Costa apertado à esquerda e à direita. Catarina e Cristas ao ataque

Cinco contra um - mas na verdade duas contra um: Catarina Martins e Assunção Cristas a apertarem António Costa. Síntese do último debate entre os líderes dos partidos parlamentares.

Três líderes muito presentes e outros três algo ausentes. Os presentes: António Costa (PS), Catarina Martins (BE) e Assunção Cristas (CDS); os algo ausentes: Rui Rio (PSD), Jerónimo de Sousa (PCP) e André Martins (PAN).

Assim se pode resumir a história do último debate televisivo destas legislativas entre os principais responsáveis dos seis partidos com assento parlamentar. Decorreu na RTP-1, com moderação da jornalista Maria Flor Pedroso (diretora de informação da televisão pública) e cenário montado na Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa.

Catarina Martins e Assunção Cristas iam preparadas - mas o líder do PS também, respondendo taco a taco aos ataques das líderes do Bloco e do CDS.

A coordenadora bloquista criticou a Costa o facto de este ter dito recentemente que o BE só aderiu à 'geringonça' arrastado pelos acontecimentos, depois de o PCP avançar. É uma "reescrita da história", disse Catarina Martins, considerando ainda que o líder do PS esteve à beira do "insulto pessoal" quando classificou como meramente "teatral" o desafio que, num debate antes das legislativas de 2015, lhe fez para entendimentos futuros.

"Não se queimam pontes quando se querem construir pontes", avisou, já a olhar para o pós eleições - e não sem pelo meio ter recordado que, em 2015, o BE e o PS conversaram ao mais alto nível ainda antes de se saberem os resultados das eleições (na manhã do domingo eleitoral).

Costa respondeu dizendo que ele não revela "conversas privadas". Argumentou, por outro lado, que quem quer "reescrever a história" é o BE quando diz que "a história da legislatura foi a história da luta do BE com o PS". "A leitura das pessoas que encontro na rua é que gostam da geringonça. O que não acreditam é que esta legislatura foi de luta entre o PS, o BE e o PCP." Também garantiu que ele próprio não vê os partidos parceiros da geringonça como "empecilhos" (expressão recente de um deputado do PS), algo que depois Catarina Martins saudaria positivamente.

Catarina Martins tinha reservado os seus ataques para o fim do debate - mas o mesmo já não o fez Assunção Cristas.

A líder centrista atacou o líder socialista do princípio ao fim, insinuando inclusivamente que o INE - que ontem divulgou números económicos positivos para o Governo (no défice e no desemprego) - está ao serviço do Executivo. "Na prática o Governo adiou um país", "se o emprego diminuiu isso também se deveu à reforma laboral feita no Governo anterior", "tivemos em 2018 um novo recorde na carga fiscal, Centeno continua a bater recordes a Centeno, esse recorde ninguém vos tira: carga fiscal máxima", "António Costa diz que só o IRS importa às pessoas e isso mostra bem o desconhecimento profundo que tem do país" - foram só algumas suas frases.

A tirada mais agressiva deixou-a porém para o fim: "Não vejo ninguém questionar António Costa pelo facto de termos cinco membros do Governo constituídos como arguidos. Temos um presidente da Proteção Civil arguido e que diz que só sai se António Costa o demitir e António Costa não faz nada. Isto é uma vergonha nacional."

Costa manteve uma calma relativa - "está-me a apontar o dedinho", disse à líder centrista - e no final entregou-lhe "uma prenda": "A drª Assunção Cristas acusou-me de mentir ao país [mas] tenho aqui a lista das 104 unidades de saúde que foram abertas."

Rui Rio chamaria aos choques de Catarina Martins com o líder do PS como "arrufos de namorados": "Isto é um arrufo, que é normalmente tratado em casa, mas estamos a assistir em público. E não paguei bilhete."

No final, Rui Rio sintetizaria o seu projeto para o país: "Podia dizer que quero melhores serviços públicos, na redução de impostos, rendimentos das pessoas, mas hoje temos uma sociedade tomada por interesses corporativos e fáticos, que têm muita força e lesam o poder público. O meu projeto é ser forte com os fortes e não forte com os fracos."

Jerónimo de Sousa repetiria que a conjuntura que em 2015 levou à formação da 'geringonça' "não é repetível", apelando a que qualquer folga orçamental que exista seja usada "para o investimento nos serviços públicos, sobretudo no SNS"

Pelo lado do líder do PCP mas também pelo da líder do BE ficou claro que as diferenças com Costa face ao novo Código do Trabalho são dificilmente sanáveis (e essas diferenças centram-se sobretudo - mas não só - na questão do período experimental de trabalho).

André Silva, do PAN, evitou meter-se em querelas centrando todas as suas intervenções na divulgação de propostas eleitorais do seu partido - por exemplo quanto aos sem abrigo ou no combate à corrupção.

As principais frases do debate

António Costa

"O PS tem o seu programa para a qualificação das pessoas."

"A dra Assunção Cristas acusou-me de mentir ao país, tenho aqui das 104 unidades de saúde que foram abertas."

Rui Rio

""O meu projeto é ser forte com os fortes e não forte com os fracos."

"Podia dizer que quero melhores serviços públicos, na redução de impostos, rendimentos das pessoas, mas hoje temos uma sociedade tomada por interesses corporativos e fáticos, que têm muita força e lesam o poder público."

Assunção Cristas

"Nunca tive uma herdade, não tenho fortuna e se tivesse estaria em Angola, onde a minha família deixou tudo e não foi devidamente indemnizada."

"A nossa ideia central tem a ver com libertar as famílias e as empresas da maior carga fiscal de sempre."

"Quem não se revê neste arranjo da esquerda tem um voto seguro e certo no CDS."

"Isto é uma vergonha nacional." (António Costa: "Está-me a estender o dedinho." Assunção Cristas: "Estico o dedinho, sim.")

"Não vejo ninguém questionar António Costa pelo facto de termos cinco membros do Governo constituídos como arguidos."

"Temos um presidente da Proteção Civil arguido e que diz que só sai se António Costa o demitir e António Costa não faz nada."

André Silva

"Propomos tribunais especializados de combate à corrupção, que ajudaria a combater a judicialização da política."

"Uma das prioridades é o combate à corrupção. Não se falou que a corrupção tem impactos de 19 mil milhões de euros na economia."

"Temos que aumentar meios da PJ e do Ministério Público. 94% dos processos não chegam ao fim."

Catarina Martins

"Ainda bem que António Costa já admite que não há empecilhos [na esquerda]."

Assunção Cristas

"Temos de estar o mais possível preparados para qualquer situação de crise internacional. E isso faz-se pelo robustecimento da economia."

Rui Rio

"É natural que a economia tenha de se adaptar aos padrões de consumi, a economia pode crescer um pouco menos."

"Se as economias de fora puxarem menos pela portuguesa, teremos de fazer este ajustamento."

"Não é matéria para divergência, lá porque os outros defendem uma coisa, não tenho de defender outra, esta é convergência."

"Mas depois lá teremos a geringonça..." (Jerónimo: "Não faça profecias, que se pode enganar." Rui Rio: "Como as sondagens, aí estamos de acordo.")

"Isto é um arrufo, que é normalmente tratado em casa, mas estamos a assistir em público. E não paguei bilhete."

António Costa

"A leitura das pessoas que encontro na rua é que gostam da geringonça. O que não acreditam é que esta legislatura foi de luta entre o PS, o BE e o PCP."

Catarina Martins

"Nas conversas francas ganhamos sempre com elas."

"Acho estranho que o PS não sinta que a história da legislatura foi a história da tensão [dentro da esquerda]."

António Costa

"Não!" [resposta à pergunta sobre se o PCP e o BE não são empecilhos].

Jerónimo de Sousa

"A solução encontrada [em 2015] resultou de uma conjuntura concreta, de uma nova arrumação de forças."

"Essa conjuntura não é repetível."

"Dissemos [no pós eleições de 2015] que o PS só não formaria governo se não quisesse."

"Sentimo-nos profundamente satisfeitos com alguns avanços que foram feitos."

António Costa

""Quem quer um governo do PS, vote no PS, quem não quer um governo do PS, vota do PAN ao CDS... BE, PCP, PSD."

"Seguramente não pede a ninguém que não vote no Bloco."

"A estabilidade que conseguimos não foi só a estabilidade política, foi a estabilidade dos pensionistas..."

"Foi com toda a convicção [que trabalhei] para que esta situação existisse, foi boa para o país."

"Há uma coisa que tenho muito clara: quando me candidatei à liderança do PS em 2014, defendi que era preciso pôr termo a essa coisa bizarra do arco da governação."

"Reescrever a história? O que é público é que quis colocar o PS como adversário."

Catarina Martins

"Há uma espécie de reescrita da história [sobre o papel do BE na criação da geringonça em 2015]."

"Num debate com António Costa em 2015 desafiei-o para um entendimento. Registo que chamou a esse desafio um gesto teatral, o que está perto do insulto pessoal."

"Não se queimam pontes quando se querem construir pontes."

André Silva

"A maior parte dos partidos quer aumentar carga aeroportuária, o PSD quer mais cruzeiros, com base em quê? Temos de conhecer os números."

"No setor da pecuária intensiva, temos que fazer a redução de efetivos."

"Permitir o autoconsumo, a autoprodução, cada rua, cada comunidade possa produzir a sua energia."

"A reconversão das centrais de carvão na energia fotovoltaica."

"Temos de rejeitar blocos económicos que não tenham padrões ambientais e também de direitos fundamentais humanos. O papel da UE é fundamental para este combate às alterações climáticas."

António Costa

"A senhora [Assunção Cristas] às segundas, terças e quarta é a favor do combate às alterações climáticas. Nos outros dias é pela diminuição dos impostos dos combustíveis."

Assunção Cristas

"António Costa diz que só o IRS importa às pessoas. Isto mostra bem o desconhecimento profundo do país que tem António Costa."

"[Costa] incumpriu quando prometeu a neutralidade fiscal [nos impostos dos combustíveis]."

António Costa

"Não consta do nosso programa e desapareceu."

"O que Rui Rio propõe [na despesa pública e na fiscalidade] é uma sucessão de milagres."

Rui Rio

"O PS vai repor o imposto sucessório?"

"Em termos reais, a economia portuguesa foi a segunda pior dos países da coesão."

"Não há folga nenhuma. O INE veio dizer que cresceu em 2017, foi melhor do que eles pensavam, foi 0,8 o que a economia cresceu."

"A continha está certa, mas foi a máquina de calcular a fazer."

"Há um crescimento de todos estes impostos que estão aqui [e mostra gráfico]."

"O crescimento da carga fiscal se deve à receita da TSU [taxa social única] e dos impostos é parcialmente verdade."

"O Brasil pode ser muito interessante, mas convém pousar a bola no chão."

André Silva

"Com dois milhões de euros conseguimos dar casa a 350 pessoas em Lisboa."

António Costa

"Temos de subir não só o salário mínimo como o salário médio."

Jerónimo de Sousa

"11% dos pobres, muito pobres, trabalham empobrecendo."

"É preciso erradicar a pobreza. Como? É importante a valorização dos salários para que os trabalhadores conheçam a possibilidade de uma vida melhor."

"Em períodos eleitorais há sempre a promessa de baixar os impostos a quem trabalha, e depois das eleições..."

"Estamos aqui a falar da carga fiscal, mas temos é um problema de injustiça fiscal. Quem menos recebe deve ser aliviado, quem muito tem e muito pode deve pagar mais."

"Os salários de hoje são as reformas de amanhã, por isso a potenciação dos salários são a potenciação das reformas.

"Para o próprio desenvolvimento económico é fundamental esse aumento dos salários."

António Costa

"Só há duas pessoas que pedem diminuição de impostos sobre combustíveis fósseis: Assunção Cristas e Donald Trump."

"A subida da carga fiscal tem a ver com o aumento das contribuições para a Segurança Social."

"Os dados do INE demonstram que o peso do IRS baixou de 7,3% para 6,5%."

Assunção Cristas

"Registo que hoje saíram dados do INE oportunamente para o Governo."

"Tivemos em 2018 um novo recorde na carga fiscal. Centeno continua a bater recordes a Centeno. Esse recorde ninguém nos tira: carga fiscal máxima."

"Nenhum deles (Centeno e Costa) cumpriu a promessa de alívio fiscal às famílias."

"A economia poderia ter melhorado muito mais."

Catarina Martins

"A economia está a crescer muito mais que os salários o que quer dizer que a riqueza não está a ser distribuída."

"Esta folga deve ser usada para mais investimento e para chamar a atenção para a necessidade de alterar a legislação."

"A falta de investimento é um dos problemas."

"Entre o que aprovámos no Orçamento do Estado e o que Centeno assume que vai executar [no investimento] há um buraco de 1500 milhões de euros que Centeno assume que não vai investir."

"Não estamos a usar a capacidade que a nossa economia tem para investir onde é preciso, como no SNS. Como na escola pública, como nos transportes públicos."

"Agora o seu único argumento sobre a carga fiscal, fica mais difícil:há mais gente a trabalhar, há mais gente a descontar."

"A direita não se propõe acabar com manuais escolares gratuitas, as 35 horas semanais ou os passes sociais dos transportes."

André Silva

"Portugal é o segundo maior país em termos de tráfico de seres humanos para efeitos laborais."

"Não pode valer tudo para que haja crescimento económico."

"O olival intensivo continua a expandir-se."

"As estufas na costa vicentina continuam a alastrar-se sem regras."

"O crescimento económico tem-se feito à custa dos mais elementares direitos humanos."

Jerónimo de Sousa

Código Laboral: "Quem legisla é a Assembleia da República não é a concertação social"

"Não me venham com essa coisa estapafúrdia que é dizer que foi uma lei laboral negativa para os trabalhadores foi quem gerou mais emprego."

"Qualquer folga orçamental que exista deve ser usada para o investimento nos serviços públicos, sobretudo no SNS."

Rui Rio

"O que o INE diz hoje é que os portugueses estão a pagar mais impostos"

"O ratio da dívida pública vai-se degradar, de 2018 para 2019, de 118% para 119% do PIB."

"Temos de apostar na produção de bens transacionáveis."

António Costa

"Há um ponto em que [BE e PCP] divergem, ainda bem que perguntaram ao Tribunal Constitucional."

"O BE e PCP opõe-se ao período experimental."

"Não nos entendemos [com a] direita, porque PSD e CDS não votaram à direita."

"A base da vossa política desapareceu."

"Esta solução que muito os horrorizou, vinha aí o diabo, pelo contrário não afastou os investidores."

"Sobre a atratividade do investimento, o que o INE vem dizer é que cresceu 33%."

"O crescimento de 2017 foi de 3,5% o que significa é que a carga fiscal foi inferior à de 2014 e 2015."

"Hoje o INE arrasou por completo os pressupostos [da oposição]."

"Tenho pena que não tenha havido esse conforto [no apoio à alteração da legislação laboral]."

Rui Rio

"Para seduzir investidores estrangeiros, é fundamental a legislação laboral."

"Só o período experimental é que agrada à entidade patronal. Mas para a nossa economia crescer, para ter melhores empregos e salários, é preciso que o investimento cresça."

"A alteração [do Código do Trabalho] foi uma viragem à esquerda."

"A alteração de legislação laboral pelo PSD não se faria, como estava, estava bem."

"A legislação laboral é uma pedra fundamental para a competitividade da economia portuguesa."

António Costa

"Até trago uma prenda para si... Há mais 700 mil consultas [no SNS]. E o saldo entre funcionários do SNS que saíram e entraram é de 11 mil pessoas"

Assunção Cristas

"O CDS teve uma postura ao longo destes quatro anos de oposição firme ao PS."

"Se o emprego diminuiu isso também se deveu à reforma laboral feita no Governo anterior."

"Vale a pena perguntar quantos funcionários deixaram o SNS."

Catarina Martins

"Estes quatro anos foram muito importantes na recuperação em algumas áreas: na reposição dos feriados, no aumento do salário mínimo, no aumento das pensões."

"O Bloco de Esquerda acha que não houve empecilhos no caminho que se fez nestas áreas."

"O alargamento do período experimental [no trabalho] é muito errado."

Jerónimo de Sousa

"Temos não apenas diferenças mas divergências de fundo com o PS em relação aos direitos laborais".

António Costa

"Acho que a legislação é instrumento fundamental de combate à precariedade."

"[As alterações climáticas] não são um tema que tenhamos chegado agora. Colocámos no ministério do ambiente os transportes urbanos e depois a energia."

"O que correu bem foi encontrar uma solução estabilidade governativa."

"[O que correu mal?] As tragédias de 17 de junho e 15 de outubro de 2017. (...) Nada pode ultrapassar estas duas tragédias."

Jerónimo de Sousa

"De entre outras coisas [que correram mal], tem significado com a abstenção do PSD e CDS às alterações da legislação laboral, que representou um rude golpe na segurança do emprego e com alargamento do período experimental."

"E a opção da defesa do táxi nacional em detrimento de uma empresa internacional."

André Silva

"O PS esteve disponível e o PAN conseguiu fazer aprovar algumas propostas"

"Pouco se avançou na descarbonização do país."

Catarina Martins

"Estes foram quatro anos em que o BE valoriza o que correu bem"

Rui Rio

"O Governo terá tido coisas positivas, obviamente."

"[O Governo] esteve bem no cumprimento das metas de Bruxelas."

Assunção Cristas

"Durante quatro anos assistimos a um governo que na prática adiou um país."

"Não esteve bem na saúde, que está caótica"

"Tenho muita dificuldade em responder a essa pergunta [onde o Governo esteve bem]".

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