Na segunda parte da entrevista ao DN, Inês de Sousa Real expressa preocupação pela forma como Iniciativa Liberal e Chega podem influenciar governação. . Sendo porta-voz de um partido que defende a missão ecologista, tem um relacionamento próximo, especial, com a ministra do Ambiente? O PAN tem procurado fazer essas pontes, aliás foi das primeiras reuniões que pedimos. Não há tanta abertura por parte deste Governo como existia em anteriores. Apesar de tudo, denoto que não existem o mesmo tipo de pressões ou de conduta por parte da ministra do Ambiente como no caso do ministro da Agricultura. Agora, de facto, o Ambiente não tem sido uma prioridade para este Governo, não é. E isso condiciona a própria atuação do ministério. Temos hoje a Lei de Bases do Clima, fez já quatro anos, e não temos nem o conselho de ação climática criado, que caberia ao Parlamento, nem as metas que a própria Lei de Bases previa, mas que não estão a ser regulamentadas. No entanto, sentimos que, de facto, a pasta climática não tem a dignidade que deveria ter dentro do próprio Governo. É preciso investimento na própria ferrovia em todo o país, a proteção da orla costeira, por exemplo. Vimos isto nas últimas cheias.No Parlamento, o PAN levará Projetos de Lei e de Resolução sobre a Lei de Bases do Clima. Acha que o PSD, agora mais colado ao Chega, vai validar esse projeto do PAN?Olhamos com muita preocupação para uma proposta da Iniciativa Liberal que quer revogar, basicamente, a Lei de Bases do Clima. Recordo que a Lei de Bases do Clima teve um texto consensual e o PSD fez parte desta aprovação E, portanto, muito nos estranharia vermos o PSD voltar atrás naquela que é a política climática. Falar em emergência climática é falar de segurança das pessoas. Só que, lá está, o debate tem sido capturado pela Imigração.Sendo ingrato como deputada única ter dois minutos num debate quinzenal com o primeiro-ministro, vai centrar-se onde? No Ambiente, nos animais, para se diferenciar de outros partidos?Quando falamos de animais também estamos a falar de pessoas. Há quem tente ridicularizar pedirmos a redução do IVA dos serviços médico-veterinários, mas aí quem paga a conta é a família. Só nós é que trazemos estas preocupações. Mais ninguém fala destas temáticas, apesar de vermos em campanha eleitoral André Ventura a tirar fotos com cães e gatos. Por outro lado, o combate à violência doméstica para o PAN é essencial. São mais de 30 mil denúncias todos os anos e nada tem mudado. Queremos que as vítimas tenham, desde o primeiro momento, apoio jurídico gratuito, para não pagarem as custas judiciais, e evitar que as crianças ou as mulheres tenham de continuar a viver com o agressor. O combate à partilha de imagens de cariz sexual não consentidas e o próprio direito à privacidade digital serão prioridades também, além de alargar o código penal aos maus-tratos a outros animais, que não apenas os animais de companhia.É um problema o peso parlamentar do Chega para uma afirmação de uma política ambiental?Do Chega e não só, da própria Iniciativa Liberal, porque se apresenta como uma versão fofinha, com esta história de que o liberalismo faz muita falta a Portugal, mas põe em causa direitos absolutamente fundamentais da nossa sociedade: como a escola pública, a saúde pública. No que diz respeito à política climática, já deixaram bem claro ao que vêm e é tão ou pior ao Chega.Nas Autárquicas, revisitou-se a ideia de que é preciso construir mais para estimular a habitação. A revisão da Lei dos Solos e para mudar os Planos Diretores Municipais é uma preocupação para o PAN? Alarma-a que também o PS fale disto?Percebemos que é preciso mais oferta habitacional, mas para isso o PAN apresentou alternativas, seja a promoção das cooperativas de habitação, por outro lado construir em altura em detrimento de estarmos a construir em solo agrícola. Criticamos que se esteja a explorar a Costa Vicentina, que é reserva natural, que tem espécies protegidas, quando temos terrenos que estão aptos para a agricultura e que servem para esse fim. Sabemos que a resposta a curto e médio prazo não vai ser a construção. Por outro lado, sabemos que a maior parte desses terrenos, mais uma vez, serão para habitação de luxo, isto quando temos já um vasto património público fechado devoluto. É com muita estupefação que vemos estes partidos, que têm oscilado no poder, e que nenhum deles tenha disponibilizado, de forma séria, o parque público.Mas ao, por exemplo, mencionar cooperativas de habitação, está a concordar com o PS. A questão é a crítica do que foi feito pelo PS anteriormente. Em matéria do simplex, por exemplo. Conseguimos avanços no projeto Housing First, para os sem-abrigo. O mesmo para as vítimas de violência doméstica. Com o PS, o PAN conseguia inscrever estas propostas no Orçamento de uma forma mais clara. Neste momento, com esta política que temos em cima da mesa, que não existe ainda uma quantificação, objetivos concretos daquilo que se pretende em termos de habitação. Aliás, uma das coisas que o PAN tem criticado ao longo até de sucessivos governos é esta excessiva dicotomia das propostas da esquerda e da direita. Nós precisamos quer de senhorios, quer de arrendatários. O PAN tem-se batido muito para que, por exemplo, o regime bonificado, que já em tempos as famílias puderam beneficiar, seja reposto. Para que os jovens possam comprar a casa com acesso ao crédito bonificado, tal como puderam os seus pais ou avós.O PAN esteve em duas coligações vencedoras nas autárquicas. Que garantias têm destas duas autarquias, em Sintra e Coimbra?Existem acordos escritos. Em Sintra, foi criada a Comissão do Bem-Estar Animal. Em Coimbra, passamos a ter um grupo municipal e temos lutado por uma gestão mais ética das matilhas, tal como centrando as preocupações ao nível do alojamento estudantil. Isso passa por um esforço mútuo, de cumprirmos aquilo que era o acordo que estava previamente estabelecido.."É com muita estupefação que vemos PS e PSD, que têm oscilado no poder, e que nenhum deles tenha disponibilizado, de forma séria, o parque público de habitação."Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN."Temos hoje a Lei de Bases do Clima, fez já quatro anos, e não temos nem o conselho de ação climática criado."Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN.Inês de Sousa Real: "Governo está capturado pelo Chega e atrasado na Lei do Clima e na redução carbónica".Inês de Sousa Real: "Seria ingrato deixar o partido no contexto político atual"