Ventura imita Trump e também quer censurar Twitter

Presidente demissionário do Chega diz querer acabar com a "bandalheira" nesta rede social.

André Ventura usou hoje a rede social Twitter para afirmar que, se um dia chegar ao poder, o "Twitter deixará de ser a bandalheira que é, pelo menos em Portugal". Ventura cola-se, assim, a Donald Trump, que abriu uma guerra com o Twitter depois de a rede social ter colocado dois factcheks em tweets do presidente norte-americano, desmentindo as afirmações de Trump.

Mas este não é o único ponto em que o deputado faz eco das posições do líder dos Estados Unidos. "Se o CHEGA vencer as eleições, ofender polícias, magistrados ou guardas prisionais vai dar mesmo prisão", escreve Ventura que, recorde-se, é deputado único, eleito com cerca de 67 mil votos.

Declarações feitas numa altura em que os EUA vivem um crescendo de protestos contra a violência policial que provocou a morte do afro-americano George Floyd, que se prolongaram pelos últimos quatro dias, em 140 cidades dos EUA. Trump já ameaçou pôr o exército norte-americano nas ruas contra os manifestantes.

Para o politólogo Adelino Maltez, esta "colagem" de Ventura a Trump não só não é motivo de surpresa como tenderá a repetir-se. "Hoje uma cópia de Trump, amanhã uma cópia de Bolsonaro: Ventura é um populista que corre pela margem, vai todos os dias dizer coisas polémicas, que ultrapassem os limites", sublinha este investigador em ciência política, apontando dois fatores que tenderão a exacerbar esta atitude - o entusiasmo com as sondagens e o facto de ter perdido o palco televisivo que tinha na CMTV, o que o deixa "reduzido a soundbytes".

"Isto é típico de uma estratégia que a democracia portuguesa não conhecia", diz Maltez, lembrando que em Portugal todos os partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda e ao PAN estão inseridos e respeitam as regras do sistema democrático. Ventura "é um caso de marginalidade política" que veio ocupar um "terreno que estava vazio". E nem precisa de inventar nada: "Não tem muito que inventar, é só fazer a tradução dos companheiros de estrada, noutros países, e adaptar [o discurso] à realidade portuguesa. E irá fazê-lo constantemente". Mas também é uma estratégia com riscos - "Isto não é uma corridinha, é uma maratona".

Mas, para este politólogo há um dado que é certo: este espaço "antisistema" já "não ficará órfão": se não for Ventura, haverá outros a ocupá-lo. Tal como tem acontecido por toda a Europa: "Porque é que Portugal estaria imune?".

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