Remodelação. Chega dá segunda oportunidade ao governo do PSD nos Açores

O presidente do Governo Regional dos Açores remodelou o Executivo, encolhendo-o e tornando-o "mais coeso". O Chega queria a demissão do secretário das Finanças e teve-a.

O tom continua ameaçador mas nas entrelinhas percebe-se que o Chega admite, afinal, continuar a manter o apoio ao Governo Regional dos Açores (liderado pelo PSD em coligação com o CDS e o PPM). Esta segunda-feira, o seu presidente, José Manuel Bolieiro, concretizou uma remodelação governamental - uma das várias exigências que o Chega faz para lhe continuar a dar apoio parlamentar. E foi assim que reagiu o deputado do partido de André Ventura no parlamento açoriano, José Pacheco, numa declaração à Lusa: "É bom que percebam que não fazemos ameaças vãs e que também não fazemos as coisas às escondidas. Já dissemos o que pensávamos disto [da governação]. Agora, está do lado do governo mudar isso e convencer-nos de que estamos enganados ou de que conseguem fazer melhor."

Há cerca de duas semanas, o mesmo deputado assegurava: "Quando nos sentimos enganados, temos de dizer ao nosso parceiro que fomos enganados e que não podemos confiar neles. Obviamente que, em novembro, temos um Orçamento e está aqui a garantia do deputado do Chega José Pacheco: o orçamento está chumbado." Ou seja: "Não tenho problema nenhum, enquanto representante do Chega nos Açores, de assumir essa despesa e esse risco, mas fica o Governo Regional a saber que, com o Chega, acabou."

O Chega basicamente dizia que o governo de Bolieiro não estava a cumprir compromissos que permitiram ao partido dar-lhe sustentação parlamentar, nomeadamente viabilizando os orçamentos regionais. Fazia duas exigências então: uma remodelação no Executivo açoriano (com incidência especial no secretário regional das Finanças, Joaquim Bastos e Silva); e o cumprimento de alegadas promessas quanto a mais viaturas para os bombeiros e quanto a um plano regional de incentivo à natalidade.

Na remodelação governamental que apresentou em primeira mão ao Representante da República, embaixador Pedro Catarino, José Manuel Bolieiro fez de facto cair o secretário das Finanças, trocando-o por Duarte Freitas (que deixa a pasta da Juventude, Qualificação Profissional e Emprego, a qual foi agora entregue à ex-deputada social-democrata Maria João Carreiro).

"Os tempos são muito difíceis e é preciso assegurar estabilidade governativa. É um imperativo do nosso futuro coletivo e em particular dos Açores e dos açorianos."

Em termos gerais, Bolieiro encolheu o Governo Regional, havendo agora menos duas secretarias regionais. Saíram do executivo quatro secretários regionais: além do das Finanças, também o do Turismo e Energia (Mário Mota Borges), a da Cultura, Ciência e Transição Digital (Susete Amaro) e a das Obras Públicas e Comunicações (Ana Carvalho). Duarte Freitas assumiu a pasta das Finanças e Berta Cabral será a nova secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, assumindo ainda a área da Energia. Já a secretária regional da Educação, Sofia Ribeiro, fica com os Assuntos Culturais.

Bolieiro irá tutelar pessoalmente as áreas das Comunidades e Comunicações e o processo de criação do porto espacial em Santa Maria, enquanto a vice-presidência ficará com a área da Ciência. Depois de entregar ao Representante da República o conteúdo da remodelação, Bolieiro disse que agora tem um governo "mais pequeno" e "mais coeso". E falou em "estabilidade": "Os tempos são muito difíceis e é preciso assegurar estabilidade governativa. É um imperativo do nosso futuro coletivo e em particular dos Açores e dos açorianos."

"Mudar os peões"

O atual Governo Regional, que resulta de uma coligação entre PSD, CDS e PPM e tem apoio parlamentar de outros três deputados (um do Chega, outro da Iniciativa Liberal e ainda um independente ex-Chega).

A Iniciativa Liberal comentou a remodelação num sentido negativo. "Não se esperam grandes mudanças de políticas com protagonistas do passado. Nem se esperam as reformas de que a região carece", disse o deputado regional Nuno Barata. "Não basta mudar os peões num tabuleiro. É preciso fazer diferente. É preciso mudar as políticas. O povo dos Açores não estava à espera que alguma coisa mudasse para que ficasse tudo na mesma."

Já o deputado regional do PPM, Paulo Estêvão, preocupou-se em desmentir que a remodelação tenha sido feita para a agradar ao Chega. "Foi decidida no âmbito da coligação e não teve nada a ver com qualquer tipo de declarações que foram feitas por outros agentes políticos. Não teve nada a ver com declarações feitas há seis meses, há sete ou há dois meses. Não tem nada a ver", afirmou, à Lusa.

Os novos governantes tomam hoje posse.

joao.p.henriques@dn.pt

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