António Costa Pinto: "Incerteza económica será mais importante [no voto] do que a pandemia"

Conversando com o DN, o politólogo António Costa Pinto desvaloriza a evolução da situação pandémica e os seus efeitos nas eleições de janeiro.

Como é que a evolução da situação pandémica pode condicionar as eleições legislativas marcadas para 30 de janeiro?
O que observamos é que, mesmo em contextos pandémicos mais graves, a participação eleitoral não diminuiu. Portanto, não é de prever nenhum impacto no que toca à participação eleitoral. Acresce que, tanto quanto podemos perceber, e tendo a elevada taxa de vacinação, se existirem medidas de condicionamento elas serão seguramente mais ligeiras dos que as que conhecemos.

Não está a ver, pelo menos para já, que o PS, enquanto partido de governo, possa ser atingido eleitoralmente pela necessidade de, eventualmente, decretar medidas de mitigação pandémica?
Mesmo que o governo, em concertação com o Presidente da República, se veja obrigado a tomar medidas de maior condicionamento, os portugueses já as conhecem e elas serão, em princípio, mais ligeiras do que no passado. Também não é provável que isso tenha impacto eleitoral, dada a habituação à conjuntura pandémica e também devido aos bons resultados da vacinação. É pouco provável que exista um processo de culpabilização eleitoral do governo nas urnas. E isto mesmo que o assunto seja tema de campanha - aliás Paulo Rangel já começou a fazer isso [criticando uma suposta lentidão na vacinação da terceira dose].

"A carestia de vida não será determinante mas será mais importante do que a pandemia nas decisões eleitorais, tendo em conta a atual conjuntura de incerteza económica."

Do que conhece da política e dos políticos portugueses, acha que a própria existência de eleições marcadas terá influência nas medidas que o governo decretar? Pode acontecer estas medidas serem condicionadas principalmente por razões eleitorais e não por razões de saúde pública?
Convém não esquecer que estas eleições serão realizadas num contexto - externo ao governo mas que o condiciona - de crise dos combustíveis, aumento da inflação, falta de matérias primas, enfim, do aumento do que se chama de "carestia da vida". E para alguns segmentos da sociedade, a culpabilização do governo será, devido a isto, sempre um facto. Não diria que a crise pandémica venha a atingir eleitoralmente o governo, porque isso é descontado como algo externo à governação, mas quanto ao resto - a tal carestia de vida - já não. Vivemos num contexto de grande incerteza económica. A carestia de vida não será determinante mas será mais importante do que a pandemia nas decisões eleitorais, tendo em conta a tal conjuntura de incerteza económica. Isto, é claro, a manterem-se, na pandemia, os dados atuais. Se entretanto chegasse, por exemplo, uma variante nova do vírus muito mais letal, aí sim, seria outra questão.

Acha que a coabitação entre o Presidente da República e o governo, nesta matéria da pandemia, tem decorrido sem espinhas? Essa consonância será mantida?
Tendo em vista um eventual agravamento da conjuntura pandémica, a unidade na ação entre instituições, neste caso Presidente e Governo, será com certeza mantida. Não é de crer, neste capítulo, que se registem grandes mudanças.

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