"Abrir o peito a um bebé de três quilos e mexer-lhe no coração é uma coisa brutal"

José Fragata é médico, cirurgião cardiotorácico e diretor de serviço no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Em março, a sua equipa realizou mais um procedimento que vai ficar para a história da medicina portuguesa: o mecanismo que permite ao coração funcionar artificialmente.

Aos cinco anos mascarou-se de médico, não sabe porquê. Parece que estava destinado, mas ao fim de 41 anos de carreira confessa que "não saberia fazer outra coisa". José Inácio Guerra Fragata tem 64 anos e já deu muitos contributos à medicina portuguesa. O último foi o coração artificial implantado no serviço de cirurgia cardiotorácica, que dirige no Hospital de Santa Marta, em março. Numa tarde quente de verão, na véspera de partir de férias e acabado de chegar de Barcelona, onde foi dar palestras, aceitou falar com o DN da carreira, da vida, dos doentes, dos medos, da morte, do sistema de saúde e da família. Da mulher, Isabel Fragata, anestesista, diz ser a sua aliada de sempre, desde o primeiro dia de faculdade em que se conheceram na inscrição para anatomia. Das filhas conta-nos que elas nunca se queixaram do tempo que passavam no hospital com a mãe e com o pai, uma seguiu as pisadas, é neuroradiologista e já tem dois filhos, da outra "não conseguimos nada. Um dia ia fazer um transplante, disse à minha mulher para a levar ao bloco, podia ser que se entusiasmasse com a medicina, mas não. No final perguntei-lhe, todo orgulhoso, se tinha gostado. Disse-me que sim, mas que sabia o que não queria fazer para o resto da vida."Acabou na advocacia e a viver em Londres. Dos netos, fala das coisas que com eles faz, desde a pesca às brincadeiras, até às preocupações com o futuro. Sobre o sistema de saúde afirma: "Estou insatisfeito." Gostaria de fazer mais e mais, mas está difícil. Quanto a tirar a bata branca, diz que será cirurgião até aos 70 e que a reforma é a coisa mais triste que existe.

Muito se tem escrito sobre a sua carreira e a sua vida. Quer contar-nos algo que ainda não se saiba?

Que estou muito insatisfeito, que não tenho no meu serviço as coisas que gostaria de ter e que gostaria de ter chegado a um nível superlativo de organização que ainda não consegui. Como dizia o Dr. Machado Macedo, "my timing is running short" e isso é uma coisa que me atormenta um bocadinho. A medicina em Portugal já atingiu o nível máximo em muitas áreas, mas há outras que têm que ver com a interconexão e a organização onde ainda não chegámos.

Porquê?

Porque esta crise não nos fez bem. Pode tentar-se dourar a pílula, mas a crise não fez bem à saúde.

Fala dos cortes?

Falo. Os cortes afetam aquilo que não se compra, afetam os doentes e o moral dos profissionais e do sistema. O moral hoje é mais recessivo, não quero dizer depressivo, do que deveria ser e faz que os profissionais vão passando do setor público para o privado. A maior entidade formadora de médicos ainda é o setor público, o privado começa agora, mas, às vezes, o investimento que é preciso nas pessoas nem sempre se realiza no público, e sim no privado. A medicina é uma coisa muito séria, costumo dizer aos meus colaboradores mais jovens, e no bom sentido, que é uma escola de vida. Eles vêm para aqui jovens e ao fim de dois ou três anos estão formados. Habituam-se a responder, a reportar, a ver desastres e sucessos. Amadurecem aqui e bem, porque ninguém leva a sério um especialista, que mesmo bem treinado, não esteja maturo.

A medicina é uma escola de vida?

Claro. A medicina está definida como uma profissão técnica, mas é uma ciência social. Trata com pessoas e é tratada por pessoas, embora o seu braço armado seja um instrumento técnico poderosíssimo - a tecnologia, os medicamentos, as intervenções, etc. Mas o que tratamos aqui são os doentes, não as doenças, tratamos doentes mitrais e não válvulas mitrais. Espero que as pessoas percebam a diferença. Vir ser operado é um fenómeno social, é um fenómeno de família. Quando se opera uma criança, opera-se também os pais. Nos adultos é a mesma coisa, opera-se os familiares mais próximos. E, apesar de o risco de mortalidade nas operações ao coração ser reduzido, cerca de 3%, as pessoas antes de entrarem no bloco arrumam a sua vida, despedem-se.

Como é que se prepara então para o bloco?

Vou ser muito honesto. Ao fim de alguns anos, torna-se um bocadinho como guiar automóveis ou aviões, se calhar mais como os aviões. Por isso é que esta especialidade tem de ser exercida em equipa. Há uma preparação geral em que todos sabem o seu lugar e papel. E portanto a preparação agora não é muito grande, a não ser para coisas especiais, cirurgias que nunca fizemos. Na minha idade, essas já são mais a exceção do que a regra, mas quando comecei, além de estudar várias vezes a operação, de telefonar na véspera a colegas meus estrangeiros com quem me formei, costumava escrever os relatórios da operação antes de operar o doente e dava o relatório à anestesista, muitas vezes a Drª Isabel Fragata (a minha mulher) para me ir lembrando de todos os passos, tinha medo de me esquecer. Passava tudo para o papel, era um ritual. Hoje isso é excecional. Para o leitor perceber, a preparação é quase como a de um piloto que se mete num avião para o levar para Nova Iorque, e antes estuda o plano de voo e faz os seus briefings, embora esta atividade seja muito menos segura do que a da aviação.

Mas há momentos importantes.

Há momentos sagrados. Os pilotos até o avião estar a dez mil pés, que eu calculo que sejam dez mil e qualquer coisa metros, não permitem pessoas no cockpit nem conversas colaterais, é o chamado cockpit estéril. Não há porque têm consciência de que é um dos momentos em que pode acontecer alguma coisa. Nós aqui temos momentos de cockpit estéril, quando estamos a entrar em bypass, quando estamos com uma aorta clampada com o coração parado, por exemplo. São momentos em que não há chacota, porque a responsabilidade é enorme. Depois, quando já se está a fechar e os doentes estão bem, há lugar para gracejos, somos humanos.

Como foi no caso do coração artificial?

Fomos ver, lemos, escrevemos, toda a equipa viu várias vezes filmes da cirurgia. Levámos uns meses a preparar-nos. Aliás, quando a fizemos, em março, já estávamos preparados há mais tempo, mas não tinha surgido o candidato ideal e queríamos que fosse um ato certo. Portanto, tomámos os nossos cuidados, até porque estava tudo em jogo caso corresse mal, além do doente todo o programa poderia ficar comprometido.

Cada vez que mexe no coração de alguém sente que é diferente?

Absolutamente. Mas agora sinto-me mais esmagado pela responsabilidade. Estas profissões ditas autorreguladas, das quais a medicina talvez seja a profissão-príncipe, assentam numa base de contrato com a sociedade. Esse contrato chama-se profissionalismo. Isto é, a sociedade dá-nos estatuto, chama-nos senhores doutores e a especialidade dá-nos o privilégio que mais ninguém tem de chegar ao peito de uma pessoa, abri-lo e mexer-lhe no coração, mas exige de nós correção e princípios. É como os militares que usam uma farda e servem o país, ai deles que pisem o risco. Portanto, é um privilégio que a sociedade nos outorga mas que implica uma responsabilidade enorme. Ao fim de dez mil cirurgias, pôr um bypass numa pessoa é uma facilidade enorme, mas abrir o peito a um bebé de três quilos e mexer-lhe no coração é uma coisa brutal. Aquela criança tem pais, que têm sentimentos, e a idade não me tem aliviado esse peso. Pensava que com a experiência ficava mais à vontade, mas sinto-me cada vez mais vulnerável.

A pressão é maior?

É. E sabe porquê? Porque acho que não posso falhar. Hoje não perdoo a mim próprio quando perco um doente. Há uns tempos perdi uma doente no hospital privado onde trabalho, não tive culpa, mas durante uma semana ninguém pôde falar comigo. Podemos fazer milagres de cura, as pessoas pensam que sim, mas podemos também causar o maior descalabro possível nas vidas emocionais das pessoas e no sustento de uma família. Podemos ser devastadores. Por isso, cada vez que vou operar sinto que devo ir na minha melhor forma, mas pergunta: "Dormiu o tempo todo? Não, nem sempre." A nossa vida é selvática. De facto, por definição, tal como os pilotos, deveríamos ter seis horas de sono, mas isso é totalmente violentado. A experiência compensa muita coisa, mas ensino os mais novos que devem ter o descanso próprio, até porque se cometem mais erros quando a pessoa está cansada, e com a idade sente-se isso. Antes, perdia uma noite e trabalhava a semana toda, hoje se perder uma noite preciso de dois dias para descansar. É físico, tem que ver com os anos, e é bom que nos apercebamos disso. Faz parte da nossa vulnerabilidade.

Quando entra no bloco sabe sempre o nome do doente?

Claro, falo sempre antes com o doente. Mas os cargos de administração que ocupo na medicina hospitalar às vezes poluem o tipo de prática que gostava. Tinha uma prática mais saudável quando não era diretor de serviço.

Gostava mais desse tempo?

Claro. Dizia mal do diretor, era a minha obrigação, e fazia o que queria. Hoje é o contrário, são eles que dizem mal de mim e eu sinto-me agarrado. Antes sentia-me um médico-galinha, hoje não. Quando se chega à minha fase há muita coisa que temos de delegar, não é mau. Mas sabe que a medicina, apesar de ser hoje um grande enterprise, para não dizer negócio, ainda é uma coisa pessoa a pessoa, olho no olho. Os doentes querem ver os olhos de quem o vai operar, tem muito de pessoal. É uma ciência social, como dizia, mas muito física também.

O que é que a medicina mudou em si nestes 40 anos?

Tudo. A minha primeira fotografia a dizer que queria ser médico foi aos 5 anos com um estetoscópio ao pescoço, quando andava no colégio ABC, ali em frente à Culturgest, em Lisboa. Foi numa festa de Carnaval. Mascarei-me de médico, não sei porquê, talvez por ter ficado marcado pela doença de um qualquer familiar ou pela minha mãe dizer sempre que eu ia ser médico. Era um sonho dela. Sempre estive vocacionado para isto, nunca se colocou outra profissão e não saberia fazer outra coisa. E acho que ser médico me tem aproximado das pessoas, tem-me ajudado a ser melhor pessoa. Mas a profissão, a mim e à minha mulher, mudou-nos o facto de termos de levar uma filha com 4 anos ao bloco de cirurgia cardíaca, em Inglaterra. Ainda hoje, a meio de uma cirurgia pediátrica, uma enfermeira circulante da sala vem cá fora duas vezes para falar com os pais, porque nós sabemos o que é.

Foi marcante?

Vivíamos em Inglaterra e eu fazia parte do staff no hospital. Deram-me uma semana de férias para acompanhar a situação. Nós soubemos o que era deambular pelas ruas de uma cidade desconhecida com uma filha no bloco. Sabe qual foi a última coisa que ela nos disse antes de entrar? "Eu sinto-me bem e vocês trouxeram-me para este hospital para me matar, vou morrer nesta operação e lá de cima vou estar a olhar para vocês." Ficámos em lágrimas e fomo-nos embora. São estas experiências que nos mudam e que nos moldam. Quer marca maior do que isto? Correu tudo bem, mas podia não ter corrido. Estávamos em 1986. Foi uma lição de vida, as pessoas são o resultado das experiências que tiveram.

Qual era a doença da sua filha?

Era uma comunicação intra-auricular, um defeito simples que os meus internos operam hoje. Mas é uma regra que se aprende. Nos nossos filhos nenhuma doença é simples, e em nós também não. É sempre diferente. Seja uma unha encravada ou outra coisa. Se para mim há operações simples, para cada pai, para cada doente, a sua operação é a mais importante. E por vezes as operações mais simples são as piores, pois nada pode correr mal. Se vou operar uma coisa muito complexa e algo corre mal, pensa-se: "O que é que poderia fazer? Temos pena, muita pena." Mas para uma coisa simples não há desculpas.

Porquê?

A cirurgia cardíaca é uma atividade multidisciplinar. Depende de muita gente e muita gente pode cometer erros. O doente entra no serviço e entra numa linha de montagem, começa pelo secretariado que lhe faz a admissão, depois uma enfermeira vai buscá-lo, é visto por um médico mais novo e depois pelo anestesista, a seguir vai para o bloco operatório e depois passa para os cuidados intensivos, etc. O número de pessoas deste serviço que tocam num doente é, em média, entre 40 e 50 ao longo de todo o internamento. O doente está sujeito a 40 ou 50 contactos invasivos, picar, cortar, mexer, pôr drogas... pode haver sempre pessoas que fizeram porque achavam que outros não o tinham feito e não confirmaram. E, por isso, o controlo de produção tem de ser muito grande. Às vezes acho que é um milagre não haver mais erros no sistema de saúde. Nos EUA, por exemplo, os erros na medicina são a terceira causa de morte.

Não aceita o erro na medicina?

Nunca entro numa sala de operações que não tenha visto o suficiente sobre o doente, pelo menos sobre a matéria física do doente. Quem vai para uma sala de operações tem de ter um plano A, um B e um C. Isto serve para mim e ensino-o aos meus colaboradores. Cirurgião que não faz isto não é honesto, porque nós não temos as certezas todas. Costumo dizer que nos livros de cirurgia as ilustrações ou as fotografias são bem mais simples do que o real. Quando se vê um exame de um doente o que lá está pode não ser aquilo, mas quando se abre um doente o que se vê é sempre o que lá está. É real. Portanto, na medicina e na cirurgia não há espaço para a mentira. Quem me conhece sabe que tolero os erros todos, fico muito chateado, mas tolero, não tolero a mentira, porque depois não podemos mentir aos doentes.

Isso é um problema na medicina?

Saber dar más notícias é uma arte, uma má notícia é sempre má, mas o modo como se a dá não tem de ser terrível. Isso faz parte da comunicação, do falar com as pessoas. E um dos problemas da medicina de hoje é que os médicos falam pouco com os doentes, explicam pouco. Dou um exemplo que se vê muito: um doente vai fazer um ecocardiograma e eu pergunto-lhe: "Como estava o seu eco? Ele responde, não sei, o doutor não parece ter ficado maldisposto." E eu pergunto-lhe, "mas disse-lhe alguma coisa?" E o doente: "Não." Isto para mim é inadmissível. Quando um doente vai ter connosco com um exame dentro de um envelope fechado, ou com ele já aberto mas como se estivesse fechado, e olha-nos com os olhos vidrados para tentar perceber na nossa face qual vai ser a notícia antes de a dizermos, tem direito a ter toda a informação, toda a que quiser e puder absorver, tirando algumas exceções psiquiátricas, e a isso chama-se "privilégio terapêutico de não dizer". A lei consagra ao doente o saber toda a verdade e o médico tem de ser um bom comunicador, até porque 70% dos erros em medicina ocorrem por má comunicação. Há médicos que tratam a doença mas não tratam o doente. E tratar a doença e não tratar o doente não é fazer medicina, porque o doente adoece e a doença é física e psíquica. Às vezes até mais psíquica do que física.

Essa conceção tem que ver com o estar ligado à cardiologia ou com uma geração?

Pode ter que ver com uma geração, com uma formação humanística de casa. O meu pai era uma pessoa que me transmitiu imensos valores humanos, era um engenheiro fabril, pode ter que ver com a racionalidade que existe por detrás desta profissão, que é muito desafiante. Pode ter que ver com histórias de vida, com histórias que nos marcam. Não digo que já vi acontecer de tudo, mas já vi acontecer muita coisa. Há um senhor chamado Henry E. Sigerist que costumava dizer que "the technology of medicine has outrun its sociology". A tecnologia da medicina ultrapassou a sua própria sociologia. Por isso digo, a medicina é uma coisa social, é pessoas. É óbvio que se a minha técnica for má, os doentes morrem. Não tem nada que saber. Agora, há doentes que são operados tecnicamente bem e a quem a cirurgia assenta mal.

Porquê. É a parte psicológica da doença?

Tem que ver com o doente, com a parte psicológica e com o pouco acompanhamento que nós (médicos) lhe demos ou com algo que não lhe explicámos. Tenho um colega com quem me treinei, uma pessoa brilhante na cirurgia, que aos 66 ou 67 anos teve de ser operado ao coração no Reino Unido. A partir daí, nunca mais ficou bem. Hoje até tem alguma depressão cognitiva. Um dia encontrei-o num congresso e ele disse-me: "Esta cirurgia foi muito bem feita. Estive internado seis dias, puseram-me uma válvula e um bypass, but did not seated me well (mas não me assentou bem)." É isto. As pessoas reagem de forma muito diferente à mesma técnica, cada caso é um caso.

Tem que ver com eficácia, a outra dimensão da medicina?

A medicina tem a dimensão de curar e a de cuidar e um bom ato médico é aquele que reúne as duas. A enfermagem tem uma capacidade técnica diferente da nossa, menos agressiva, regula-se mais pela dimensão do cuidar. Os enfermeiros têm muita preocupação com isso e são um estrato profissional perfeitamente imprescindível nos hospitais, mas os médicos também não podem descurar esse aspeto. Às vezes há médicos que não sendo tão bons tecnicamente são adorados pelos doentes porque têm uma dimensão brutal de cuidar, e os doentes ficam-lhe imensamente agradecidos. Os doentes não se preocupam muito com os valores das análises, mas lembram-se sempre que num sábado à noite, em que chovia, eu vim de propósito ao hospital para ver se estavam bem. Fala-se muito hoje de qualidade na saúde. A qualidade na saúde é uma luz branca, mas é como o arco-íris, uma decomposição de um conjunto de luzes. E nessa luz está a eficácia - se o procedimento ficou bem à primeira, se foi feito com os recursos mínimos possíveis, se o doente esperou muito tempo ou não -, a acessibilidade, a segurança e a satisfação. No fundo, se o doente esteve no centro do processo e não foi segregado por nada. A qualidade é tudo isto, não é só a cirurgia em que o doente sobrevive.

É mais difícil operar crianças?

Os pequeninos se ficam bem, ficam bem. Estão a mamar dois dias depois. Mas na adolescência, a idade do armário, é muito difícil, ficam amuados connosco, sobretudo as raparigas, por causa do seu sentido da mutilação. A minha filha, que tinha 4 anos quando foi operada, ficou amuada com a irmã mais velha, que lhe deu as barbies e elas atirou-as ao chão e disse-lhe: "Sua estúpida." Ela vinha amuada, ficou amuada, sentia-se bem e nós levámo-la para ser operada.

Do que tem mais medo no bloco operatório?

De falhar. Quando se chega a determinada altura na vida profissional a sociedade é muito severa connosco. Não é expectável que um indivíduo como eu cometa muitos erros. Toda a gente tem direito a pôr em causa o que faço, como é óbvio, mas ninguém pode falhar. Quando estamos no início da carreira, preocupamo-nos com a técnica, mais tarde com a quantidade do que fazemos, a seguir com o facto de não devermos falhar. A nossa tolerância ao erro vai reduzindo, quer em relação a nós quer em relação aos outros. Toda a energia inicial de como se faz a operação, depois passa a como se faz sem erro nenhum, sem consequências. Os níveis de exigência aumentam, nunca param, temos sempre desafios. E se somos mais ousados vamos sempre fazendo coisas, dos transplantes para o coração artificial. A escala vai sempre subindo.

E fora do bloco?

Em relação a mim e aos meus: a saúde e a integridade física. À medida que vamos envelhecendo temos noção da tangibilidade. Temos amor à vida e aos nossos e fazemos tudo para os preservar. Este é um medo. O outro é o não estar à altura do que os doentes, os meus alunos e a família esperam de mim. Não gosto de desiludir pessoas, não gosto de desiludir a família, a minha mulher, as minhas filhas e os meus netos.

Os netos preocupam-no?

Tenho algumas preocupações com a educação deles e os avós são quem os pode estragar, mas também quem lhe pode dar princípios. Quando vou à pesca com o meu neto, o Pedro de 11 anos, ou passear com a minha neta, a Isabel, tem 6, além de estarmos a apanhar peixe falamos de várias coisas, algumas profundas, mas depois posso armar-me em maluco e fazer uma aventura qualquer que os pais não querem, quando estou cansado vou levá-los a casa. Isto é uma coisa única, os avós são uma trave fundamental na educação dos netos. As minhas melhores memórias nem são com os meus pais, são com os meus avós, o ir à caça com o meu avô, os cozinhados da minha avó são momentos mágicos.

Procura estar mais tempo com eles do que esteve com as filhas?

Procuro. Embora durante o ano nem sempre seja fácil, a vida nas cidades é exigente e eles acabam por estar mais na escola e com os pais. Agora vou ter 15 dias de férias com eles, vamos à pesca, brincamos, falamos de tudo....

E sobre o que falam?

Olhe, sobre tudo. Sobre a vida. Ela é muito crítica e impositiva. É rapariga 100%, muito esperta, as raparigas são de uma agudeza total. Agora está mais na fase do iPad. Mas com o meu neto já se consegue falar de coisas mais profundas, agora está na idade em que gosta de dizer palavrões. O estar com eles permite-nos passar-lhes valores de vida, contamos-lhes histórias e é ótimo porque eles vão ficar com as ideias das idas à pesca, ao cinema, das viagens, e é ótimo porque faz parte do nosso prolongamento, a pessoa quando morre gostaria de ser perpetuada por uma ou duas gerações. Os doentes têm uma memória curta, portanto a nossa memória faz-se com as memórias da família, se os nossos netos perpetuarem isso temos a chance de sermos perpetuados pelo menos por mais uma geração.

Vai à pesca e faz vela. É o seu refúgio?

É a coisa boa. Não penso nada. Normalmente, à sexta-feira à tarde tento não marcar casos para mim e quando posso vou para o barco. Antes ia com a minha mulher, ela fazia o favor de gostar porque eu gostava, agora tenho um skipper, o Sr. Viegas e quando ele me diz: "Para onde vamos?" Eu respondo: "Vamos para onde há vento." Chegamos a ir até onde se deixa de ver Cascais, depois voltamos. Tomo uma bebida a bordo, ouço música, tomo um banho. É de facto um hobby - caro, eu sei, mas é o que é. Quando se está ali não se pensa em mais nada. Nesta profissão ou noutra qualquer temos de ter hobbies. Obrigatoriamente. Senão não se consegue desligar, mesmo assim há alturas em que é difícil. O meu dia ainda hoje começa às sete da manhã e acaba às dez da noite.

Teve de aprender a lidar com a morte?

A lidar sim, a banalizar não. Aliás, acho-me agora mais facilmente emocionável do que quando comecei. É muito duro para uma família levar alguém para um bloco e o doente não sobreviver, mas também é muito duro para um médico ter de sair do bloco e ter de dizer à família que não há nada a fazer e que vai desistir. É pesado.

Aconteceu-lhe algumas vezes?

Sim. E nunca é indiferente. Primeiro, porque é o sentido do falhanço, às vezes sem culpa, em segundo porque é o sentido do dano, de provocar o desgosto nos outros. As consequências de uma coisa malsucedida para uma família são devastadoras. Há filhos que ficam sem pais, andares que se vendem.., etc. É uma grande responsabilidade. Por isso digo que esta profissão não se compadece com cinismos, compadece-se com cinismos em relação aos colegas, mas não em relação aos doentes.

Quando fala de cinismo fala da competição entre colegas?

Os colegas competem em qualquer lado, no público e no privado. Nunca percebi porque competem.

Incomoda-o?

É algo que me chateia, irrita-me, como me irrita a maledicência.

Há muita maledicência na medicina? A competição é necessária?

Há uma frase de Oscar Wilde que uso muitas vezes: "Qualquer um pode simpatizar com o sofrimento de um amigo, simpatizar com seus sucessos requer uma natureza delicadíssima." Habituamo-nos a lidar com isso, com o facto de as pessoas ficarem satisfeitas com as complicações no caminho dos outros. Aqui, procuro sempre que se zanguem comigo e que não se zanguem entre si. Digo sempre que os grandes desafios estão cá dentro e os grandes críticos lá fora. Não tenho a presunção de dizer que consigo gerir, mas já disse várias vezes que me sinto como um leão velho, que já tenho leões novos no meu serviço a quem ensinei, mas que já me rosnam às canelas. Isso é bom, eu também já rosnei às canelas de outros, mas agora há coisas que gosto que façam comigo e que exijo. Exijo que me respeitem, tenho mais experiência e já vivi mais. Mas nem sempre é fácil, as pessoas têm a sua personalidade e aqui lidamos com gente maioritariamente competente. Tenho um serviço de gente dominantemente competente, senão diria pior de mim do que deles. Tenho aqui pessoas ambiciosas, que competem com o chefe, competem entre si.

Porque é que dizem que tem mau feitio?

Acho que tem sobretudo que ver com esta questão da exigência. A coisa que mais detesto na vida são pessoas cinzentas, que não conseguem dizer nem que sim nem que não. Eu sou tudo menos cinzento. Para mim, há uma resposta, sim ou não, quando muito haverá não sei, mas vou ver. Esta especialidade é exigente. Tal como a aviação pede permissão de mão para aterrar e o controlador não pode dizer não sei se podes aterrar. O controlador só pode dizer três coisas: "Pode aterrar, não pode aterrar e o porto alternativo é... No serviço é a mesma coisa. Temos regras. Eu passo visita todos os dias às 08.30, quando não estou passa quem está, porque é sagrado. Isto dá rigor ao serviço. É um pequeno sinal, mas é como se faz com as crianças, educam-se. Temos uma reunião à segunda-feira em que programamos todos os casos. O plano é para ser cumprido, se não for tem de haver explicações. Quando passo visita pergunto o que se passou, não para o ar mas à pessoa que ficou responsável. Se a explicação é plausível e razoável, aceito-a. Não descomponho ninguém, por temperamento, mas neste gabinete já houve conversas difíceis. É óbvio que a natureza da especialidade e o nível de exigência criam na pessoa um estilo inquisitivo, não tenho paciência para pessoas que estão beating around the bouch (não gosto de preliminares). Faço perguntas e espero que dentro da razoabilidade me deem respostas.

Não o incomoda?

Não, até me sinto estimulado. Estive agora em Barcelona, onde fiz três conferências, uma foi sobre a liderança da cirurgia das cardiopatias congénitas, e para essa li várias coisas e projetei algumas. Usei uma frase de Steve Jobs: "I'm not here to be soft on people, I'm here to make them better." Não me pagam para ser popular, pagam-me para fazer o melhor e ser sério. A missão do serviço é: em primeiro lugar, o tratamento e o interesse dos doentes, não condescendemos nisso - se um médico não está à altura de uma série de procedimentos que fazemos, deixa de operar, é uma realidade. Em segundo, a formação e o ensino no serviço. As pessoas acusam-me de pouca flexibilidade, mas uma coisa é certa: nunca me zango com os internos, com o pessoal auxiliar nem com os enfermeiros, mas trato os meus colegas diretamente. O chefe não pode ser um tipo porreiro, mole. As pessoas estão habituadas a que seja. O chefe tem de ser humano, não um banana. Sei que isto politicamente não é muito conveniente, vivemos numa esquerda soft. Mas não me preocupo com a minha imagem, estou muito preocupado é com os resultados, com os doentes, em não os desiludir, e com os meus colaboradores mais novos. Os meus colegas já os fiz. Todas as pessoas que estão aqui, com exceções muito raras, fui eu que os treinei. Conheço-os, sei o que pensam e o que vão dizer. Uns são melhores do que outros, não os posso tratar a todos da mesma maneira. Tenho de os tratar conforme o seu valor, isso parece-me trivial. Tenho mau feitio? Não me incomoda.

É assim desde que chegou ao serviço?

Sim. Pouco depois de estar na direção do serviço, em 2006, fiz uma coisa que não deve haver memória no país. Mandei anexar na folha de ponto dos funcionários um inquérito anónimo sobre a popularidade do diretor de serviço. Nessa altura, há uns nove anos, 20% dos médicos achavam que estava a fazer um bom trabalho, 80% que não; 50% dos enfermeiros achavam que fazia o que devia, 50% que não; 70% dos auxiliares e administrativos achavam que eu estava a fazer um bom lugar, 30% que não. Depois fiz uma reunião em que não disse os resultados, mas agradeci e congratulei-me por terem respondido tão honestamente e me terem dado um sinal do seu esmagador apoio no sentido de que eu estava a fazer o que devia. Nunca souberam se estava a ser cínico ou não. Nos serviços tem de haver quem mande, não há hierarquias paralelas. Ouço toda a gente, dirijo o serviço com uma enfermeira diretora e com uma administradora que são pessoas brilhantes. As decisões são por consenso, mas se não tiverem de ser, alguém tem de decidir. Em Portugal temos uma tradição grande de tolerância, o que é muito bom, mas quando se é executivo tem de se executar. Às vezes a contento de uns, outras de outros.

Se algum dia tiver um problema de saúde sabe a quem recorrer e onde vai para ser tratado?

Quando se está doente deve-se ser tratado como doente anónimo. Não ajuda nada ser-se tratado como doente especial. Já temos tratado aqui figuras públicas e digo-lhes sempre o mesmo: "Se não se importa vamos tratá-lo como o doente da cama X ou do quarto Y. Não há nada pior do que a exceção. Mas no serviço há pessoas que já ensinei e que me podem tratar, teria toda a confiança. Mas não sei se seria bom, colocaria imensa pressão nas pessoas. Se calhar, iria visitar um colega no estrangeiro. É o melhor. Mas isso são coisas em que tenho de pensar, porque esse dia vai chegar.

Pensa em doenças?

Penso, tenho medo. Aliás, estar saudável é um estado que nada augura de bom. Mais cedo ou mais tarde todos adoecemos. E há doenças terríveis. Somos humanos e lidamos muito com a desgraça e ficamos muito sensíveis à doença.

E da morte, tem medo?

Mais do que medo tenho pena, pena do desperdício aparente da morte, mas não podemos ficar cá todos. Acredito em Deus, penso que tenho razões para isso, não quer dizer que acredite numa vida para além da morte, não tenho esse dom, gostava de ter, porque tornava tudo mais simples.

Já sabe em que dia vai tirar a bata?

A reforma é a coisa mais triste que existe. É muito triste uma pessoa aos 60 anos, cheia de experiência, ser posta de lado. A pessoa deve saber encontrar novas áreas em que possa ser útil à sociedade e aos outros. A vida tem duas utilidades, uma é a nossa própria felicidade, a outra é a nossa utilidade aos outros. Não tem mais sentido do que isto. O desafio é saber conjugar as duas. É possível que gradualmente a minha vida vá evoluindo noutros sentidos, não só para deixar espaço, e há gente à espera dele, como para apoiar outras áreas. Mas como cirurgião tenciono manter-me até aos 70, embora mudando algum tipo de atividade. Teria muito desgosto se com a minha saída ficasse o deserto. Este serviço não é de um homem só. Pode ser o serviço do Fragata, mas não é só do Fragata. É de mais gente, que opera e muito bem.

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