Inês de Sousa Real, na terceira parte da entrevista ao DN, debruçou-se nas Presidenciais, com críticas a excesso de candidaturas. Defende-se da oposição interna e diz que se viu perseguida.. Passando para as Presidenciais, não teve a meta de colocar uma figura política do PAN, para ter alguma visibilidade, e ser candidato?As Presidenciais não são um espaço para que os partidos ganhem votos. Houve uma dispersão de candidaturas inédita. O único que ganhou com isso foi André Ventura, que vai a uma segunda volta apesar de colocar em causa direitos humanos, direitos das mulheres e direitos dos animais. Acredito que se André Ventura fosse eleito Presidente da República, iria pôr em causa aquilo que é a estabilidade das instituições. O PAN tomou a decisão certa. Acha que a esquerda está demasiado preocupada em termos eleitorais com a manutenção do seu espaço concreto? Só os próprios poderão responder a isso, evidentemente. Reconheço mérito em algumas candidaturas, como é o caso de Catarina Martins, apesar de ideologicamente discordar algumas coisas que o Bloco defende, nomeadamente a diabolização que o Bloco faz dos empregadores. Catarina Martins fez uma campanha muito digna, revejo-me numa candidatura no feminino. Compreendo que uma personalidade como Catarina Martins, que está há anos na política, se candidate, agora tenho reservas que um outro partido apresente alguém que é praticamente um desconhecido só para ganhar espaço mediático. Que metas vai traçar a António José Seguro como possível futuro Presidente da República?Apoiamos António José Seguro ainda antes da primeira volta e é preciso ter a proximidade que Marcelo Rebelo de Sousa tinha, ouvindo todos os partidos com assento parlamentar, independentemente de ser em grupo parlamentar ou um deputado único. A proximidade com o povo português, com as causas, é absolutamente fundamental. E para o PAN, desde o combate à violência doméstica, à proteção animal, é preciso que o Presidente defenda pessoas, animais e o ambiente. Portugal vai ser um dos países mais afetados pelas alterações climáticas. Esperamos que António José Seguro também utilize a sua magistratura de influência para isso. Portugal tem de ser mais vocal nisso, na Europa também?Tem de ser mais vocal. Vi com muito apreço, tive o cuidado de falar com António José Seguro antes de declarar o meu apoio pessoal na primeira volta, de que estava já a falar com vários académicos sobre as alterações climáticas e que tem já essa sensibilidade. Que saiba ouvir os partidos, que saiba garantir e promover a estabilidade democrática, porque os únicos que ganham com esta instabilidade é o populismo antidemocrático. Os portugueses estão fartos de dissoluções parlamentares. Foi agora reeleita no congresso. Gostava de ter tido uma oposição presente? E está tranquila com a legalidade desse mesmo congresso, depois das queixas da oposição enviadas ao Tribunal Constitucional? Estamos mais do que descansados. Aliás, o Tribunal Constitucional já se pronunciou parcialmente em relação a um dos pedidos, que era o da suspensão. Um dos juízes já disse que estes mecanismos não podem servir para paralisar a vida interna dos partidos. Lamento não ter tido uma oposição presente. Qualquer líder político gosta de desafios e nada me desafiaria mais intelectualmente do que debater ideias. A restante lista não apareceu, apesar de ter sido chamada a debater a moção. Tenho muito orgulho por ver que conseguimos consagrar nos estatutos a criação de núcleos de juventude e concelhias para que possamos ter uma renovação também partidária. Já vi muitas lideranças passarem, já vi muitas formas de fazer política interna, mas nenhuma delas tinha esta marca de proximidade que a nossa direção tem procurado implementar no partido. Conseguimos criar quer o conselho consultivo, que vai funcionar depois junto à Direção Nacional, teremos uma academia de formação a nível nacional, não apenas dos autarcas, mas dos diferentes órgãos políticos. Algumas listas teriam dificuldades para ter membros, já que várias filiações foram consideradas inativas. Seria possível flexibilizar isto de modo a ter uma maior participação no próprio congresso?Critiquei o ministro da Agricultura por apelar ao incumprimento da lei. Tenho uma norma estatutária, que não foi criada pela minha direção. E diz especificamente que só as comissões políticas, as concelhias ativas, podem eleger delegados ao congresso. Não me cabe a mim passar por cima desta norma. Não tem o plano de fazer uma revisão estatutária no PAN nesse sentido? Procedemos à revisão estatutária. Aliás, uma das coisas que deixei claro foi que esta revisão estatutária visava dar resposta às preocupações que o Tribunal Constitucional estabeleceu do ponto de vista da disciplina interna dos partidos. Tenho alguma dificuldade em compreender como é que alguém que se demite de um órgão, depois quer fazer eleições a correr para esse órgão, desrespeitando as normas regulamentares e estatutárias.Fala de Carolina Pia… Não apenas de Carolina Pia, mas outras distritais, no caso de Braga, por exemplo, onde foram convocadas as eleições e ninguém apareceu com lista. As pessoas não podem querer atropelar as regras para se servir a elas mesmas. Não podemos estar a prejudicar comissões, filiados que trabalharam ao longo de todos estes anos e que todos os dias trabalham em prol do PAN. Preocupa-a que não se atinja o quórum em reuniões da Comissão Política?Estávamos a falar de uma Direção que era composta por duas listas, o que já não acontece. O partido já não está suscetível aos boicotes da oposição interna. Temos reunido e desde que a oposição interna deixou de aparecer, a verdade é que as coisas têm funcionado com normalidade democrática. Onde é que existiu esse boicote interno? Demitiram-se precisamente para causar ruído nos momentos eleitorais, quer nas autárquicas, quer nas legislativas, a única coisa que fizeram foi prejudicar o próprio PAN. Não precisamos de ser vítimas de nós próprios. Para isso, já temos o ataque quer dos lóbis da tauromaquia, da caça, da extrema-direita. Esta Direção fez pontos de diálogo e inclusivamente integrou na sua lista pessoas que tinham saído da anterior direção como foi o caso de Pedro Fidalgo Marques [candidato às Europeias de 2024]. Não podemos tolerar é faltas de respeito. Recordo que Carolina Pia teve um processo disciplinar porque não integrou a candidatura em Viseu. E, portanto, está perseguir os órgãos e a Direção, quando teve uma falta disciplinar grave. A minha lista, que foi eleita, tem pessoas dos vários distritos do país e até de zonas geográficas que não têm concelhias ativas, como é o caso de Castelo Branco ou Viana do Castelo. Uma das coisas que alterámos nos estatutos foi que, ao invés de dizer apenas distritais, as concelhias ativas também pudessem participar. Esta Direção até tem sido mais aberta que qualquer outra.Ouviu e leu críticas duras. Apelidaram-na de autocrática. Como se sentiu?Lembro-me do meu tio, que quando lhe disse que vinha para o PAN, me disse que os partidos destroem as pessoas. E, de facto, eu já vi de tudo em política. Já vi, de facto, pessoas sem escrúpulos atacarem, perseguirem. Posso errar, posso acertar, mas não há um único dia em que não trabalhe pelo PAN e pelas causas em que acredito. Há críticas que são justas, há críticas que são injustas. Quando alguém nos pede para criar núcleos para a juventude, acho que é uma aspiração legítima. O PAN é um partido de não violência, de empatia pelo próximo. Já vi ataques dentro deste partido que não me reconheço nem revejo. Ser alvo sistemático desse tipo de ataques é algo que nos faz pensar se vale a pena continuar ou não em política.Tem quatro anos como líder do partido. Sente o desgaste, até por ser deputada única? Parece muito tempo, porque tivemos muitos atos eleitorais. Não sinto um desgaste acumulado que me faça dizer que daqui a três ou quatro anos é impensável continuar a minha tarefa. Tenho o desejo de ver novas lideranças, quero abrir caminho para que isso surja. Ainda não chegou o momento em que sinta que tenho o meu trabalho concluído. Acho que seria profundamente ingrato deixar o partido no contexto político que temos hoje. Seria muito fácil, mas também seria profundamente ingrato. Vamos ter novos rostos, novas lideranças e contamos com todas as pessoas que se querem juntar ao partido para nos ajudar a fazer esse mesmo caminho. Chegará o momento em que abraçarei outros desafios, mas não me verão a falar mal do partido. ."Não podemos tolerar faltas de respeito. Carolina Pia teve um processo disciplinar porque não integrou a candidatura em Viseu. E, portanto, está perseguir os órgãos e a Direção, quando teve uma falta disciplinar grave."Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN."Portugal vai ser um dos países mais afetados pelas alterações climáticas. Esperamos que António José Seguro também utilize a sua magistratura de influência para isso."Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN.Inês de Sousa Real: "Governo está capturado pelo Chega e atrasado na Lei do Clima e na redução carbónica".Inês de Sousa Real: "A Iniciativa Liberal parece uma versão fofinha, mas ameaça direitos fundamentais"