Partidos sem assento na AR. O debate em que o negacionismo mostrou a cara

Onze forças políticas sem assento parlamentar debateram ideias ontem à noite na RTP. Um debate onde se ouviu falar da "dita" ou de uma "suposta" pandemia, que afinal, segundo chegou a ser dito, só terá morto 152 pessoas e não mais de 19 mil, como diz a DGS.

João Pedro Henriques
© Pedro Pina / RTP

Não saiu defraudado quem esperava uma espécie de freak show do debate de ontem à noite, na RTP, entre os representantes dos onze partidos sem assento parlamentar.

Bruno Fialho, do ADN (Alternativa Democrática Nacional) foi quem se destacou nessa matéria - tanto que, de resto, ficou em casa e só apareceu por vídeo conferência, dado ter-se recusado a fazer um teste anti-covid.

Fialho nem sequer reconhece que há uma pandemia (falou em "suposta pandemia") e chegou ao ponto de assegurar que há um processo em tribunal que diz que afinal só morreram em Portugal 152 pessoas vítimas de covid (a DGS fala em mais de 19 mil). A sua primeira medida caso fosse eleito seria, pura e simplesmente, "decretar o fim da pandemia".

O outro grande negacionista em debate seria José Pinto Coelho, do Ergue-te . "Estamos a viver num manicómio a céu aberto", os especialistas só nos "atiram areia para os olhos", com ele na Assembleia da República os portugueses terão "um deputado sem máscara a promover a desobediência civil", "não podemos perder liberdade pessoal em nome de uma dita pandemia" e tudo isto é, enfim, uma "encenação para subjugar as populações".

O radicalismo negacionista fez-se pela primeira vez ouvir num debate partidário mas também se ouviram outros propostas radicais, fora da questão covid-19.

Amândio de Madaleno, do PTP (Partido Trabalhista Português) defendeu que o salário mínimo deve ir imediatamente para mil euros; Renata Cambra, do MAS (Movimento Alternativa Socialista, uma dissidência do Bloco de Esquerda) quer "a prisão e confisco de quem roubou dinheiro ao país", com esse dinheiro devolvido à Segurança Social e ao SNS; Tino de Rans, do RIR, apresentou a proposta "três dez" que consiste em diminuir em dez por cento os custos das portagens, dos impostos sobre os combustíveis e do IVA da restauração; Cidália Guerreiro, do PCTP/MRPP, pugnou pela "revogação imediata e total do código laboral fascista imposto pela troika".

Perante isto, tiveram alguma dificuldade em fazer-se diferenciar os que se apresentaram como genuinamente moderados.

Joaquim Rocha Afonso, do Nós Cidadãos, pugnou por uma lei que permita candidaturas e independentes a deputados e, na economia, sublinhou a necessidade de "não renunciar à indústria e não apostar tudo no turismo".

"Querem-nos calar!"

Tiago Matos Gomes, do Volt - na verdade o único partido novo nestas eleições - disse que a sua primeira medida seria propor o lançamento de uma "grande vaga" de construção de residências universitárias e para professores deslocados. Jorge Nuno Sá, o ex-líder da JSD que agora dirige o Aliança, falou na necessidade um aumento de 50 por cento no subsídio de alimentação dos funcionários públicos e na urgência de descongelar as carreiras dos enfermeiros. E Élio Sousa, do Juntos pelo Povo - um partido nascido na Madeira que ali controla uma câmara e tem três deputados no Parlamento Regional - deu prioridade à necessidade de uma "redução fiscal para as empresas" e da redução do IVA da eletricidade.

Já Pedro Soares Pimenta, do MPT, mostrou-se defensor de uma "agenda verdadeiramente ecologista", criticando pelo meio o PAN: "É incrível um partido animalista e que se diz ecologista aprovar 70 por cento das medidas de um partido muito pouco ecologista [o PS]."

Para a história deste debate ficaria ainda um corte na energia a meio, que forçou o moderador a mandar o programa para intervalo. Foi nessa altura que se ouviu alguém dizer: "Querem-nos calar!"