A destruição provocada pela tempestade Kristin, que fez cinco mortes e levou o Governo a decretar Estado de Calamidade em 60 concelhos, pelo menos até domingo, condicionou a campanha para a segunda volta das eleições presidenciais, que se realiza dentro de dez dias. E não só alterou a agenda dos dois candidatos como deixou claras as diferenças de estratégia entre André Ventura e António José Seguro.Residente nas Caldas da Rainha, Seguro, o candidato presidencial mais votado na primeira volta, e claro favorito nas sondagens, deslocara-se a Leiria na véspera, sem câmaras por perto, para aferir o grau de destruição na cidade. E decidiu cancelar a ação de campanha que tinha programada para a noite desta quinta-feira, no Cine-Teatro de Almeirim, levando em conta o Plano Distrital de Emergência e Proteção Civil para o Distrito de Santarém e o Plano Especial de Emergência de Cheias na Bacia do Tejo. Pelo contrário, André Ventura começou o dia em Cantanhede, visitando uma empresa agroalimentar, mas reservou a tarde para uma ação nas ruas de Leiria. A sua campanha teve o cuidado de marcar um ponto de encontro junto ao Teatro José Lúcio da Silva, perto do (danificado) terminal rodoviário, perante “a probabilidade de não haver comunicações” na cidade, tal como no resto desse distrito e nos de Coimbra e Santarém. Ao percorrer as ruas de Leiria, Ventura justificou a sua presença por considerar que os políticos não podem “virar a cara quando as coisas acontecem”, colocando na mira um dos poucos que, da esquerda à direita, não apelaram ao voto no seu adversário na segunda volta das eleições presidenciais. “Não devemos estar sempre a falhar, crise após crise, a dizer que está tudo bem. Não está. O país falhou outra vez a estas pessoas e não devemos amenizar isso”, defendeu o líder do Chega, como se tivesse Luís Montenegro a disputar-lhe eleitores no boletim de voto que decide quem substituirá Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém.Ventura teve tempo para criticar falhas na prevenção, considerando “incompreensível” que faltem geradores para repor a energia elétrica que nas últimas horas faltou a muitos milhares de pessoas. E também partilhou a sua estupefação pela recorrência do problema que consiste em “termos um SIRESP que não funciona”. Só que nada disso, ou as suas menções a “políticos desaparecidos em gabinetes”, visava quem é o seu adversário nestas eleições presidenciais.Antes disso, ao chegar a Cantanhede, Ventura defendera que o Governo deveria ter decretado mais cedo o Estado de Calamidade, facilitando o acesso de empresas e pessoas a apoios. E distribuiu críticas entre o Governo da AD e o Presidente da República por “um certo desaparecimento”, apesar de Luís Montenegro ter acabado por se deslocar ao terreno, o que lhe mereceu críticas veladas de Marcelo Rebelo de Sousa.Foi numa ação de campanha em Almada que António José Seguro revelou ter ido a Leiria, realçando que se empenhou em não interferir com as intervenções da Proteção Civil. Apesar de também se ter considerado “impressionado com o grau de destruição”, evitou críticas às falhas no SIRESP e optou pelo apelo à solidariedade nacional para com os habitantes dos concelhos mais afetados pela tempestade Kristin e ao Governo, instando à maior celeridade possível no auxílio às autarquias.“Essenciais são os trabalhos que estão a ser feitos para que não haja mais consequências e para que as pessoas possam voltar a ter uma vida tranquila, possam voltar a ter luz em casa, a ter água, comunicações e poder circular livremente”, disse o candidato apoiado pelo PS..Votar "faça sol ou faça chuva".Num dia em que reforçou ainda mais a abrangência de apoios, começado com um artigo de opinião de Rui Rio, ex-presidente do PSD e mandatário nacional da candidatura independente de Gouveia e Melo, e que incluiu o pronunciamento no mesmo sentido de Ramalho Eanes, António José Seguro apelou aos eleitores para que vão votar na segunda volta, “faça sol ou faça chuva”.O receio de que a grande vantagem nas sondagens - com valores na casa dos 70%, contra 30% de intenções de voto no rival - resulte na desmobilização dos eleitores, e ainda mais naqueles que não optaram por si na primeira volta, tem levado Seguro a repetir a importância da participação nas eleições presidenciais, repetindo que não será indiferente a percentagem e o número de votos que irá obter.Com previsões de mau tempo para os próximos dias - o que já levou à alteração do local de voto antecipado no município de Torres Vedras -, e a possibilidade de o mesmo vir a acontecer a 8 de fevereiro, Seguro repetiu apelos, em Almada e em Palmela, onde esteve na manhã desta quinta-feira, para que não fique em casa quem pode contribuir para a “vitória da moderação”, que considera essencial para fazer de “Portugal um país de prosperidade, moderno e justo”.Também ficou claro que o socialista poderá regressar às zonas mais devastadas pela tempestade Kristin durante a campanha eleitoral, embora não de imediato. A agenda de campanha para esta sexta-feira inclui uma visita ao Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado, em São João da Madeira, uma deslocação às instalações de um grupo empresarial de Oliveira de Azeméis, e um jantar em Viseu, que nas autárquicas de 2025 elegeu pela primeira vez um socialista (João Azevedo) para a presidência da Câmara.Por seu lado, André Ventura rumará mais a Norte, com uma arruada matinal em Espinho, seguida de outra, depois de almoço, na Póvoa de Varzim. Já nas redes sociais, o líder do Chega partilhou um vídeo da sua delocação, por entre árvores, telhados e outras estruturas caídas nas ruas de Leiria. “Para mim, a política só faz sentido se for ao lado das populações e quando elas mais precisam. Serei sempre criticado, mas prefiro estar lá do que ficar quieto num gabinete. Temos de ser rápidos na ajuda a quem está a passar mal com esta devastação”, diz quem repete que “as pessoas comuns ficam sempre para trás”..Presidenciais. Da revisão constitucional ao Parlamento, o que mudou na mensagem?.Presidenciais: Montenegro reitera que não vai apoiar nenhum candidato porque está focado em governar