Bolieiro remodela governo regional. Era uma das exigências do Chega 

O Chega rompeu com o PSD-Açores, pondo em causa futuro da maioria, exigindo mudanças no Governo Regional. Mudanças que vão ser feitas segunda-feira.

Porque "os Açores e os açorianos não apreciam os instáveis e os precipitados" que "não favorecem [nem] a competência nem a boa performance", o presidente do governo regional, José Manuel Bolieiro, do PSD, decidiu promover uma remodelação na sua equipa.

Bolieiro confirmou ontem que vai proceder a uma "alteração governativa", acrescentando que o conteúdo da mesma - envolvendo mudanças de nomes mas também na orgânica do Executivo - será por si comunicada segunda-feira ao Representante da República, embaixador Pedro Catarino.

"Terei oportunidade de, no quadro que institucionalmente é próprio - e fica essa informação -, na próxima segunda-feira estar no gabinete do senhor representante da República a apresentar nomes e o sentido da orgânica do governo", afirmou ontem, à margem de um briefing diário sobre a crise sismo vulcânica em São Jorge, no concelho de Velas.

Segundo o social-democrata, assim serão cumpridos "os trâmites que correspondem a um percurso de lealdade institucional de fazer primeiro o que é primeiro, dizendo primeiro a quem de direito [o Representante da República]". Depois, acrescentou, "será pública toda essa alteração governativa".

"Qualquer alteração no modelo governativo é do presidente do governo, mas obviamente que considero tudo e todos para fazer o bem, num compromisso de estabilidade."

A notícia de que Bolieiro iria avançar com uma remodelação governamental foi avançada ontem pelo Açoriano Oriental. Depois, o presidente do governo regional confirmou-a, fazendo já os elogios de despedida: "A todos os que prestaram serviço público democrático e autonómico só tenho reconhecimento e gratidão a deixar, com cortesia pessoal e também com forte sentido de justiça."

Questionado sobre se a decisão foi motivada pela decisão do Chega, que anunciou o fim do apoio ao executivo açoriano, Bolieiro afirmou que o poder de promover alterações no elenco governativo é "exclusivo do presidente", o qual não é "cego, surdo e mudo": "Qualquer alteração no modelo governativo é do presidente do governo, mas obviamente que considero tudo e todos para fazer o bem, num compromisso de estabilidade." Bolieiro acrescentou, então, a tal referência aos "instáveis e precipitados" e concluiu: "Procuro cumprir esta lição de vida. Já estamos há muitos anos na política."

O líder do PSD Açores - partido que ficou em segundo lugar nas eleições legislativas regionais de outubro de 2020, com 21 deputados eleitos, atrás do PS (25) - chefia o Governo Regional assente numa "geringonça" de direita formada com o apoio do CDS (3 eleitos), PPM (dois), Chega (2) e Iniciativa Liberal (um). Uma maioria portanto de 29 deputados, num total de 57 deputados regionais.

Já há muitos meses que um dos deputados do Chega, Carlos Furtado, tinha rompido com o seu partido e passado a deputado independente, fazendo assim perigar a maioria de direita.

"Quando nos sentimos enganados, temos de dizer ao nosso parceiro que fomos enganados e que não podemos confiar neles. Obviamente que, em novembro, temos um Orçamento e está aqui a garantia do deputado do Chega José Pacheco: o orçamento está chumbado."

No passado dia 6, o deputado do Chega que restou, José Pacheco, disse que "acabou" o seu apoio ao governo de Bolieiro, pretendendo votar contra o Orçamento que o Executivo terá de levar ao parlamento regional no final do ano: "Não tenho problema nenhum, enquanto representante do Chega nos Açores, de assumir essa despesa e esse risco, mas fica o Governo Regional a saber que, com o Chega, acabou."

O deputado disse ainda que não pode "confiar em pessoas que mentem todos os dias", acusando o executivo regional de "empurrar com a barriga os problemas da região" e de estar envolvido em "trapalhadas" no processo das Agendas Mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência. "Quando nos sentimos enganados, temos de dizer ao nosso parceiro que fomos enganados e que não podemos confiar neles. Obviamente que, em novembro, temos um Orçamento e está aqui a garantia do deputado do Chega José Pacheco: o orçamento está chumbado." O Chega fazia três reivindicações: mais viaturas para os bombeiros; um plano de incentivos à natalidade; e uma remodelação no governo regional açoriano - algo que Bolieiro vai agora fazer.

Logo a seguir à rutura do Chega, o deputado único da Iniciativa Liberal, Nuno Barata, falou em "indicadores graves" de incumprimento no acordo de incidência parlamentar que assinou com o PSD açoriano. "Há condições para este governo continuar, enquanto cumprir os acordos. O Governo está longe de cumprir. Temos deixado vários alertas, várias sugestões. Temos feito em sede própria aquilo que entendemos fazer", frisou o deputado regional.

A discussão do Orçamento regional apresenta-se agora como o momento chave para perceber a viabilidade, ou não, da "geringonça" de direita criada nos Açores em 2020.

joao.p.henriques@dn.pt

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