Apanhar lixo enquanto se faz exercício? Nova tendência já chegou a Portugal

Plogging é considerada uma nova modalidade que mistura atividade física com recolha de lixo. Em Aveiro, o movimento Não Lixes organizou uma caminhada junto à ria com esse objetivo

Trazem roupas de desporto, coletes refletores e sapatilhas. Reúnem-se à entrada de Aveiro, num sábado chuvoso, para recolher lixo das margens da ria enquanto correm. São amigos do Não Lixes, um movimento que nasceu para convencer os estudantes de Coimbra a não atirarem carrinhos de compras ao Mondego e cuja ação tem vindo a estender-se a outras cidades e contextos. Por aqui encontram de tudo: garrafas de água, garrafões, embalagens de plástico, cápsulas de café, roupa, calçado, vasos, esferovite, pinos da estrada. Até bancos de carros.

Nas viagens de bicicleta de Aveiro para a praia da Barra, Fernando Paiva, conhecido como Joca, deparou-se com uma enorme quantidade de lixo nas margens da ria. Foi isso que o fez reunir alguns amigos do Não Lixes para uma corrida e alertar para o problema. Mas os resíduos eram tantos que trocaram a corrida por uma caminhada. "A ideia que queremos passar é a de que devemos apanhar um pouco do lixo que encontramos, seja a caminhar, a correr ou a andar de bicicleta", explica o mentor do projeto.

E foi esta prática que levou a uma nova modalidade: plogging, que nasceu na Suécia e é uma mistura das palavras plocka upp (apanhar, em sueco) e jogging. Espalhou-se através da hashtag #plogging, no Instagram, onde já é possível encontrar mais de seis mil fotos alusivas a esta prática.

Ana Milhazes Martins, de 33 anos, viajou do Porto até Aveiro para participar na ação. "Apanho lixo todos os dias, quando vou passear com o meu cão, e sempre que posso participo em limpezas de praia e outras ações", explica ao DN a professora de ioga, destacando que "é incrível o que se encontra". Embaixadora do movimento Lixo Zero em Portugal, diz que "o mais comum são palhinhas de plástico e cotonetes", mas já apanhou "escovas de dentes dos anos 1970, bonecos muito antigos, pneus de camião, garrafas com mensagens".

Joca, de 48 anos, explica ao DN que a principal preocupação do movimento que dinamiza é o lixo. "É um hábito em Portugal. Deitar lixo para o chão, quer sejam plásticos, beatas de cigarro ou até cuspe. Estamos a pôr em causa a continuidade da espécie humana. Este lixo veio parar à ria por negligência humana, porque as pessoas continuam a guiar-se pelo ditado antigo "o mar leva o que deitam à ria", lamenta, lembrando a gigante ilha de plástico do Pacífico. O Não Lixes, afirma, é um "movimento cívico ambientalista que tenta chamar a atenção para a pegada que cada um deixa no planeta". Consciente do problema, Sara Martins, de 17 anos, participa em todas as ações do grupo. "Comecei a fazer surf com o Joca há muito tempo, o que despertou em mim estas preocupações. E estas iniciativas são hoje das coisas mais importantes para mim", diz ao DN no final da caminhada.

Sara considera que "é assustadora" a quantidade de plástico que encontra. "Não faz sentido que as pessoas deitem fora algumas coisas. Sabem que é preciso ajudar o planeta, mas ficam por aí, não agem em conformidade", adianta a jovem, destacando que se tornou vegetariana e que tenta sensibilizar os colegas da escola para as questões ambientais, mas diz que "não há muita preocupação sobre isso".

O problema dos carrinhos

Tudo começou em 2013 quando Fernando Paiva se reuniu com alguns amigos para retirar os carrinhos das compras dos hipermercados que todos os anos iam parar ao rio Mondego na Latada. "Tirámos 64 carros do leito e cerca de 150 das margens", conta. No ano seguinte, "fizemos um cordão para evitar que fossem parar ao rio". E desde então o movimento tem vindo a organizar várias iniciativas de sensibilização ambiental, com especial enfoque nas festas académicas da cidade de Coimbra.

Trocar os copos de plástico por canecas de alumínio é uma das propostas de Joca. "Íamos reduzir muito a utilização de plástico, já que todos os anos se gastam aproximadamente 400 mil copos na Queima de Coimbra", refere, acrescentando que "os estudantes estão atentos ao problema e concordam que a questão ambiental deve estar em cima da mesa". Embora tenha começado voltado para o ensino superior, o Não Lixes também vai aos liceus chamar a atenção dos mais novos para a problemática do lixo. "Nas escolas e em casa, temos de ter outro comportamento", sublinha o ativista. Ana Milhazes Martins, embaixadora do movimento Lixo Zero, tem viajado pelo país tentando explicar às pessoas que é possível reduzir a quantidade de resíduos que produzem. "Sempre fui muito preocupada com o ambiente. Não foi muito difícil para mim deixar de produzir lixo", adianta. E dá algumas dicas sobre como conseguiu fazê-lo: "Dou as cascas de fruta e legumes a agricultores que fazem compostagem; deixei de usar toalhitas e passei a limpar o meu cão com pedaços de tecido; reutilizo os talões das compras; recuso produtos com embalagens de plástico."

Quando vai às compras, Ana leva frascos e sacos, o que lhe permite recusar enormes quantidades de plástico. E não sai de casa sem a garrafa de água reutilizável e um estojo com talheres, palha--de-aço, paus do japonês e um guardanapo de tecido. "As pessoas estão sempre a oferecer-nos coisas de plástico", critica.

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