"Se houve um sítio em que o 25 de Abril se fez sentir de forma extraordinariamente positiva foi nos Açores"

Doutorado em Engenharia Civil e do Ambiente por uma universidade dos Estados Unidos, José Gabriel do Álamo de Meneses, presidente da câmara de Angra do Heroísmo e candidato a um terceiro mandato pelo PS, fala da influência dos americanos da base das Lajes na cultura da Terceira, da qualidade de vida que os Açores oferecem hoje, mas também do desafio de criar empregos qualificados que mantenham os jovens na ilha.

O senhor é engenheiro com formação na área ambiental. E a preservação do ambiente é um dos pontos fortes da Terceira, com um envolvente natural que realça a beleza arquitetónica de Angra do Heroísmo. Uma mais-valia para quem cá vive e uma atração para quem visita. A defesa do ambiente é uma preocupação para si enquanto autarca?
A qualidade ambiental nos Açores continua a ser um dos principais pontos de atração do arquipélago. Nós temos do ar mais limpo deste planeta. Aliás, as pessoas quando vêm do exterior chegam aqui e espantam-se com a visibilidade das coisas. Eu posso estar aqui e quase a ver casas ali em São Jorge que são uns 50 e tal quilómetros. Num dia bom, posso estar a ver a montanha do Pico aqui a partir de Angra que está a cento e muitos quilómetros de distância.

A 100 quilómetros de distância?
Vê-se. E num dia muito excecionalmente claro até consigo ver as montanhas de São Miguel ali para Leste, que estão quase a 200 quilómetros. Ou seja, na verdade nós temos uma qualidade ambiental espetacular. Temos um mar que ainda está limpo, apesar do problema dos plásticos também não ser alheio ao nosso mar, e todas as questões que são globais também aparecerem por aqui, mas nós continuamos a ter um ambiente com uma qualidade que não tem comparação com a generalidade dos sítios onde nós podemos ir. E, de facto, isso aliado também à beleza da paisagem, a estas formações vulcânicas que têm, naturalmente, uma morfologia que lhes dá uma particular beleza, faz com que os Açores sejam muito diferenciado e fortemente atrativo. Particularmente o grupo Central que, para além da ilha em que estamos temos sempre no horizonte as ilhas vizinhas. Portanto, temos aqui esta relação de mar / terra que é particularmente encantadora. E, por isso, estou convencido que os Açores, se conseguirmos manter esta qualidade ambiental que temos, vão continuar a ser fortemente atrativos para os turistas e isso tem-se sentido durante a pandemia.

E para quem vive cá? Um jovem da Terceira, aqui de Angra, tem uma perspetiva de futuro, de emprego, aqui na ilha ou sente uma grande tentação de emigrar?
Essa é uma das questões que sempre marcaram os açorianos desde, enfim, desde que estas ilhas começaram a ganhar algum nível de povoamento. Nós vivemos sempre aqui numa dialética entre o querer ficar, o estar, e, ao mesmo tempo, uma enorme curiosidade pelo mundo e pela procura de oportunidades noutros lugares. A partir dos Açores sempre se partiu e sempre se chegou. Este sempre foi um lugar em que, ao contrário do que se possa pensar, que viver numa ilha é viver num espaço fechado, estas ilhas sempre foram espaços muito abertos de contacto entre pessoas, em que há gente que vem de todo o lado e também há gente que daqui parte para todo o lado. Isso continua a ser uma realidade hoje. As oportunidades de emprego existem, obviamente, na agropecuária, na construção, no funcionalismo. Mas certas oportunidades de emprego, particularmente aquelas que estão em áreas mais especializadas, na área da ciência e da tecnologia ou alguém que tenha uma ambição de andar pelas grandes empresas, obviamente que não pode ficar aqui. E, portanto, nós temos cada vez mais jovens que vão para o ensino superior. Felizmente esse indicador é um dos melhores que nós temos. Ou seja, há um crescimento enorme do número de jovens que frequenta a universidade, sobretudo quando se compara com a minha geração, em que os números contavam-se pelos dedos. Hoje quase a terça parte dos jovens fazem esse percurso. E claro que uma parte importante deles não regressa ao arquipélago, pois, entretanto, procuram oportunidades noutro qualquer lugar. Mas também há quem, do outro lado do mundo, venha para cá viver. O grande desafio aqui nestas ilhas, neste momento, é criar emprego qualificado e que pague bem.

É possível fazer algo para contrariar essa falta de oportunidades para os mais preparados e ambiciosos?
Foram criados parques tecnológicos com grande sucesso, e aqui na Terceira funcionam duas iniciativas que têm servido para atrair jovens altamente qualificados para cá. Há uma na Praia da Vitória, a Terceira Tech Island, que tem a ver com programação na área dos computadores, e aqui no lado de Angra há o TERINOV, que é um parque de Ciência e Tecnologia que tem já, neste momento, uma carteira importante de empresas e iniciativas na área tecnológica, que ajuda a fixar jovens. Mas esse é um desafio constante e, provavelmente, nunca terá uma resposta. Ou seja, nós vamos viver sempre assim. E felizmente, porque uma das melhores coisas que existe é a liberdade das pessoas de partir e de chegar.

No continente fala-se muito da importância das autarquias, pela proximidade com as populações. Aqui nos Açores temos a questão de haver também um governo regional. A autarquia continua a ser essencial na relação da população com a administração central?
A maior parte do relacionamento da autarquia, no caso dos Açores, acontece sim com o Governo Regional, ou seja, o governo dos Açores aqui, de alguma maneira, ocupou a grande maioria dos canais que, no caso do continente, a administração central tem. Obviamente que há matérias que não são regionalizadas, como as questões da segurança, ou outras similares, em que o nosso relacionamento é com o Estado. Mas eu diria que a vasta maioria das matérias é resolvida entre as autarquias e a região.

O senhor nasceu aqui na ilha. Estudou fora, tanto em Portugal Continental como nos Estados Unidos. Entre aquela Terceira que conheceu quando era criança e esta agora, até que ponto foi a transformação?
A transformação foi espantosa. Se houve sítio em que as consequências do 25 de abril se fizeram sentir de forma extraordinariamente positiva foi no caso dos Açores. Eu sou oriundo de uma zona rural, da costa norte da ilha, ainda dos tempos em que uma escola tinha 40 alunos e uma boa parte deles descalços. Eu vivi, felizmente, um período de gigantesca transformação na sociedade açoriana e uma formação que criou uns Açores completamente novos. Aquilo que existia quando eu era criança hoje, enfim, talvez só mesmo nos países mais pobres é que exista. Nós fizemos uma gigantesca caminhada desde aqueles tempos até agora. Nos tempos da minha escola, para além da quarta classe, contam-se por dois dedos ou três aqueles que estudaram. Estamos a falar de um mundo em que as oportunidades se reduziam praticamente à imigração para a América e para o Canadá. Apesar de todas as dificuldades e de todas as questões que vão surgindo, os Açores têm hoje uma qualidade de vida e oportunidades de mobilidade social que naquela altura nem sonhadas eram.

Essa ligação com a América, com os Estados Unidos, é transversal a todas as ilhas açorianas. Mas podemos dizer que no caso da Terceira houve uma experiência diferente pelo facto de ter a Base das Lajes e de muitas famílias de militares americanos viverem aqui até bem recentemente?
Claro, a ligação com a América, ou com o Canadá, mas mais com a América, existe nos Açores desde ainda antes da independência dos Estados Unidos. Portanto é uma ligação secular. Que no caso da ilha Terceira teve uma intimidade muito maior porque neste espaço ao longo de quase oito décadas houve uma convivência próxima. Todos nós tivemos vizinhos americanos. A primeira televisão que existiu na ilha era televisão americana. O primeiro de praticamente tudo aquilo que nós hoje consideramos, enfim, questões da sociedade moderna, entrou por via da Base das Lajes. É preciso não esquecer que aqui nas Lajes funcionou um liceu, um liceu americano, quando nós praticamente não tínhamos nada disso aqui. Não tínhamos um ensino capaz. Funcionou um hospital, funcionou a estação de televisão, funcionaram todas aquelas amenidades que são típicas de uma qualquer pequena cidade americana.

Como jovem açoriano, enquanto estava aqui na Terceira, sentia esse apelo pela cultura americana, por eles estarem cá?
Claro. Sentíamos a presença dos americanos num período de grande pobreza local, em que naquela altura um dólar valia uma fortuna. Hoje é difícil de perceber esta relação, um euro vale mais do que um dólar. Mas quando nós contávamos a vida em escudos, um dólar era assim uma coisa... E, por isso, de facto, nós víamos a grande diferença entre a nossa qualidade de vida e a qualidade de vida deles, o que, obviamente, fazia aumentar o desejo de ir para a América.

Terceirenses e americanos misturavam-se?
A coexistência era muito íntima. Aliás, quem vivia do lado da Praia da Vitória tinha vizinhos na casa ao lado que eram americanos. Os americanos arrendavam casas nas comunidades e estavam presentes praticamente todos os fins de semana. Os carros americanos tinham aquele estilo diferente e uma matrícula diferente. Enchiam as ruas desta ilha e, portanto, nós tínhamos uma relação muito próxima com os americanos. E essa relação muito próxima, obviamente, que despertava também o desejo de, de alguma maneira, mudar as nossas vidas e creio que isso também teve um efeito sobre o que aconteceu ao longo destes anos e da enorme emigração.

Como autarca de Angra, a redução dos efetivos na Base das Lajes hoje em dia representa já só um pequeno impacto económico?
Foi um grande impacto económico. Ainda hoje continua a ser. Claro que o principal choque aconteceu em 2012 / 2013 e por aí adiante, nesses anos mais duros dessa redução, nessa segunda redução, porque a questão a Base das Lajes não é uma questão recente. A Base das Lajes começou a reduzir a sua atividade logo após a queda do muro de Berlim, ou seja, já desde os anos 90. E claro que isso teve um enorme impacto na época, particularmente sobre as pessoas que não trabalhavam para a Força Aérea dos Estados Unidos ou para o governo dos Estados Unidos. Os que eram empregados diretos da base tiveram um tratamento bastante favorável, do ponto de vista de indemnizações e de acesso a reformas antecipadas bastante bonificadas. As empregadas domésticas, quem cortava a relva, quem trabalhava para as pessoas e não propriamente para a Força Aérea dos Estados Unidos não teve nada dessas vantagens. Antes pelo contrário. Muito desse emprego era emprego não declarado e as pessoas ficaram sem nada.

E parte desse emprego, apesar da base ficar no concelho de Praia da Vitória, estendia-se a Angra?
Esta ilha é uma ilha pequena. Não há nenhum ponto habitado desta ilha a mais de 25 quilómetros do outro. Portanto esta ilha tem uma economia integrada. Aqui a distinção entre os concelhos de Angra e Praia da Vitória é meramente administrativa. Porque, na verdade, todos nós temos famílias que se espalham pela ilha.

O senhor presidente nasceu no outro concelho da ilha...
Exato. Apesar de ser de uma família de cá, nasci lá exatamente porque o meu pai era trabalhador na Base das Lajes. E o que acontece neste contexto é que nós vivemos numa economia perfeitamente integrada, em que as pessoas de Angra praticamente em igual número - se calhar em maior número, que a população de cá é maior - trabalhavam na Base das Lajes.

Vai candidatar-se ao seu terceiro mandato nesta cidade património mundial da humanidade, tão bem recuperada depois do sismo de 1980. De novo pelo PS. O senhor já foi secretário regional. Quando se fala dos custos de insularidade, da importância da autonomia... No fundo, e saindo fora destes jargões, a relação dos Açores com o Continente é uma relação que neste momento está equilibrada entre as duas partes?
Aquilo que aconteceu ao longo dos anos foi, digamos, uma espécie de sedimentação da solução que foi encontrada em 1975 / 1976. Mas esta não é uma questão que seja de agora. Esta é uma relação que teve diferentes complexidades ao longo da história. Nunca foi uma relação diretamente determinada pelo lado açoriano. Foi essencialmente determinada de fora para dentro e teve configurações diferentes ao longo da nossa história, que levaram a momentos de grande tensão e à existência de sentimentos autonomistas e movimentos independentistas com algum peso e que se conseguiram acalmar através de soluções de conciliação. Eu creio que aquilo que aconteceu em 1976 foi uma dessas soluções que creio que nesta altura, estabilizou esta relação. E não vejo assim nenhuns sinais de instabilidade. Portanto, creio que existe uma solução constitucional que está corretamente estabelecida. Obviamente que pode ter um afino aqui ou ali, há sempre questões para as quais a própria evolução da sociedade vai exigindo alguns acertos, mas eu diria que basicamente a relação se encontra estabilizada. E estes 40 - já são quase 50 anos - de autonomia, desta autonomia, porque existiram autonomias anteriores, de formas diferentes, tem levado a bons resultados. E a verdade é que os Açores tiveram um desenvolvimento económico e social que não se sonhava antes deste período. Por isso acho que os resultados são francamente positivos.

leonidio.ferrreira@dn.pt

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