António Costa ao DN: "João Soares teria autoridade para continuar"

O ministro saiu para manter a liberdade de expressão

Depois do pedido de desculpas na quinta-feira à noite, João Soares "teria autoridade, com certeza" para continuar ministro da Cultura. E portanto só se demitiu porque quis - não porque o primeiro-ministro lho tivesse exigido.

A informação foi avançada pelo próprio António Costa numa entrevista aos diretores do DN e da TSF, André Macedo e David Dinis - entrevista que o DN publicará amanhã.

Ontem, ao final da manhã, num comunicado enviado à Lusa, João Soares anunciou que tinha pedido ao primeiro-ministro a demissão de ministro da Cultura. Foi o fim de uma história que se iniciara cerca de 24 horas antes, quando João Soares publicou na sua página do Facebook uma pequena nota prometendo duas "salutares bofetadas" a dois colunistas do jornal Público, Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente, que o haviam criticado. O post de Soares embaraçou o PS e suscitou fortes críticas em todos os partidos parlamentares, começando pelos da plataforma BE+PCP+PEV que apoia o governo do PS.

Para o chefe do governo, o problema havia ficado resolvido no final de quinta-feira. Depois da reunião do Conselho de Estado - em que esteve cerca de seis horas, entre as 15.00 e as 21.00, sem comunicações por telemóvel ou net (devido aos mecanismos de barramento eletrónico instalado na sala). Saiu do Palácio de Belém por uma porta lateral evitando o contacto com os jornalistas.

Gasolina na fogueira

António Costa falou com João Soares e disse-lhe que ele tinha de pedir desculpas. Mas desculpas a sério e não desculpas como as que tinha feito através de um sms enviado à tarde para o Expresso ("Peço desculpa se os assustei"), as quais serviram apenas como gasolina na fogueira, agravando o caso.

Combinaram que o primeiro--ministro faria uma declaração antes de entrar para uma peça de teatro na Comuna e que João Soares também faria uma nota à Lusa.

"Tanto quanto sei, o Dr. João Soares já pediu desculpa aos visados pela forma como se expressou. Eu, pessoalmente, quero também expressar publicamente desculpas a duas pessoas, a Augusto M. Seabra, por quem tenho particular estima, e a Vasco Pulido Valente, por quem tenho consideração", disse o primeiro-ministro [para quem o pedido de desculpas a Pulido Valente foi uma manifesta contrariedade]. E acrescentou a norma geral de comportamento que João Soares e todos os governantes devem observar: "Obviamente já recordei aos membros do governo que enquanto membros do governo nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do governo e portanto devem ser contidos na forma como expressam as suas emoções."

João Soares, pelo seu lado, afirmou à Lusa, numa notícia publicada um minuto antes da meia-noite: "A minha intenção não foi ofender. Se ofendi alguém, peço desculpa." "Sou um homem pacífico, nunca bati em ninguém. Penso que a liberdade de opinião não pode ser confundida com insultos e calúnias pessoais, atentatórias da honra e do bom nome de cada um", explicou, dizendo também que as "salutares bofetadas" prometidas por si aos colunistas do Público não tinham passado de uma "uma figura de estilo de tradições queirosianas".

Durante a noite, João Soares refletiu e concluiu que o assunto, podendo estar resolvido, na verdade não estava. A sua autoridade e credibilidade como ministro ficaram definitivamente minadas. E não estava disposto a pagar o preço de continuar ministro perdendo liberdade de expressão ("demito--me também por razões que têm que ver com o meu respeito pelos valores da liberdade. Não aceito prescindir do direito à expressão da opinião e palavra", escreveu no comunicado que fez chegar à agência Lusa).

João Soares comunicou a decisão ao primeiro-ministro, que "naturalmente" aceitou porque, como disse a jornalistas no Porto, "as coisas são como são". O ministro da Cultura explicou ainda a decisão de deixar o governo com a sua "profunda solidariedade" com o governo, com o primeiro-ministro e com "o seu projeto político de esquerda". Sublinhou também "o privilégio que representou" para si ter integrado este governo "e ter trabalhado com o primeiro-ministro", a quem agradeçeu "a confiança".

Agora, enquanto não é substituído, o quase ex-ministro da Cultura arruma papéis no Palácio da Ajuda, tendo à sua espera, se quiser, um lugar de deputado na bancada do PS (foi eleito pelo círculo de Lisboa).

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