A campanha de António José Seguro providenciou duas máquinas de café em constante voltagem, com sabores distintos até, para alimentar uma noite que poderia ser longa. Monótona, quem sabe. O seguro não morre de velho, diz o ditado popular, mas este Seguro, o Presidente da República eleito, entrou para a história das noites eleitorais presidenciais pela rapidez. A confiança existia há três semanas, no entanto a festa estava, efetivamente, arquitetada para a segunda volta. Às 20.00, no momento de se libertarem as projeções, estavam mil pessoas no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha à frente dos ecrãs, cinco vezes mais do que no dia 18 de janeiro. Outras 500 procuraram lugar no auditório, abarrotado desde a hora de jantar, para esperar, calmamente, pelo novo Presidente da República.A Juventude Socialista teve uma centena de jovens apartidários ou de outros quadrantes políticos, desde o Livre ao CDS-PP, a entoarem cânticos, prezando a “integridade” e a “ética” de Seguro. Foram a voz para lançar a euforia nas Caldas da Rainha, permitindo o desanuviar dos apoiantes. Seguro tinha a garantia da vitória e, a partir daí, entre lágrimas e gritos de festa, as federações do PS do Porto e outras vindas do Alentejo ou da Beira Baixa, entoavam palavras de incentivo ao homem que teve a maior vitória eleitoral da sua vida política, depois de mais de uma década afastado da vida pública.“Quero agradecer aos portugueses. É um povo espetacular”, atirou, emocionado, guardando palavras para o discurso de vitória. Mas foi claro e teve uma mensagem política interna. “Não é um ajuste de contas”, expressou o antigo líder socialista que, pouco depois das 20.20, se dirigiu para a sede de campanha, um caminho à chuva feito ainda com a rouquidão que o tem caraterizado.Recusou qualquer problema com o PS e ouviu, ao longe, o secretário-geral José Luís Carneiro, de quem é próximo ideologicamente e que lhe prestou apoio desde 18 de outubro, dizer acreditar que Seguro exercerá a sua função de forma equidistante. “A vitória vai da esquerda do PS, ao centro e à direita democrática. É a vitória de quem aspira a mais. É dos trabalhadores e dos empresários. Será o Presidente de todos e para todos, como foram Mário Soares e Jorge Sampaio”, equiparou Carneiro, relembrando os anteriores Presidentes vindos do PS. Às 22.00 horas, perante os jornalistas, Carneiro lembrou “a alegria dos socialistas” por recuperar a Presidência “25 anos depois” [foram 20 sem estar em Belém]. Antes de ir dar um abraço que disse ter sido “combinado” com Seguro, tal como a ausência três semanas antes na primeira volta, recusou que a vitória seja um balão de oxigénio para o PS e garantiu que Seguro vai ser “independente”. Mas não deixou de dizer que “o PS espera que o Governo compreenda esta mensagem de estabilidade e que tenha em consideração que dois terços dos portugueses mostraram-se a favor dos valores constitucionais.”Por toda esta galvanização, quando Seguro chegou às Caldas da Rainha a recuperação do PS foi tema de conversa. Os cérebros da sua campanha, da gestão política, alguns do tempo de Seguro como secretário-geral, celebravam a volta que a vida dá e gritavam o alento por superarem “20 anos de porrada em presidenciais.” No calor da festa tudo se perdoa. Foram anos de escolhas que não reuniam consenso interno - até Seguro o viveu - e a vitória do socialista tem uma importância extrema no partido, mesmo que o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa - que o recebe em Belém esta segunda-feira às 16.00 horas- prometa “viver sem amarras.”Luís Montenegro parabenizou-o, Marcelo também e António Costa, presidente do Conselho Europeu e antigo rival de Seguro no PS, enviou uma nota oficial, considerando que “os portugueses reafirmaram-se um pilar do humanismo europeu”. Até isso saiu da sombra de Seguro na sua maior aclamação política. .Carneiro nem viu discurso no localJosé Luís Carneiro esteve 45 minutos nas Caldas da Rainha. O secretário-geral do PS cumprimentou e conversou com António José Seguro numa zona recatada do Centro Cultural de Congressos das Caldas da Rainha. A assessoria do agora Presidente da República descarta que tenha sido uma reunião ou um encontro para agendar matérias, mas sim uma saudação, uma parabenização política. José Luís Carneiro não assistiu ao discurso de Seguro, preferiu que não fosse o centro da aclamação e Seguro entrou no auditório com a sua equipa de campanha. O secretário-geral do PS, nessa altura, já não estava presente. Demorou-se 45 minutos no local. Diga-se que de socialistas, houve uma grande militância por parte das federações, desde Alentejo, Beira Baixa e Porto, além de vários autarcas como Ricardo Marques ou Ricardo Leão. Ana Mendes Godinho, vereadora em Sintra, que diz estar desde o início com Seguro, e Miguel Prata Roque, outro que se perfila a uma possível liderança, também marcaram presença..O moderado voltou a subir palanquesFoi público que Seguro teve um passado a colocar música e que subia a colunas em discotecas. Pois bem, no momento da celebração, ao entrar no auditório, o moderado, defensor da estabilidade governativa como disse, soltou amarras e saltou palanques, sem precisar de grande ajuda dos que ao seu lado estavam.Dedicou palavras de gratidão à família e aos portugueses. "Falo-vos com o coração cheio de gratidão e responsabilidade. Lembro-me de onde vim, o menino de uma família simples no Interior, que aprendeu o valor da honestidade e palavra dada. Lembro-me que a política pode ser serviço e mudar vidas. Que as pessoas merecem sempre mais. Continuo a pensar igual, sou um de vós. Sou o presidente de todos, dos que votaram em mim, dos que optaram por não votar ou por votarem noutro candidato. À Margarida, aos meus filhos Maria e António, como é bom sentir o vosso abraço. Obrigado por estarem juntos e caminharem a meu lado", disse, visivelmente emocionado. Parou depois para recuperar o fôlego.No início dirigiu-se às vítimas dos temporais. "A primeira palavra é de pesar para as 15 vidas que se perderam, quero expressar a solidariedade total para quem ficou sem casa ou sem empresa, para quem não consegue ainda fazer uma vida normal. Para as empresas que não conseguem pagar salários", destacou."Saúdo os portugueses que deram voz aos valores que acreditamos. Os vencedores da noite são os portugueses e a democracia. Os portugueses por terem, em condições muito adversas, terem superado mais um desafio. A afirmação de um Portugal unido na sua identidade coletiva. Esta vitória de Portugal e da democracia resulta de quem organizou o processo eleitoral, nomeadamente de quem organizou assembleias de voto no nosso país. Mas também a todos que deram contributo para irem votar. Aos autarcas, militares, aos funcionários da ação social, o meu agradecimento", continuou.E agora conta com todos os portugueses, inclusivamente quem votou no Chega: "Uma palavra para o meu adversário. Todos os que concorreram comigo merecem o meu respeito. A partir desta noite deixámos de ser adversários. Temos o dever de partilhar a luta por um Portugal mais desenvolvido e mais justo. A maioria que me elegeu extingue-se esta noite." .António José Seguro é o Presidente da República com maior número de votos de sempre.Luís Montenegro saúda António José Seguro e apela à estabilidade.Presidenciais. José Luís Carneiro garante que Seguro terá "toda a mobilização do Partido Socialista".António Costa felicita Seguro e deseja-lhe "os maiores sucessos"