Costa: "O medo é aquilo que mais alimenta o populismo"

Primeiro-ministro português defendeu, na conferência de imprensa após assumir a presidência da União Europeia, o "pilar social" como forma de combater os receios dos cidadãos e, com isso, derrotar as ondas populistas que se fazem sentir um pouco por toda a Europa.

O primeiro-ministro considerou esta terça-feira que a existência de avanços no pilar social da União Europeia, que é uma das prioridades da presidência portuguesa, é essencial para combater os populismos e responder "aos medos" dos cidadãos.

Esta posição foi assumida por António Costa numa conferência de imprensa conjunta com o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, após uma reunião entre ambos no Centro Cultural de Belém, em Lisboa - encontro que constituiu o primeiro ato formal da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE).

Questionado sobre a tradicional oposição de Estados-membros europeus mais liberais (casos da Irlanda ou da Holanda) a um aprofundamento de regras de caráter social na União Europeia, o primeiro-ministro português defendeu a importância da cimeira social prevista para 07 de maio no Porto, onde se procurará um compromisso comum em torno do pilar social.

"No dia seguinte, no dia 08 de maio, também no Porto, haverá um Conselho informal, onde será trabalhada uma declaração que reafirme o compromisso de todos os Estados-membros no sentido de desenvolver este pilar social - um pilar que não vale por si só, mas que deve ser encarado como uma base sólida para dar confiança a todos os cidadãos", reagiu António Costa.

De acordo com o primeiro-ministro, a União Europeia enfrenta os desafios das transições climática e digital "e ninguém deve ficar para trás".

"O medo é aquilo que mais alimenta o populismo. Se queremos combater o populismo de forma eficaz, temos de dar confiança aos cidadãos - confiança perante aquilo que são os receios", sustentou.

No presente, António Costa apontou a doença da covid-19 como o principal receio manifestado pelos cidadãos, razão pela qual o processo de vacinação em curso na União Europeia "é fundamental".

"Mas há também outros receios. As pessoas têm receio que com a digitalização o seu posto de trabalho seja ocupado por um robô, e têm medo de que com a transição climática haja impacto em indústrias tradicionais como a do automóvel. Temos também de nos vacinar contra esses medos", argumentou.

Para António Costa, uma das vacinas contra o medo passa pela existência "de um pilar social forte" na União Europeia, que dê prioridade "às qualificações e às requalificações dos cidadãos".

"Temos de investir na inovação para que haja maior competitividade, mas também tem de haver proteção alargada para que ninguém fique para trás e todos participem na sociedade do futuro, que se pretende mais sustentável do ponto de vista ambiental e mais digital", acrescentou.

"Uma verdadeira maratona"

"A UE é uma verdadeira maratona, que se desenvolve em forma de estafeta, em que, de seis em seis meses, recebemos o testemunho", caracterizou António Costa, na conferência de imprensa conjunta com Charles Michel, no final do primeiro encontro formal da presidência portuguesa da UE.

Assumindo que esta será "uma presidência diferente", dado o atual contexto pandémico, e antecipando "seis meses de intenso trabalho", António Costa disse contar com "a colaboração do presidente do Conselho Europeu, que prometeu uma colaboração "estreita e forte" em resposta.

"Estamos no mesmo barco e partilhamos a convicção de fazer progredir a União Europeia ao serviço dos 450 milhões de cidadãos europeus", vincou Charles Michel.

As prioridades da presidência portuguesa -- sob o lema "Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital" -- "coincidem com os objetivos da UE a médio e longo prazos", assinalou Charles Michel, considerando que "Portugal tem uma experiência extremamente importante (...), que será certamente útil".

O responsável europeu reconheceu que este "é um momento importante para o projeto europeu" e que a agenda da presidência portuguesa que arrancou no dia 01 e se prolonga até final de junho é "ambiciosa".

Frisando que "a Europa é mais do que um projeto financeiro (...), é um projeto assente em valores", o presidente do Conselho Europeu vincou que "o valor acrescentado do projeto europeu" passa pela qualidade de vida, pelos direitos sociais, pela educação, pelo combate a todas as formas de discriminação e desigualdades.

Do programa da visita de Charles Michel constou ainda uma breve visita ao Mosteiro dos Jerónimos, local onde foi assinado o Tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia), em 1985, e o espetáculo inaugural da presidência portuguesa, com um concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa, conduzido pela maestrina Joana Carneiro.

A visita do presidente do Conselho Europeu é o primeiro encontro oficial da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia.

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