Congresso dos Jornalistas faz radiografia da profissão: menos e mais precários

Marcelo Rebelo de Sousa, ex-jornalista, esteve na abertura do encontro dos profissionais da comunicação, o primeiro desde 1998.

"Em cada dez jornalistas no ativo, seis ganham menos de mil euros, cinco têm vínculo precário, quatro têm recibos verdes, quatro têm medo de perder emprego e só um tem mais de 55 anos. E morremos cedo, e muitos de nós morreram demasiado cedo." A frase é de Maria Flor Pedroso, presidente do 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, ontem na abertura perante uma sala cheia. Cerca de 700 jornalistas participam neste encontro, o primeiro desde 1998. Precariedade foi a palavra repetida ao longo da tarde. Falou dela também o Presidente da República.

"A precariedade enfraquece a vossa situação", frisou na sua intervenção, lembrando um grupo profissional a que pertenceu e que hoje, números seus, conta com cerca de 7750 profissionais. Referiu a imprensa regional, que foi morrendo, o esvaziamento da imprensa nacional, o que sofrem televisões e rádios com a rarefação da publicidade e aludiu à exposição com que foi recebido no cinema São Jorge, em Lisboa: 16 fotografias de 16 fotógrafos portugueses que entraram numa situação precária nos últimos três anos. "São os primeiros a ser atingidos", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Representá-los era o propósito de José Carlos Carvalho, também fotojornalista, quando pediu a cada um uma imagem sobre "o trabalho". Um critério une-os: "Serem freelancers e terem carteira profissional." Dos 20 inicialmente contactados, ficaram Bruno Simões Castanheira, Manuel Vicente, Paulo Figueiredo, Rui Costa, José Manuel Ribeiro, Diana Quintela, Natália Ferraz, José Barradas, Paulo Alexandrino, João Paulo Dias, José Sérgio, José Fernandes, Rodrigo Cabrita, Natacha Cardoso, Paulo Alexandre Coelho, António Pedro Santos.

São também o retrato de uma classe em que metade das pessoas tem um vínculo precário, de acordo com um estudo realizado na Universidade de Coimbra, liderado por João Miranda, a partir de um inquérito a 806 jornalistas feito em 2015. "E destes, 25% têm contratos de prestação de serviços [com recibo verde]", refere em declarações ao DN, numa pausa nas suas funções na redação do congresso, que por estes dias ocupa a sala 3 do São Jorge. São 80 finalistas de cursos de Jornalismo e Comunicação de dez universidades, orientados por 20 professores. O estudo, apresentado pela primeira vez em dezembro de 2016, será explicado em detalhe hoje, a partir das 09.00, segundo dia do congresso, antecedendo o debate sobre o estado do jornalismo com Alexandre Afonso, Anabela Neves, Carlos Rodrigues, Carlos Rodrigues Lima, João Pedro Pereira, José Pedro Castanheira, Nicolau Santos e Sebastião Bugalho. Segue-se o painel que reúne os diretores de 20 meios de comunicação portugueses.

As conclusões do estudo são aquelas a que aludiu Maria Flor Pedroso na abertura do congresso. "É uma profissão jovem, que se abandona relativamente cedo", nas palavras de João Miranda. E de baixos salários. Refere-o o estudo, frisou-o a presidente do Sindicato dos Jornalistas (SJ), Sofia Branco, na abertura. "Um terço ganha menos de 700 euros líquidos." Outro dado lançado para a audiência: "Temos a mais alta taxa de desemprego de sempre." A tendência vem de 2006, segundo João Miranda. "Até aí, desde os anos 30, o número de jornalistas sempre aumentou." Segundo Goulart Machado, presidente da Casa da Imprensa (na organização com o SJ e o Clube dos Jornalistas), "dois mil abandonaram a profissão" desde que os jornalistas se tinham encontrado pela última vez.

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