Morreu Jorge Coelho, político e ex-ministro

O número dois de António Guterres na liderança do PS morreu vítima de um ataque cardíaco. As três principais figuras do Estado - Marcelo, Ferro e Costa - já reagiram, afirmando-se todos "em choque".

Paula Sá
© Tony Dias/ Global Imagens

Jorge Coelho, militante destacado do PS, e que o país guardou na memória como ministro das obras públicas que se demitiu após a queda da Ponte de Entre-os-Rios, morreu aos 66 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante quando visitava uma casa na zona turística da cidade.

De acordo com declarações à Lusa de Jody Rato, comandante dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz, Jorge Coelho, de 66 anos, sentiu-se mal durante a visita a uma habitação na rua da Liberdade, na zona turística do Bairro Novo.

"A senhora que estava com ele ligou para o 112 e quando a nossa equipa chegou ao local ele estava em paragem cardiorrespiratória. Foram feitas manobras de reanimação mas não foi possível reverter a situação", tendo o óbito sido declarado no local, adiantou o comandante.

O PS confirmou a morte do antigo dirigente socialista pelas 19.20 e António Costa, na qualidade de secretário-geral do partido, fez uma declaração pouco depois, na sede nacional do partido, no Largo do Rato.

Com os olhos marejados, António Costa disse que Jorge Coelho "foi sobretudo um amigo de todos nós" encarnando como poucos a "alma socialista". "Não era só um camarada, era um amigo de todos nós."

O chefe do Governo e do PS recordou-o também como uma "força de natureza que ajudou o PS a reerguer-se" do dez anos que passou na oposição (1985-1995). Prometeu ainda que depois da passada a pandemia o PS o irá homenagear de forma devida, sem as imposições da "contenção" que o covid-19 atualmente impõe.

Numa nota no site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa escreveu que "com o dramático falecimento de Jorge Coelho desaparece uma das mais destacadas personalidades da vida pública portuguesa nas décadas de 80 e 90 e no início deste século, em que foi governante, parlamentar, conselheiro de Estado, dirigente partidário, analista político e gestor empresarial".

"Reunindo grande intuição, espírito combativo, perspicácia política, afabilidade pessoal e sentido de humor, por entre os escolhos inevitáveis dos apoios e das contraditas, deixou na memória dos portugueses o gesto singular de assumir, em plenitude, a responsabilidade pela tragédia de Entre-os-Rios e a capacidade rara de antecipar o sentir do cidadão comum", acrescentou. "O Presidente da República recorda, com saudade, o amigo e apresenta à sua Família as mais sinceras condolências", conclui a nota.

A última grande missão política de Jorge Coelho foi como organizador das primárias do PS em 2014, as eleições que deram a António Costa a liderança do PS. Nos últimos anos abriu um bem sucedido negócio de produção e comercialização de queijo da Serra na sua cidade natal, Mangualde (distrito de Viseu).

O último comentário público que fez foi há dias para lamentar a morte do seu amigo Almeida Henriques (PSD), presidente da câmara de Viseu.

"Sempre um verdadeiro camarada"

Falando à SIC-Notícias, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, afirmou-se "ainda em choque" com a notícia da morte de Jorge Coelho.

"Foi sempre um verdadeiro camarada e um amigo" e além disso "uma força tremenda da democracia", "uma verdadeira máquina de fazer política". "É com grande saudade e ainda em choque que digo isto", acrescentou Ferro, recordando ainda serem ambos adeptos do Sporting e o facto de terem chegado ao PS vindos da extrema-esquerda (Ferro do MES e Jorge Coelho da UDP).

Natural de Mangualde, Jorge Coelho foi uma das mais influentes figuras dentro do partido, em que se filiou em 1982, onde assumiu vários cargos. Foi durante muito tempo conhecido como o "senhor do aparelho" e número dois do PS durante quase toda a liderança de António Guterres.

No ano que entrou para o PS, este engenheiro, foi chamado para o governo chefe do gabinete do Secretário de Estado dos Transportes do IX Governo, Francisco Murteira Nabo. Teve ainda experiência executiva em Macau nos anos que se seguiram.

Quando regressou a Portugal, foi uma figura central na eleição de António Guterres para a liderança do PS, secretário-geral do qual se tornou braço direito no partido, mas também no governo, de 1995 a 2001. No primeiro executivo liderado pelo agora secretário-geral das Nações Unidas, em 1995 assumiu a pasta de ministro-adjunto. Dois anos depois, numa remodelação governamental, assumiu também a pasta da Administração Interna.

"Amigo queridíssimo"

António Guterres manifestou-se "chocado" pela perda do "amigo queridíssimo". Com a voz embargada, num depoimento à SIC, lembrou que Jorge Coelho foi seu braço-direito e que sempre o acompanhou "nos momentos decisivos" da sua vida.

"Era a alegria de viver, era a personificação da vida. Nem sequer consigo aceitar", disse o secretário-geral das Nações Unidas, desfiando um rol de qualidade de Jorge Coelho: "enorme capacidade", "político inteligentíssimo"".

Sobre a sua demissão de ministro de ministro do Equipamento Social (Obras Públicas) , em 2001, na sequência da queda da Ponte Hintze Ribeiro de Entre-os -Rios, em Castelo de Paiva, Guterres classificou-a de "extrema dignidade" e que só fez aumentar a "admiração que tinha por ele".

"Quem se mete com o PS leva"

Foi precisamente nesse governo, saído das eleições de 1999, o segundo liderado por Guterres, que teve de tomar a decisão de abandonar o cargo, com uma frase que se tornou célebre na altura: "A culpa não pode morrer solteira".

E mesmo depois de abandonar as funções governativas não desmobilizou do PS. Jorge Coelho assumiu uma posição central no partido e coordenou a campanha às legislativas de 2005, que deram a primeira maioria absoluta a José Sócrates.

Anos antes já tinham deixado a sua marca na política nacional com a também muito citada frase "Quem se mete com o PS leva". Ele que foi um deputado truculento, "duro" "frontal", de "grande sentido de humor", mas também "muito afetuoso", como o caracterizam os que com ele conviveram na política.

Foi ainda conselheiro de Estado, cargo que deixou em 2008 também para se dedicar à vida empresarial, quando foi convidado para CEO do grupo Mota-Engil. Há alguns anos criou uma empresa em Mangualde de produção e comercialização de queijos de Serra.