António Marto: "Até eu mudei com o Papa Francisco como pastor"

Falta pouco mais de um mês para a vinda do Papa a Fátima, algo que não preocupa o bispo da diocese, D. António Marto. Justifica que há muita gente a trabalhar na visita e há muito tempo. Desde que foi nomeado para a diocese de Leiria-Fátima (2006) foi anfitrião de Bento XVI (2010) e agora será de Francisco. A quem elogia a "frescura" e o trabalho: o voltar ao evangelho e às origens, o que está a mudar na Igreja. Mudanças que também sente - é um "pastor" mais acolhedor e próximo das pessoas.

Recebeu Bento XVI, agora o Papa Francisco. Quais são as diferenças?

A diferença maior é que este Papa vem como peregrino. Vem participar e presidir às celebrações sem qualquer tipo de encontros como aconteceu com Bento XVI, que esteve com a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), com os sacerdotes, com os religiosos e seminaristas, com as gentes da ação social da Igreja. Agora não há nada disso, o Papa vem como peregrino, para rezar pela paz no mundo e confiar o seu pontificado à proteção de Nossa Senhora. Gosto muito dos dois. O anterior tinha sido meu professor, este traz toda aquela frescura que vem da sua experiência na América Latina, não é da Europa. A Europa, do ponto de vista cultural, político e religioso dá sinais de cansaço, não há criatividade.

É o culminar das celebrações?

É, porque quando o Papa peregrina como pastor universal da Igreja é toda a Igreja que peregrina com ele.

Mas não deixa de ser figura de Estado.

Mas não faz visita de Estado.

Será recebido pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro. Nunca será um peregrino qualquer.

Sim, mas predominantemente é um peregrino. Aterrasse o avião em Lisboa e seria diferente. Há uma gentileza das autoridades em o quererem receber.

Tanto a Igreja como a República arrogam a paternidade do convite. António Marto convidou-o há dois anos e Marcelo Rebelo há um, na sua primeira deslocação ao estrangeiro como PR. Afinal, quem desencadeou a visita?

O primeiro a convidar foi o bispo de Fátima, seguido de uma carta do episcopado. Mas nunca poderia vir sem uma carta por parte do Estado e o Presidente da República representa o povo português.

Sente-se equiparado ao PR?

Não, são coisas muito diferentes. Sou o bispo de uma diocese que tem este santuário, onde se comemora o Centenário das Aparições, e que não podia deixar de fazer o convite ao Papa.

E o Patriarcado?

O Patriarcado não tinha de se envolver, a conferência episcopal tem um representante na equipa que está a preparar a visita com o Vaticano, que é o seu secretário, Manuel Barbosa.

D. Manuel Clemente preside à CEP.

Também foi ouvido e terá a oportunidade de falar no almoço do Papa com os bispos, onde fará uma saudação.

Espera-se um milhão de pessoas, como é que vão lidar com essa multidão?

Houve alguém que falou em um milhão mas sinceramente não sei ...

Mas gostaria que viesse um milhão.

Gostaria mas não sei se será esse número. Quando veio o Bento XVI estiveram 500 mil pessoas, se viessem 750 mil seria muito bom. Sabemos que está tudo ocupado em Fátima e nos arredores. E há muita gente que traz a tenda.

Fátima também é um comércio, há muita especulação dos preços.

Mas não podemos dizer que são todos, é uma injustiça dizer que todos os hotéis fazem isso, são uma minoria.

O senhor bispo ainda há pouco tempo apelou às pessoas para virem em maio.

Apelo aos fiéis da diocese que é a depositária da mensagem de Fátima e tem a responsabilidade em difundi-la. Tinha de apelar para manifestarem o seu calor ao Papa. Mas nem seria preciso, a figura do Papa é apelativa.

A figura do Papa ou Francisco?

O Papa Francisco, sim. Mas Bento XVI também teve muita gente e veio num momento em que a Igreja sofria uma crise devido aos escândalos [2010]. Quinze dias antes esses escândalos estavam em todas as televisões, no estrangeiro, porque em Portugal felizmente não tivemos nada disso.

Refere-se aos casos de pedofilia no clérigo. Em Portugal houve denúncias?

Sim, mas foi muito restrito e já depois da vinda do papa, apenas me lembro de dois casos. Mas estava eu a dizer que o povo respondeu em massa, tem uma relação muito afetiva com o Papa e, nos momentos de crise, ainda dá mais apoio. E este é um Papa muito próximo do povo, fala uma linguagem muito direta, acessível, tem gestos de ternura que tocam o coração de toda a gente e é mais apelativo, muito mediático.

Populista?

Não, não use o termo populista, é um papa popular. Não é populista no sentido de querer explorar o sentimento do povo como fazem os políticos. Popular é outra coisa, é aquele que sabe estar perto do povo, que sabe interpretar os seus problemas e dramas, as suas esperanças, as suas alegrias, e partilhá-las.

Diz as coisas que as pessoas querem ouvir, isso não é populismo?

Não, não diz o que querem ouvir, diz o que o evangelho lhe diz e que, por vezes, esquecemos, ou secundarizamos, e as pessoas dão conta disso. A Igreja é misericordiosa, acolhedora, não se fecha dentro de si, vai ao encontro das pessoas. Isto é o mais puro evangelho.

Significa que esta forma de ser está a modificar a própria Igreja?

Está a torná-la mais evangélica, mais junto das pessoas, dos pobres.

A Igreja Católica criou um património que nada tem que ver com isso.

Já no tempo de Jesus foi assim. Quem é que matou Jesus? Foram os poderosos. A Igreja tem de anunciar o evangelho, já São Paulo dizia: "Anuncia oportuna e inoportunamente o evangelho."

Sente que o exemplo do Papa está a provocar uma mudança ?

Sem dúvida, até eu mudei com o Papa Francisco a minha maneira de ser pastor, mais próximo, mais acolhedor. Ir mais ao encontro das pessoas e guiar a diocese que me foi confiada nesse sentido. As pessoas gostam que o pastor esteja no meio do rebanho. Como diz o Papa, gostam que o pastor cheire as ovelhas, que conheça a vida do povo.

Essa resposta tem-se traduzido numa maior assistência às missas?

Não tenho dados estatísticos, agora sinto que aumentou o número de peregrinos em Fátima, vem mais gente. Há a perceção global que 23% da população vai à missa, o que coincide com as estatísticas de 2011 (Censos).

E nas paróquias da sua diocese?

Vejo muita juventude que celebra o sacramento do Crisma, mas também tenho a sensação de que muitos abandonam a prática cristã, não quer dizer que abandonem a fé, isso é outra coisa. Não podemos pensar que a fé vá sempre de vento em popa. Há crises e que até ajudam a amadurecer e a solidificar a fé.

Voltou a falar-se num aeroporto civil na Base de Monte Real. Aprova?

Acho que sim, o Centro é a única região que não tem um aeroporto civil. Mas sabe, os peregrinos que vêm a Fátima também querem ir a Lisboa e ao Porto.

Por que é que o Vaticano reconheceu as visões dos pastorinhos, que vão ser beatificados, e não outras. Como a do pastor do Barral (Ponte da Barca) que disse ter visto Nossa Senhora a 10 de maio, antes das aparições?

Há todo um trabalho prévio para que isso aconteça. As aparições foram em 1917 e o reconhecimento canónico só aconteceu em 1930. Houve uma comissão, nomeada pelo bispo, para fazer todo um inquérito, aos videntes, às testemunhas, com peritos a examinar. Os outros não deram garantias. A Igreja só reconheceu 15 acontecimentos de aparição da Nossa Senhora ao longo de toda a história e há a pretensão de um milhar de visões. Há normas para que essas situações sejam confirmadas: tem em conta o Evangelho, a doutrina da Igreja; a saúde psicológica e psíquica dos videntes e o seu comportamento; os efeitos da mensagem, se promovem o crescimento da vida cristã. E é preciso interpretar a mensagem à luz do tempo em que foi dita e traduzi-la para linguagem do nosso tempo.

É interessante que fale em traduzir a mensagem para a atualidade quando a Igreja não adaptou a prática à realidade: a sexualidade, o recasamento dos católicos... O mundo mudou.

A Igreja não muda pela moda, tem de confrontar o evangelho com os acontecimentos, iluminá-los, ver o que tem de positivo e de negativo, leva tempo. O Papa está a fazer todo esse trabalho.

É vice-presidente da Conferência Episcopal, que algumas vezes tem criticado os políticos. Qual é a leitura que faz do momento político atual?

Estamos a viver um momento muito difícil a nível global, sobretudo porque hoje os problemas de um país não estão dentro dos próprios países, nem da União Europeia, onde estamos.

Refiro-me à política nacional.

Não sou analista político, nem quero. Vive-se um momento de menos crispação, está a haver um aligeiramento da austeridade, a aumentar o emprego, que são aspetos positivos. E a sociedade civil tem de assumir o seu papel, não se pode esperar tudo do Estado, temos de ter criatividade para fazer face aos problemas que, muitas vezes, não se podem resolver de noite para o dia.

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