"Os nossos exploradores trabalharam juntos. Magalhães e Pigaffeta permitiram-nos ter boas relações"

O capitão-de-mar-e-guerra Stefano Costantino é o comandante do navio-escola italiano Amerigo Vespucci, em honra do navegador cujo nome foi dado ao Novo Mundo: América.

O Amerigo Vespucci é um veleiro de três mastros que este domingo deixa Lisboa em direção a Dublin e ao Mar Báltico. E tem história: foi construído em 1931 com base no navio-almirante (século XVIII) da frota do Reino das Duas Sicílias. Na paragem em Lisboa nesta viagem de instrução de três meses para 121 cadetes, que começou há duas semanas em Livorno, Itália, o capitão-de-mar-e-guerra Stefano Costantino falou ao DN.

Costantino tem 47 anos, entrou em 1990 para a Academia Naval e especializou-se em artilharia e luta antiaérea. Entre outras funções, foi imediato [segundo comandante] do porta-aviões Cavour e depois comandou o navio de patrulha oceânica Bettica.

Qual é a importância do navegador Américo Vespucci para a Armada italiana?

É muito importante. Américo Vespucci foi um dos mais importantes navegadores italianos na história. Um continente tem o nome dele, América. No passado, a Marinha italiana nomeou os navios-escola [gémeos] como Amerigo Vespucci e Cristoforo Colombo. O Amerigo Vespucci foi lançado em 1931 e os dois navios fizeram a primeira viagem de treino conjunta nesse ano, com o primeiro porto de escala a ser Lisboa. Com estes navios-escola, a Armada italiana tentou desde o início equilibrar diferentes objetivos: o educativo, dando formação a bordo, e desenvolver a diplomacia naval, porque o mar não divide, mas é uma ponte entre culturas - e Portugal sabe, pela sua história, como é importante capitalizar o mar para o comércio e cultura. No início do século passado era um desafio investir em grandes veleiros, pois já se vivia o fim da era da navegação à vela. Mas decidiu-se fazer um navio-escola com velas porque assim consegue criar-se o melhor ambiente para testar os cadetes, para os colocar perante a necessidade de enfrentar o mar da forma mais tradicional e ser mais fácil perceberem o que é ser marinheiro.

Porque é que navegadores italianos se tornaram mais conhecidos pelas viagens ao serviço de Portugal e Espanha?

Nessa altura, Portugal e Espanha lideravam a exploração ao longo dos oceanos e navegadores como Colombo e Vespucci decidiram participar nessas aventuras ao serviço dos dois reinos. Era habitual, dada a necessidade de explorar. O principal objetivo era descobrir, explorar, não importavam as bandeiras. Isso é importante, mas também era importante conseguir...

Há um problema quanto à nacionalidade de Colombo...

Ok, ok [risos]. De qualquer forma, esse foi um dos elementos que nos permitiu estar agora mais próximos. No passado, os nossos exploradores trabalharam juntos, como foi o caso de Magalhães e Pigafetta, durante a primeira volta ao mundo. A história diz que o fim da viagem foi completada com Pigafetta, que foi assistente pessoal de Fernão de Magalhães a bordo.... trabalhando em conjunto no mesmo navio deu a possibilidade de criar boas relações. Não interessavam as bandeiras ou países a que pertenciam, o importante era navegarem juntos.

Cristóvão Colombo foi o nome dado ao veleiro gémeo do Amerigo Vespucci. Ainda estão os dois ao serviço?

Após a II Guerra Mundial, em que fomos derrotados, o navio-escola Colombo foi entregue à União Soviética a título de reparações de guerra e usado para transportar mercadorias. Esse foi o fim do Colombo para nós. Mas, sendo marinheiros, somos muito românticos e, como forma de mantermos o Colombo próximo de nós, temos a pintura desse navio-escola a bordo do Vespucci. Desta forma podemos imaginar que Colombo está connosco.

O Colombo ainda está a navegar na atual Rússia?

Foi destruído, depois de um incêndio a bordo.

O Amerigo Vespucci vai participar nas comemorações dos 500 anos da descoberta do Estreito de Magalhães, em que esteve o italiano Pigaffeta?

Não conheço os detalhes do planeamento da próxima viagem de treino, que é feito em função de vários fatores. Todos os anos regressamos aos estaleiros de La Spezia, a nossa base, para garantir a manutenção do navio, verificar o estado dos mastros e do casco.

Quais são os principais desafios na Armada italiana?

É muito importante investir nos jovens. Esse é o grande desafio de todas as organizações, porque eles são o futuro. Por isso o recrutamento é um assunto estratégico para a Defesa, para a Marinha.

Têm candidatos suficientes?

Sim, mas para mantermos a consistência nessa capacidade de atração é necessário que, depois do recrutamento, a formação seja muito importante, porque a complexidade do mundo aumentou. É importante que os cadetes sejam capazes de enfrentar os problemas quotidianos e consigamos que os programas da sua formação sejam adequados para manter esses níveis de qualidade.

Qual é a importância Armada italiana no Mediterrâneo e no contexto da NATO?

Estamos na NATO desde o início e acreditamos na importância da organização. É importante dialogar com outros países não NATO. Historicamente é um comportamento de todas as Marinhas terem boas relações com todos os países costeiros. O papel importante das Marinhas é alcançar uma rede vasta de relações, de diálogo, para evitar incompreensões entre a organização e outros países.

A Itália, além da Armada, também tem uma Guarda Costeira. Porquê?

A formação inicial dos cadetes é comum, feita na Armada. Mas a Guarda Costeira, em termos de funções, depende do Ministério dos Transportes. Esta dependência da Defesa para a defesa militar e dos Transportes para segurança marítima é um instrumento importante porque, devido a esta relação peculiar entre a Guarda Costeira e a Armada, podemos operar de forma próxima e é fácil colaborar no mar e junto à costa.

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