. O filho, a nora, Florisa, também arquiteta, a neta, Ana, e o bisneto, Vicente, compõem o seu mundo familiar mais estreito. Não esquece que é o patriarca dos Mendos. Neste ano, reuniu todos num almoço, no fim de julho. Eram 80.

Nasceu em Lisboa, costuma dizer que sem culpa porque a sua alma está no Porto, como aconteceu?

A família do meu pai é de Mirandela, a da minha mãe é de Amarante. Mas é na do meu pai que está a história dos Mendos. Um senhor de Mogadouro que vai para Mirandela e passado algum tempo torna-se presidente da câmara, dono das cocheiras, do grande centro das diligências para Bragança, para Chaves e para toda a redondeza e que teve a sorte de ficar com a administração de uma grande propriedade agrícola, a Casa de Cima, uma casa senhorial (com capela, um pátio enorme e jardim interior) construída por uma família de Lisboa, Brederode, julgo, que não pensava ir para lá e convidou o meu avô. Ele tinha 18 anos, esteve lá até morrer, passou a administração ao filho, a um sobrinho, a um tio, a outro tio...

E Lisboa, onde é que aparece?

A minha avó, não tendo nada que fazer, teve filhos, 11, dois morreram, o mais novo era o meu pai, tinha uma diferença de 20 anos da irmã mais velha, a quem tratou sempre por madrinha, foi ela quem o educou. Mas muitos desses meus tios foram para África e para o Brasil, o meu pai foi muito marcado por aquela comunidade mirandelense e foi para o Porto, formou-se em Engenharia. Mirandela tinha cinco mil pessoas, nada para fazer. Em Lisboa havia os armazéns da CUF, estavam a precisar de engenheiros e ele aceitou uma proposta. A família foi toda, o meu irmão, mais velho do que eu três anos, tinha nascido no Porto, eu fui nascer a Alcântara, nas casas da União Fabril. Ali estivemos até o meu pai arranjar emprego nas minas de carvão de São Pedro da Cova. Regressámos ao Porto quando tinha 6 meses. É por isso que digo que nasci em Lisboa mas não tenho culpa.

Nunca teve ligação a Lisboa?

Sou mirandelense da diáspora e Lisboa, para mim, não é de modo algum a minha terra. Sou de tal forma mirandelense que com 10 anos ia sozinho para lá. Metia-me no comboio, no Porto, e ia até ao Tua, onde ficava à espera de outro comboio e só chegava a Mirandela quase à noite. Lembro-me de o revisor não acreditar que eu tinha 10 anos e de me pedir o bilhete de identidade. "Andas aqui sozinho?", dizia-me. Os meus pais ficavam preocupados, mas eu teimava que queria ir de férias para a Casa de Cima.

Deixavam-no fazer o queria?

Deram-me liberdade e responsabilidade, mas devem ter sofrido um bocado. Nas férias íamos para a praia, para a Póvoa ou para Mirandela, mas quando os meus pais queriam ir para outro sítio, eu ia sozinho. Numa ocasião eles decidiram ir a França, eu não quis ir. Queria passar o verão na Póvoa, eles foram comigo até lá, viram uma pensão e perguntaram ao dono se podia ficar, pagaram tudo e ali fiquei durante um mês. Tinha uns 14 anos.

Isso era muito avançado...

A minha família sempre esteve marcada pelo seu espírito aberto. De tal forma, que uma amiga da minha mãe estava grávida e gostava do nome Paulo e queria pô-lo ao filho, mas disse-lhe com toda a sinceridade: "É o nome do teu filho e ele já vai ser infeliz com a política..." Os Mendos eram conhecidos como republicanos e laicos. O meu avô foi presidente da Câmara de Mirandela e ficou conhecido como um espírito muito aberto. O meu pai seguiu Engenharia e como estudante ficou marcado por estar sempre metido em associações académicas, fazer poesia, escrever peças de teatro, ser irreverente, lançar piadas aos catedráticos e depois, como assistente da Faculdade de Engenharia, professor, doutorado, pediu eleições livres depois da II Guerra Mundial e acabou expulso. O meu avô materno [Pinto da Fonseca] era coronel do exército, do Partido Republicano, deputado pelo Porto, participou na revolução de fevereiro e foi exilado para a Bélgica. O meu tio paterno era tenente do exército, esteve às ordens do general Sousa Dias, que foi o chefe da revolução de fevereiro, e foi expulso e exilado para Angola, de onde regressou passados uns anos. O irmão da minha mãe, tenente, foi colocado em Moçambique e seguiu a administração das províncias de Manique e Sofala. Foi sempre assim.

E continuou consigo...

Com os meus 14-15 anos ia à biblioteca do clube de São Pedro da Cova requisitar os livros que tinham as folhas fechadas, como O Crime do Padre Amaro, abria as folhas, passava-os a alguém para os ler e voltava a pô-los no lugar. Era uma maneira de as pessoas da terra lerem aqueles livros, mas de o padre, que gostava de controlar estas coisas, não saber. A mim, ele não podia fazer nada, era sócio da biblioteca e podia requisitá-los. Toda a gente sabia que eu era do contra (oposição) já com aquela idade. Isto resultava de um comportamento pessoal de grande liberdade, mas ao mesmo tempo de uma grande responsabilidade, não era uma coisa só minha, era uma coisa que abrangia toda a família Mendo. "É Mendo? Se é Mendo é do contra", diziam.

Na adolescência já era conhecido pela Igreja, isso não o assustava?

Não. A Igreja teve sempre muito peso. Era a Igreja que controlava as consciências, que dava informações da minha família e que depois as deu contra mim. A minha família, quer de um lado quer do outro, não era religiosa. O meu pai casou com a minha mãe, certamente, porque as famílias já se davam, pelos seus ideais republicanos e laicos.

Em São Pedro da Cova estudou com os filhos dos mineiros?

Fiz toda a instrução na escola pública de São Pedro da Cova, os outros engenheiros ou funcionários superiores tinham os filhos numa escola própria ou com um professor que ia a casa. Quando acabei fui para o Liceu Alexandre Herculano, também público, no Porto. Havia uma linha direta de elétrico, o 10, que passava pelo liceu e ia até São Pedro da Cova. Vinha às sete da manhã, às oito chegava ao liceu, esperava uma hora que as aulas começassem, acabavam às quatro, esperava até às cinco pelo elétrico e chegava às seis a casa. Fui sempre bom aluno, tinha uma hora de elétrico para estudar.

O ensino público foi uma opção?

Foi uma opção, mas era uma opção que nem tinha discussão. Era a escola pública e não se colocava de outra maneira. Vivi com aquela gente e com os miúdos da minha idade. Se quisesse jogar à bola, tirava os sapatos, porque eles jogavam descalços. Era uma vida dura, mas com uma professora magnífica, Arlinda Vilarinho, por quem fiquei sempre com grande admiração. Dou o nome dela a qualquer coisa para não me esquecer.

Ficou-lhe na memória?

Sempre. A primeira e única da instrução primária, extraordinária. Foi a pessoa que me ensinou administração pública. Chegámos à 4.ª classe e disse-nos: "Este ano vamos ver o mar, vamos à Foz. É um objetivo político, temos de nos organizar como um país se organiza. Há um que vai ficar encarregado de estudar o trajeto, faz de administração interna, outro vai guardar um centavo de todos vós todas as semanas, é das finanças... etc." Assim fizemos, alugámos um elétrico, fomos à Foz e voltámos. Nesse ano, ficámos a saber como as coisas se organizavam. Mas de todos os meus colegas, fui o único a ir para o liceu.

A infância acabava ali...

A 4.ª classe no meu tempo era o fim da infância. Fazíamos o exame da 4.ª classe e saíamos com distinção ou não, mas a partir daí eramos rapazes. Os meus colegas que não seguiram entraram em perda do que tinham aprendido e só depois, aos 18 ou 20 anos, quando acabava a adolescência e começava a adultez e iam à tropa, recuperavam o saber ler, aprendiam uma profissão, aprendiam a conduzir e adquiriam mais alguma instrução.

Marcou-o viver com aquela gente?

Eu vi o que era aquela sociedade. A tuberculose atingia uma quantidade enorme de mineiros que eram completamente explorados, tal como outros funcionários da mina, com salários baixos. Os que para ali iam tinham normalmente autorização para fazer compras a prazo na cooperativa - a comprativa, como eles chamavam -, mas começavam a dever dinheiro e um ou dois anos depois estavam nas mãos do patronato e não se podiam ir embora. Falavam mal, diziam "todas las semanas", transformavam os erres em eles, como por exemplo "vou dale uma vorta". Uma das nossas criadas dizia muitas vezes presumar. Um dia, a minha mãe disse-lhe: "Ó Maria, não é presumar, é presumir." Ela ficou a pensar: "Presumir?, tem a certeza?, ó minha senhora, se eu dissesse presumir lá fora todos julgavam que eu estava a presumar." Não precisei de ir a África para ver uma economia colonial, ela existia a 12 quilómetros do Porto. Vim para o meio citadino revoltado e sem qualquer travão, só com o da responsabilidade do comportamento, dado pela minha família.

Como foi parar a Medicina?

Não me lembro de querer ser outra coisa que não médico e não tinha ninguém na família. É meio sinistro, quando havia um desastre nas minas ou morria alguém eu ia a correr ver o corpo. O meu irmão matava um pardal e eu tinha de o abrir para ver como aquele organismo funcionava. Marcou-me de forma exagerada, porque eu gosto muito de outras coisas, mas nunca pensei em mais nada que não em medicina. Nos 6.º e 7.º anos tive 19 a Matemática e 16 a Biologia. Toda a gente me perguntava se não preferia ir para Matemática e eu dizia que não. "Sei fazer contas sem errar, o que é muito diferente", respondia. Posso garantir que já era estudante de Medicina quando ouvi um colega explicar o que era o zero, não sabia o que era. Ficou tudo varado.

No átrio em Belas-Artes vi a Verónica. Tinha 18 anos. Ela era candidata à associação. Já não saí dali

A Medicina foi uma coisa natural, e a neurologia?

Já lá vamos. Como era bom aluno, mais de 16, entrei na faculdade sem exame de admissão. A Medicina era mais ao menos a liberdade que os meus pais me davam, mas sem responsabilidade, andava para ali, ninguém me ligava, não havia obrigatoriedade de ir às aulas, os professores diziam quatro coisas e exigiam 40. E eu detestei. Fiz o 1.º ano e quando o acabei tinha-me metido na política a sério, no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), e depois falhei dois anos, uma espécie de anos sabáticos. Nos 17 e 18 anos só fiz política e resolvi tirar Belas-Artes.

Interrompeu o curso?

Disse aos meus pais que queria mudar, eles aceitaram. Voltei ao liceu para fazer os exames de Geometria Descritiva e História, que eram nucleares para Belas-Artes. Era lá que estavam os meus amigos, e foi onde comecei a fazer política e a tentar criar associações académicas. Um dia, ia a Belas-Artes fazer política e no átrio vi a Verónica, a minha mulher. Foi em 1950, tinha 18 anos, já não saí dali. Foi-me apresentada por alguém do meu grupo como uma das candidatas à associação académica. Era boa aluna a pintura, escultura e tinha muito prestígio na escola. Demo-nos logo bem e ela conseguiu convencer-me a voltar para Medicina. Em 1951 começo o 2.º ano, depois o 3.º, mas sempre na política e ligado ao MUD, o herdeiro do movimento de unidade não comunista - porque disse sempre que era anticomunista, a história da minha família era na sua essência libertária, tolerante e de responsabilidade individual. Mas dei-me bem com comunistas, depois fui julgado com eles.

Foi preso pela PIDE?

No 4.º ano, altura em que casei. A Verónica tinha acabado os primeiros quatro anos de Belas-Artes, entrado no superior e já podia dar aulas. Concorre ao professorado, fica em Gondomar, mas mal entra o lugar é cortado e vem para a rua, e eu fui preso pela PIDE. Estive dois meses e meio, quase três, o tempo necessário para me prenderem no final de abril e me soltarem no fim das aulas. Estive numa cela, às escuras, e sempre isolado, na Rua do Heroísmo, nome engraçado. Queriam que eu chumbasse, mas fui falar com os professores, bastava-me passar a duas cadeiras para fazer o ano, e a cada um disse que por causa dele chumbava. Todos me fizeram o exame, deram-me notas relativamente boas. E passei.

Mas houve um julgamento?

Todo o grupo do Porto metido em associações académicas foi julgado. A PIDE, muito bem industriada, juntou a este grupo do Porto militantes do Movimento da Paz, onde estava o Óscar Lopes, outras figuras e dirigentes do MUD Juvenil de Lisboa, que tinham ligações ao Partido Comunista, como o Pedro Ramos de Almeida, o Ângelo Veloso e o Agostinho Neto, e conseguiu construir uma acusação com o argumento de que o MUD Juvenil era um departamento do Partido Comunista. O julgamento levou sete meses e éramos 51 arguidos. Foi no Tribunal Plenário do Porto, que ficava no cruzamento da Rua Formosa com a Rua da Alegria, uma esquina de grande movimento e estreita, de um lado tinha o tribunal, do outro um café, o Dragão. Ali se juntou muita gente, e durante sete meses foi um sítio de comício permanente. Morreram dois presos pela PIDE, no dia seguinte a sabermos das notícias ficámos de pé um minuto de silêncio, os advogados explicaram a razão, foi sabido na rua e causou agitação. Isto teve como consequência política a forte oposição dos anos 1957-58 no Porto, que culminou com a candidatura do general Humberto Delgado contra Lisboa.

E o final?

A maior parte dos arguidos foram absolvidos, eu fui, os outros foram fortemente condenados. O pelotão da frente apanhou todo quatro anos de cadeia. Um deles foi o meu amigo Luís de Carvalho, diretor depois de mim do Hospital de Santo António. Foi considerado responsável, sujeito a tortura, a estátua, durante seis dias.

Voltando a si, acabou o curso?

Não. Ainda há a tropa. Estamos em 1957 e vou para a tropa, aceitavam os estudantes de Medicina nos últimos anos para ficarem logo formados. Vou para Mafra nos 5.º e 6.º anos. Tinha 25 anos e fiz um requerimento para que me deixassem fazer o segundo ciclo da tropa no ano seguinte. Foi autorizado. Fui para Lisboa fazer o segundo ciclo no Hospital Militar, na Graça, já como médico, porque naquela altura para o exército éramos médicos com o 6.º ano. Tive boas notas e fui colocado no Hospital Militar, na Boavista, no Porto, onde poderia fazer o meu estágio e assim completar o curso. Mas a tropa travou isso outra vez. À secretaria do quartel chegou um telegrama do ministro da Defesa dizendo: "Esse senhor (que era eu) não tem moral para ser oficial do exército português, pelo que passa a magala." No mesmo dia sou destacado para Lisboa, fico no quartel da Graça como adido à biblioteca. Estive dez meses sem saber o que havia de fazer, até eles acharem por bem livrarem-me por ter uma otite crónica. Eles queriam ver-se livres de mim, eu não podia ser magala porque tinha feito o curso de oficial, e não podia ser oficial porque era cadete médico. Por onde passava era um escândalo. "Ó doutor, é cadete?, mas já não há cadetes", diziam-me. E eu respondia: "Não me promovem." "Ai, os pulhas..." Saí, paguei a taxa militar. Vi-me livre da tropa.

Sai e volta ao Porto, é assim que surge a neurologia?

Volto ao Porto, faço o resto do curso. Por contrato da faculdade entro no Hospital de São João, em 1959, foi quando me formei, me inscrevi na Ordem dos Médicos e me informei do que era preciso para ser neurologista. Eu gosto de todas as especialidades da medicina, mas queria muito uma coisa médica, de preferência com doentes. E o professor Emídio Ribeiro, no São João, convida-me para assistente de neurologia, ele era internista e professor, não era neurologista. Para ir para neurologia e ser assistente de um internista como é que fazia o currículo? Na altura, era bem pago, cem escudos por dia, mas eu e o Luís Carvalho preferimos ir ver o que estava o professor Corino Andrade a fazer no Santo António.

É quando chega ao Santo António, à sua "casa"...

É verdade. Conhecia mal o Dr. Corino, mas o grupo que lá estava, sobretudo dois, o Manuel Canijo, que fez neurofisiologia na Europa e era afilhado dele, e o Mário Leão, o neurocirurgião que foi comigo para Marrocos e que já lá trabalhava, entusiasmaram-me. Fui falar com o Dr. Corino: "Quando quiser venha para cá, que depois a gente vê." Foi assim, de repente, um grupo dos que estiveram presos, o próprio Dr. Corino tinha estado, estavam ali a trabalhar com o patrão, como lhe chamava. Foi um mestre, uma pessoa extraordinária. Estive lá um ano, durante o qual eu e o Mário Leão desenvolvemos a neurocirurgia de traumatologia de urgência de forma espetacular. Em 1961, perdi cem noites, em cada três passava uma a operar, assumimos a responsabilidade de todas as situações de traumatologia. Um ano depois, o Dr. Corino diz à administração: "Ou nos dão um serviço para a urgência, ou desistimos." Chegava tarde, eu e o Mário Leão tínhamos decidido ir ver como passavam as modas em Marrocos. Tinha começado a Guerra Colonial e diziam que os médicos iam ser mobilizados.

É a guerra colonial que o faz sair do país, era contra?

A mim e a outros dois, o Vítor Blanc, anestesista, e o Mário Leão, neurocirurgião. Um amigo dos Hospitais Civis de Lisboa disse-nos que havia um hospital em Marrocos muito bom. E decidimos ir. O Luís Carvalho foi substituir-nos e o serviço do Santo António não fechou. Não considerava a guerra justa e, o facto de ter tido tantas questões na tropa, tive receio de ser de novo atingido de forma traumática.

Ir para Marrocos foi um exílio?

Ir para Marrocos significou mudar tudo. O meu filho, o Pedro, tinha 6 anos, ia para a escola, a Verónica dava aulas e deixou o emprego. Foi meter as coisas no carro, um dois cavalos, e partimos, mais ao menos pelo Natal.

Não tiveram receio?

Fomos diretos a Rabat, à capital do reino, ter com o tal amigo António Dores, dos Hospitais Civis de Lisboa, que trabalhava no Hospital de Avicenne. Ele levou-nos ao diretor, Mr. Tonelot, um francês, que nos aceitava mas para as urgências. "Não há neurologia nem neurocirurgia e não posso nomeá-los para uma coisa que não existe. Vão para a urgência, cumprem 48 horas por semana e nos intervalos (não havia nenhum porque saíamos estafados) fazem neurologia e neurocirurgia. Para isso, dou-vos um espaço." Ainda hesitámos, e colocou-se a hipótese de irmos para a Argélia, onde estavam os nossos colegas revolucionários, mas recusámos, o colonialismo de lá era muito pior do que aquele. Ficámos e fizemos clínica de urgência, que era muito diferente da nossa. O hospital trabalhava em full time, muito melhor do que os nossos. Tratámos vários casos de traumatologia cirúrgica, que correram bem, e no serviço de urgência éramos mais cuidadosos do que aqueles que sabiam muito. Ao fim de seis meses, Mr. Tonelot disse-nos que tínhamos dado provas de eficiência na urgência, ao mesmo tempo que montámos o serviço de neurologia e neurocirurgia. Por isso, "passam a fazer só isto". Nas urgências, fomos substituídos por oito jugoslavos.

Então compensou...

Tivemos uma luta, mas foi profissional. Fizemos um trabalho inacreditável. Entrávamos às oito da manhã e saíamos às oito do dia seguinte para pegar na neurologia, como um dia normal de trabalho. No dia seguinte, voltávamos a entrar nas urgências, e era assim sucessivamente eu e o Mário Leão. Na parte da anestesia, o Vítor era jovem mas bom profissional e rapidamente começou a ser chamado para as coisas difíceis. Um dia, Madame Delonce, médica francesa e diretora do serviço de medicina interna, chama o neurologista, eu, para ver um doente internado nos cuidados intensivos com ataques epilépticos. Vejo o doente, observo a face, umas lesões na pele, um fundo de olho com essas coisas e uma radiografia do crânio com calcificações. Isto é, por assinatura, uma coisa chamada facomatose, uma doença grave e rara da neurologia. Quando lhe digo isso, ela não sabe o que é. Explico que há quatro tipos e quais e digo que o doente tem provavelmente um ligeiro atraso mental, com crises convulsivas. Foi a entrada no grupo dos médicos franceses, passaram a ter confiança nos portugueses. Vivíamos a sério ali, não tínhamos clínica fora, almoçávamos e jantávamos na sala dos internos.

Sentiram-se em casa.

Logo, mas já nos sentíamos porque assim que lá chegámos tivemos de fazer contratos e o diretor do hospital mandou-nos ir ter com o diretor do departamento de tesouraria, um economista, que tinha regressado de lua-de-mel e nos contou: "Estive na Curia, adorei." Uma semana depois estávamos convidados para ir a casa dele, passou a ser o nosso protetor e sobretudo nosso amigo, uma amizade que se mantém. Mamoun Idrissi e Fatma tornaram-se a minha família marroquina, os meus compadres, têm três filhos e nove netos. Fiquei com uma forte ligação a Marrocos, é a minha segunda pátria, ia lá duas a três vezes por ano, agora não tanto, mas gosto muito da cultura berbere e árabe.

Numa cultura tão diferente, acabou por encontrar afinidades?

Não afinidades, mas os mesmos comportamentos, angústias, desejos e objetivos que um pai pode ter em relação a um filho, a nível pessoal e profissional. É igual em tudo e estou convencido de que é igual em qualquer parte do mundo que não seja de loucos. O que aprendem no Corão é, quanto a eles, uma criação de comportamentos bons, simplesmente têm menos sete séculos do que nós, e há sete séculos nós tínhamos a Inquisição. Eles têm agora esta coisa perfeitamente terrível que é o EI, do qual (a minha família ou os marroquinos, na sua maioria) têm um medo pavoroso porque não é nada o seu espírito.

Deste lado faz sentido a cultura antiárabe em relação aos refugiados ou ao burquíni?

O que se há de fazer quando da parte deles há também uma radicalização? A outra parte radicaliza-se necessariamente. O único problema que houve foi o multiculturalismo, que permitiu a existência dentro de uma sociedade de outra sociedade independente. Quando se permite em França, não só em Marselha mas noutras cidades, bairros inteiros onde a polícia não entra, é evidente que não é possível que aqui se cumpram as regras francesas. Quando vou a França tenho de cumprir a lei, e o mundo francês não foi capaz de impor isso como regra, quase que impôs o multiculturalismo. Agora é muito difícil voltar atrás. Querem multar o burquíni? Em nome de quê? À praia vai-se como se quiser. E as mulheres estão de cara destapada, conhecem-se.

O que o fez sair de Marrocos?

O prazo dos passaportes chegou ao fim. Fui falar com o embaixador, que recusou renovar: "Nem pense, não tenho autoridade." Argumentei: "Não tem?, mas o senhor é o embaixador, até agora fui representado por si." "Nem pense nisso. Vá a Lisboa", disse. Respondi: "Se vou a Lisboa sou preso." Ele: "Pois é, não se metesse nas coisas." A partir daqui, ou ia à ONU em Marrocos pedir um passaporte internacional de refugiado, e isso significava ter autorização da ONU para tudo, o que não queria, ou ia para a Argélia meter-me debaixo da proteção da chamada emigração portuguesa política, o que era mortal.

Nunca se quis misturar com a geração da Argélia...

Não fazia parte dessa geração. Não me teria importado de ser refugiado político na Argélia se ali tivessem conseguido fazer uma comunidade decente, mas era execrável. Decidi voltar a Portugal. Entrei na fronteira de comboio, o passaporte tinha acabado dias antes, mas não me ligaram nenhuma. Cheguei ao Porto no final de agosto de 1964, fui ao Hospital de Santo António e recuperei o meu lugar, que era de borla. O diretor, Domingos Braga da Cruz, ofereceu-me proteção. Naquela altura era assim: "Está descansado que eu defendo-te." Ele era um dos homens importantes do Estado Novo.

E retomou a sua vida...

Não tinha a especialidade de neurologia, mas tinha um bom currículo de coisas feitas em Marrocos, onde estive como assistente. Mas o Dr. Corino diz-nos que tinha lido que o futuro era a tomografia axial computorizada (TAC) e a ressonância magnética. "Dentro do domínio da física, a imagem vai ser fundamental na neurorradiologia e temos de estar atentos, haverá aqui alguém interessado na área? Ó Mendo, não quer a neurorradiologia?" Disse que sim, a partir daí toda a neurorradiologia passou a ser feita por mim, foi o primeiro serviço do país, e formei os primeiros especialistas.

O serviço era o doutor, mas não ganhava, como é que vivia?

Isso era a minha geração, a geração de agora não sabe o que passaram as gerações antigas. Só se ganhava nos consultórios. Só passei a ter ordenado no hospital em 1968. Estive seis anos sem ganhar nada, vivia com o que conseguia ganhar dos restos da medicina privada dos outros que tinham consultórios e me pediam para fazer exames.

Mas continuou no hospital por ser a favor do serviço público.

Sempre fui um servidor do Estado, nunca quis clínica livre nem privada, não por detestar quem o faça, porque a privada é perfeitamente essencial, é um dos pilares do SNS, não podemos considerar que é só para ganhar dinheiro e para explorar não sei quem e não sei o quê, como diz uma esquerda analfabeta. Defendo é a existência dos dois pilares, o Estado e o privado, mas independentes. Eu não era capaz de estar a trabalhar e de me perguntarem: "Quanto é, senhor doutor", e eu dizer: "E mil escudos, ou o que fosse, não era capaz." Por isso ter um ordenado ao fim do mês era muito bom.

Esse espírito foi diluído do SNS?

Não, este espírito existia no Decreto-Lei n.º 310/82 das Carreiras Médicas, criadas por mim e com o apoio do ministro Luís Barbosa quando fui secretário de Estado. Mas depois veio a ministra Leonor Beleza que o revogou, retirando-lhe dignidade e prestígio. O decreto dava aos médicos uma carreira de Estado com a mesma dignidade que tinham militares e juízes, partindo do princípio de que há vários serviços públicos que não podem nem devem ser tratados de forma igual. Se partirmos desse princípio, é a destruição do serviço público.

Recorda-se do primeiro doente que tratou?

Não, mas recordo-me de muitos doentes.

Em tempos, disse que tratar mal um doente poderia ser razão para despedir com justa causa qualquer profissional de saúde.

Claro. A relação com o doente é primordial na medicina. Dou-lhe um exemplo. Nos últimos tempos como diretor do Santo António, aparece uma senhora que queria falar comigo, como diretor recebia sempre todas as pessoas que pedissem. Era uma jovem advogada e disse-me que tinha ido ao serviço de urgência com dores de garganta e temperatura: "Sr. Dr., fui recebida por uma médica jovem a quem disse que tinha dores de garganta e temperatura e que se calhar era amigdalite. Ela respondeu-me: "Se já fez o diagnóstico, o que veio cá lá fazer?" Não acho certo." Chamei a médica, que alegou estar estafada, eram oito horas, ia sair, estava há 24 horas de banco, etc. Tive de lhe dizer que pensasse a sério se queria ser clínica, porque senão estava a tempo de ir para o laboratório ou para outro sítio, porque se ia começar a ser juíza dos doentes que lhe apareciam - que tinham todo o direito de dizer as asneiras que quisessem - estava a tempo de desistir. Dizia muitas vezes aos meus alunos: "Os primeiros trinta segundos de uma consulta são suficientes para ver quem é o médico. Se é o olá como está... com os olhos na máquina de escrever ou agora no computador, ou o sente-se aí, ou o que é que tem... vão fazer clínica para o raio que os parta." O ser doente confere-lhe um direito e um estatuto cuja responsabilidade cai diretamente no médico, não significa que não se responsabilize o doente. Mas é o médico que tem de ser responsável. Quando fui ministro introduzi a humanização dos serviços, em 1993.

Fez parte de uma geração de luxo, acha que a geração de luxo de agora está a sair do país?

Não. Está a sair como todos as outras, todas estas pessoas de que lhe falei saíram do país. Umas por uns motivos, outras por outros, mas faz parte da profissão o conhecimento dos serviços estrangeiros.

Acredita que voltam?

Vão voltar todas, vai ver.

Em Portugal faz-se medicina com entusiasmo?

Um médico só sabe fazer medicina com entusiasmo. Até aos 45 anos temos concursos em que é o mérito que dita o nosso percurso. Por isso sou profundamente contra a política de parar os concursos e permitir a ascensão fora disto ou pelos contratos individuais, como existem. Agora, a lei diz que o diretor de serviço ou a ARS podem contratar, e contratam de forma igual ao privado, com o privado a pagar mais. É claro que saem do serviço público, desapareceu o tal espírito de se ser servidor do público, ou o ter uma carreira no Estado, mas para isso era necessário ter algumas garantias, como uma pensão de reforma e algum prestígio, tudo isso foi banido.

Na década de 1980 criou também a especialidade de clínica geral e familiar...

Era fundamental. Os estudantes faziam o curso, depois o internato geral e depois um internato com um concurso nacional e um júri nacional. Agora ando a vender o peixe que ninguém quer comprar. Mas é o futuro. Considero que não se está a fazer reforma nenhuma, faz-se a administração do que se tem. A reforma, quanto a mim, é a atualização de tempos a tempos, como a internet faz dos sistemas e dos modelos existentes. É pegar nos hospitais e reconhecer que foi uma instituição de saúde criada com características para servir as necessidades do pós-guerra. Um mundo moderno que teve como grande pilar a ciência: o hospital é que estuda, o hospital é que vê, o hospital é que decide. Passados estes anos, o hospital faz transplantes, tira cabeças, braços e faz tudo, mas temos tempos de espera inacreditáveis para os doentes serem observados, estudados. Ao fim deste tempo, digo que o mundo da medicina evoluiu obrigatoriamente para outros objetivos, e esses são cada vez mais os cuidados em ambulatório. O cidadão não gosta e não quer o tratamento hospitalar. Por exemplo, no meu hospital, a pediatria deixou de ter 200 camas para ter 40, mesmo essas sobram, porque hoje é quase tudo tratado em casa. O cidadão não gosta, ou não quer como antigamente o tratamento hospitalar, para os hospitais ficam os cuidados secundários, tudo o resto pode ser tratado em ambulatório. Isto significa, e se calhar vou surpreendê-la, que o hospital não tem de ter internamento e que o centro de saúde deve multiplicar a sua capacidade nos cuidados de ambulatório. O hospital deve ser palco para especialidades como neurorradiologia e cirurgia vascular, deve ser palco para todas as coisas que peçam equipamentos pesados e que obriguem ao internamento de doentes nos cuidados intensivos e no recobro, mas uma coisa mínima. O centro de saúde, ou uma unidade de saúde, é que deveria ficar com a administração dos cuidados em ambulatório do próprio hospital. Por exemplo, o serviço de neurologia tem uma consulta de neurocirurgia e de neurorradiologia, essas consultas não deveriam ser administradas pelo hospital mas pelo centro de saúde ou pela tal unidade em ligação com o serviço de neurologia. O centro de saúde deveria administrar todas as especialidades em ambulatório.

Aceitar o cargo de ministro foi um compromisso pelo país?

Não, quando penso no país penso em saúde. Foi a vontade de fazer algo. Já tinha sido secretário de Estado duas vezes, uma pelo PS, no I Governo Constitucional em 1976-77, outra pelo CDS, na AD, em 1981-82-83, com um belíssimo ministro, Luís Barbosa. Por isso, quando fui convidado pelo professor Cavaco, ele convenceu-me. Disse-me que costumava ler os meus artigos, escrevia há muito no Jornal de Notícias. "Conheço a sua história, estou de acordo consigo e pode ter a certeza de que o apoio, gostaria que fosse meu colaborador, se não for na Saúde, pode ser na Educação." Ao que eu lhe disse [risos]: "Ou é na Saúde ou não é em nada, não sirvo para qualquer coisa." Passado pouco tempo telefonou-me a dizer que era a Saúde. "Quer ou não quer?" Aceitei, pensei que poderia fazer alguma coisa e que teria mais uma legislatura para pôr em prática a reforma que queria fazer no SNS para os hospitais, centros de saúde, a nível do financiamento e tendo como objetivo uns 20 anos. Mas, mais à frente, o professor, em Conselho de Ministros, anuncia que não se vai recandidatar às eleições de 1995, ainda pensei que iríamos ganhar, mas não. E não tive tempo para nada. O professor Cavaco, por quem tenho uma amizade respeitosa, disse: "Vou-me embora." Tinha todo o direito, certo é que os compromissos não eram esses.

Falou na Dra. Leonor Beleza, considera que fez mal, mas ela faz parte da sua família política, a social-democracia, ou não é assim?

Sou social-democrata por educação e experiência porque a minha família o era, porque essa social-democracia coloca como virtudes essenciais a responsabilidade individual e o comportamento. Estas duas coisas são para mim absolutamente essenciais, nunca quis ingressar num partido por isso, apesar de ter tido sempre uma atuação cívica grande. Só em 1989, depois de ter sido secretário de Estado e quando o Luís Filipe Menezes me convidou para integrar o partido, é que aceitei. Na altura, num jantar para umas 150 pessoas, expliquei porquê: "Quero ter atividade cívica e neste país é preciso pertencer a um partido e ter um apoio partidário para a ter, o PSD é o partido que me dá maior liberdade de ser o que quero ser, é o partido em que posso discordar, ter ideias próprias e um espaço mínimo de liberdade que exijo e que os outros partidos não têm." Era esta a dinâmica do PSD que me interessava e não os grandes princípios organizativos do partido. Agora não sinto isso, o partido está igual aos outros, muito administrativo, burocrático, muito "olha que ele é dos nossos", tem todos os vícios dos outros. Há tempos encontrei o Pedro [Passos Coelho] e disse-lhe: "Tenho grande admiração por si, embora considere que o partido esteja numa fase má."

Tem quase 84 anos. Como é hoje o seu dia-a-dia?

Levanto-me às seis ou sete da manhã, mais cedo do que quando ia para o hospital. Vou passear o meu cãozinho, o Sidi, que é a minha terapêutica tranquilizante, depois agarro-me ao computador e vejo o correio informático e o digital, leio, normalmente o Observador. Quando a minha funcionária chega, que é uma colaboradora do tempo da minha mulher - é cada vez mais a minha governanta, hoje não queria que eu estivesse em mangas de camisa, vinha cá a senhora jornalista, e ela não queria. É assim [risos] -, vou tomar o pequeno- almoço, comprar o jornal, fazer as compras, volto para casa e acabo por ficar aqui, sou muito caseiro, neste universo de livros por todo o lado. Agora estou a ler um que é essencial, O Mundo sem Regras, de Amin Maalouf, mas também escrevo muito.

Não há nada escrito sobre o seu lado pessoal, não está a escrever as suas memórias?

Não. Só tenho memória em grupo, sou muito voltado para o exterior, o que eu sou não interessa. Sozinho sou pior do que o meu cachorro, fico a olhar para o teto.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Legalização da canábis, um debate sóbrio 

O debate público em Portugal sobre a legalização da canábis é frequentemente tratado com displicência. Uns arrumam rapidamente o assunto como irrelevante; outros acusam os proponentes de usarem o tema como mera bandeira política. Tais atitudes fazem pouco sentido, por dois motivos. Primeiro, a discussão sobre o enquadramento legal da canábis está hoje em curso em vários pontos do mundo, não faltando bons motivos para tal. Segundo, Portugal tem bons motivos e está em boas condições para fazer esse caminho. Resta saber se há vontade.

Premium

nuno camarneiro

É Natal, é Natal

A criança puxa a mãe pela manga na direcção do corredor dos brinquedos. - Olha, mamã! Anda por aqui, anda! A mãe resiste. - Primeiro vamos ao pão, depois logo se vê... - Mas, oh, mamã! A senhora veste roupas cansadas e sapatos com gelhas e calos, as mãos são de empregada de limpeza ou operária, o rosto é um retrato de tristeza. Olho para o cesto das compras e vejo latas de atum, um quilo de arroz e dois pacotes de leite, tudo de marca branca. A menina deixa-se levar contrariada, os olhos fixados nas cores e nos brilhos que se afastam. - Depois vamos, não vamos, mamã? - Depois logo se vê, filhinha, depois logo se vê...