Margarida Balseiro Lopes: "Espero que da parte de quem ganhou haja a capacidade de saber unir"

A ex-líder da JSD e deputada deixa o Parlamento porque defendia um caminho diferente do de Rui Rio para o partido. Diz não acreditar que o PSD possa chegar a entendimentos com este PS.

Paula Sá
Margarida Balseiro Lopes, antiga líder da JSD e deputada do PSD© Gerardo Santos / Global Imagens

A vitória de Rui Rio foi uma surpresa para si?

Sim, fiquei surpreendida, mas foi a vontade maioritária dos militantes e, portanto, há que respeitar e sobretudo apoiar o partido agora numa fase tão importante como é a da campanha para as eleições legislativas de 30 de janeiro.

O que se espera é que haja unidade mesmo dos que não apoiaram Rui Rio?

Desde que não se confunda unidade com unicidade. Obviamente que há aqui um compromisso da parte dos militantes em ajudarem o partido. Espero que da parte de quem ganhou também haja a capacidade de saber unir e de saber agregar, porque todos somos poucos para o desafio que temos pela frente.

O partido preferiu uma estratégia de abertura ao diálogo com o PS, proposta por Rui Rio, ou houve outras razões para a derrota de Paulo Rangel?

As coisas são relativamente simples: existiam dois candidatos a presidente do PSD e os militantes preferiram, provavelmente pela proximidade das eleições, que o candidato a primeiro-ministro fosse Rui Rio.

O facto de não ter estado ao lado de Rui Rio nas duas últimas diretas e ter apoiado nestas Paulo Rangel foi um constrangimento à sua continuação como deputada?

A opção que tomei foi de vida, que anunciei antes de qualquer discussão em volta daquelas que serão as listas do PSD. Fui seis anos deputada, com muita honra e muito orgulho, e está na hora de voltar à atividade privada e dedicar bastante tempo ao doutoramento que estou a fazer na área fiscal. Se me pergunta se o resultado teve algum impacto nesta decisão? Seria hipócrita se dissesse o contrário porque acreditava num caminho para o partido que não foi, legitimamente, a escolha dos militantes e também tenho de tirar daqui algumas ilações. Vou estar ao lado do partido, mas não já na linha da frente como candidata à Assembleia da República. Com toda a liberdade, como em 2015, quando assumi a entrada no Parlamento e exatamente a mesma liberdade que durante o exercício do mandato me levou algumas vezes a divergir do partido e agora em fazer uma outra opção, a de sair. O ser deputado não é uma profissão.

"Se o resultado teve algum impacto nesta decisão? Seria hipócrita se dissesse o contrário porque acreditava num caminho para o partido que não foi, legitimamente, a escolha dos militantes."

Dos seis anos de mandato no Parlamento, o que gostaria de destacar do seu trabalho?

Diria que o momento mais feliz que vivi foi, provavelmente, o discurso na cerimónia do 25 de Abril [2018], em que tive oportunidade de dizer um conjunto de ideias que há muitos anos trazia comigo. Dos momentos mais marcantes pela negativa terão sido os que aconteceram na sequência dos incêndios em Pedrógão em julho de 2017 e depois os que destruíram o pinhal de Leiria em outubro desse ano. Depois há um conjunto de causas que fui abraçando, uma delas é a da questão das famílias de acolhimento; a questão do ensino artístico, que tantas vezes é desvalorizado; e o combate à corrupção e a defesa da transparência. Tenho muita pena de terminar o meu mandato e que não exista a regulação do lobbying, porque era uma forma de trazer mais transparência para o exercício da atividade política e, lá está, foi uma das vezes em que discordei do partido e votei de forma diferente. Há forças ocultas que impedem que avance e continuamos a privilegiar um sistema de portas fechadas, de negociações ocultas. Quando o que acontece noutros países a na própria União Europeia é garantir que pessoas que representam interesses legítimos sejam obrigadas a efetuar um registo, que a agenda dos políticos seja pública, tal como a pegada legislativa, que leva a compreender a razão pela qual uma lei é feita de uma determinada forma. E neste período houve também um trabalho muito transversal na minha comissão principal, que era a de Orçamento e Finanças. Saio de consciência tranquila. Foram seis anos em que fiz o meu melhor.

E que mais deixou por fazer?

Nestes seis anos houve vários dossiers pelos quais lutei e que não tiveram o desfecho que eu desejaria. Um dos temas que mais tratei como deputada foi o do alojamento do ensino superior, que é uma das principais dificuldades para quem quer aceder, e o governo não executou grande parte destas propostas que aprovamos na AR.

Com este PS é possível o diálogo para levar por diante várias reformas?

Este PS tem sido incapaz de fazer reformas e, portanto, enquanto o PS se mantiver com esta postura e muito mais à esquerda do que tem sido na sua história acho muito difícil o PSD ter entendimentos, porque o PSD tem uma linha e não se deve afastar dela. E não é um chavão dizer que o PS se radicalizou. Este PS não é o de Mário Soares ou de Guterres, que eram moderados. Posso dar um ou dois exemplos. Na área da Saúde é evidente a partir do momento em que opta acabar com parcerias público-privadas em relação às quais os resultados que tínhamos eram francamente positivos - o de Braga é um desses hospitais onde os doentes tinham bons cuidados de saúde e nos últimos dois anos tem havido degradação na prestação do serviço. Foi feita uma escolha ideológica que não vai ao encontro daquelas que eram as necessidades das pessoas. A opção que também foi feita na área da Educação com os cortes nos contratos de associação, alguns deles que serviam muito bem as comunidades onde essas escolas funcionavam, também mostrou uma opção ideológica.

paulasa@dn.pt