Empenhado no duplo papel de primeiro-ministro e titular transitório do Ministério da Administração Interna, Luís Montenegro trocou o debate quinzenal que devia ter ocorrido na Assembleia da República por Coimbra, onde assumiu a coordenação da resposta aos efeitos do mau tempo. Mas sem esquecer o foco de encontrar substituto para Maria Lúcia Amaral, que se demitiu na noite de terça-feira, alegando não ter “condições pessoais e políticas” para exercer funções.Ao que o DN apurou, o primeiro-ministro estará à espera da resposta a um convite, embora seja incerto que, mesmo que a figura escolhida aceite o desafio, a tomada de posse seja imediata, dependendo do desagravamento das condições meteorológicas e do fim da crise em curso. Nesta quarta-feira, Montenegro reconduziu os secretários de Estado Paulo Simões Ribeiro (Adjunto), Telmo Correia (Administração Interna) e Rui Rocha (Proteção Civil), indiciando que as funções que assumiu transitoriamente poderão prolongar-se. Embora dificilmente possam manter-se até à posse do Presidente da República eleito, António José Seguro, marcada para o ainda distante 9 de março.Fontes contactadas pelo DN apontam para que o primeiro-ministro tenha em mente um perfil de titular do Ministério da Administração Interna bastante diferente das suas primeiras opções, havendo quem se refira a Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral como “escolhas obviamente equivocadas”, tendo em conta a falta de experiência executiva ao assumirem um cargo que “exige atenção quotidiana e capacidade de iniciativa”.Entre as soluções internas destacam-se figuras com peso político, como o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, até há pouco vice-presidente do PSD, e o líder parlamentar social-democrata, Hugo Soares, também secretário-geral do partido. Embora o primeiro possa ter ficado prejudicado pelas críticas a um vídeo que partilhou nas redes sociais - e que prontamente retirou -, procurando retratar a resposta aos efeitos do mau tempo que provocou 16 mortes, e o segundo faça muita falta ao Governo numa Assembleia da República em que a AD não dispõe de apoio maioritário, mesmo algum défice de experiência em questões de criminalidade, segurança e proteção civil poderia ser compensado pela “energia e capacidade de adaptação”, bem como a facilidade de “coordenar atividade interministerial” de qualquer um desses próximos de Luís Montenegro. E mesmo a idade (Leitão Amaro tem 45 anos e Hugo Soares, 42) não é necessariamente impeditiva, pois não faltam antecedentes de titulares da pasta sub-50, incluindo o próprio António Costa, no primeiro Governo de José Sócrates.No mesmo registo de perfil político, conjugado com capacidade de resposta e conhecimento técnico, outra hipótese seria Castro Almeida, um dos elementos mais experientes do núcleo duro do primeiro-ministro. No entanto, isso implicaria encontrar solução para o Ministério da Economia e da Coesão Territorial. E, por outro lado, não é crível que, estando a pasta da Defesa Nacional entregue ao líder do CDS-PP, Nuno Melo, a Administração Interna fosse entregue ao atual secretário de Estado centrista Telmo Correia.Após uma opção por “ministras discretas”, outro caminho é procurar uma “pessoa de fora” do PSD, mas que tenha experiência executiva nas áreas tuteladas pelo Ministério da Administração Interna, permitindo que facilmente consiga ganhar apoio junto das diferentes forças e serviços de segurança. E que tenha apetência por estar no terreno, dirigindo politicamente a resposta do Governo a situações adversas, o que se torna essencial numa pasta que implica lidar com as forças da Natureza. Sem falar na boa capacidade de comunicação, nos antípodas dos encontros imediatos de Maria Lúcia Amaral com jornalistas, ao longo das últimas semanas.Para a manhã desta quinta-feira está marcado o Conselho de Ministros, na residência oficial do primeiro-ministro, enquanto o debate quinzenal na Assembleia da República foi reagendado para as 10h00 de sexta-feira, com a Iniciativa Liberal a defender que fosse adiado para a próxima semana.Administração Interna tem sido triturador de ministrosQuem vier a aceitar o convite de Luís Montenegro para assumir o Ministério da Administração Interna será o 16.º titular da pasta desde o início do século - incluindo nessas contas o primeiro-ministro, que substituiu transitoriamente Maria Lúcia Amaral -, o que irá desfazer o empate com o Ministério da Economia em número de responsáveis nesse período de tempo.Para a aura de “pasta maldita” contribuem situações tão dramáticas como as que levaram à saída de Constança Urbano de Sousa, a primeira escolha de António Costa para a Administração Interna. Os incêndios florestais de 2017, com a tragédia de Pedrógão Grande, levaram a que pedisse para sair do Governo no verão, sendo convencida pelo primeiro-ministro a continuar. Mas quando uma nova vaga de fogos, em outubro, elevou o número de vítimas mortais para 116, e motivou críticas arrasadoras de Marcelo Rebelo de Sousa, a ministra alegou a preservação da sua “dignidade pessoal” na carta de demissão que foi aceite.Nos governos de António Costa, que fora ministro da Administração Interna de José Sócrates - deixou o cargo para se candidatar à Câmara de Lisboa -, houve nada menos do que quatro titulares da pasta. Constança Urbano de Sousa foi substituída pelo secretário de Estado Eduardo Cabrita, um dos recordistas de longevidade nessas funções no século XXI - tal como Rui Pereira, ficou quatro anos. Sairia, em 2021, com o balanço positivo do “menor número de incêndios desta década”, mas sem resistir a polémicas que incluíram a morte de um ucraniano sob custódia do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, no aeroporto de Lisboa, e o atropelamento mortal de um trabalhador, na berma da autoestrada A6, pela viatura oficial em que o ministro era transportado. Antes disso, no Governo de Passos Coelho, o social-democrata Miguel Macedo demitiu-se em 2014, no âmbito de uma investigação a alegados casos de corrupção na atribuição de vistos gold. Seria ilibado, cinco anos mais tarde, de acusações de um crime de tráfico de influência e de três crimes de prevaricação.Apesar disso, na lista dos 15 últimos titulares da Administração Interna, cinco mais do que houve no Ministério da Saúde neste século, embora também seja encarada como uma pasta de alto risco para quem a aceita tutelar - depois de enfrentar a pandemia de covid-19, a atual eurodeputada socialista Marta Temido demitiu-se na sequência da morte de uma grávida que estava a ser levada de uma urgência fechada para outra -, também houve ministros que se fortaleceram politicamente. Assim aconteceu com o atual secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, que assumiu a Administração Interna no último Governo de António Costa, depois de Francisca Van Dunem ter acumulado com a Justiça durante alguns meses, após a saída de Cabrita. .Marcelo diz que decisão de Montenegro de assumir pasta da Administração Interna é “sinal político”.Maria Lúcia Amaral demite-se na véspera do debate quinzenal