Marcas do voto emigrante: PAN foi a 3.ª força, nulos e brancos dispararam

O voto na emigração, que elegeu mais dois deputados para o PS e outros dois para o PSD, atirou a abstenção global das legislativas para um novo recorde histórico. Nulos e brancos são anormalmente altos face aos números do território nacional

Os votos nulos e brancos tiveram no voto emigrante um aumento absolutamente desproporcionado face ao crescimento do número de inscritos e de votantes: foram, em números absolutos, onze vezes mais do que em 2015, enquanto o número de recenseados aumentou "apenas" seis vezes mais.

Por via do recenseamento automático de todos os emigrantes registados nos consulados portugueses no estrangeiro, o número total de inscritos passou de 242,8 mil para 1,46 milhões (seis vezes mais eleitores). Todavia, o aumento do números de votos nulos e brancos foi proporcionalmente muito maior ao aumento do número de votantes (passaram de 28,3 mil em 2015 para 158,2 mil agora).

Os 3071 votos nulos de 2015 tiveram nas legislativas de há quatro anos um peso de 10,83% no total de votantes no estrangeiro. Agora, o número absoluto desses votos passou para 35,3 mil (onze vezes mais do que em 2015) e o seu peso relativo no total dos votantes mais do que duplicou, passando para 22,3%.

Com os brancos ocorreu uma progressão parecida, embora os números absolutos sejam bastante mais baixos. O número absoluto destes votos foi agora de 2094, onze vezes mais do que em 2015 (185). O peso relativo dos brancos passou de 0,65% para 1,32% - ou seja, duplicou.

Livre pede inquérito

O DN perguntou ao MAI (ministério da Administração Interna) razões justificativas deste aumento abrupto e desproporcionado dos votos nulos e brancos nos círculos da Emigração, mas não obteve resposta até à hora da publicação desta notícia.

O partido Livre anunciou esta quinta-feira que exige inquérito urgente às eleições legislativas de 6 de outubro nos círculos da Europa e Fora da Europa devido a "inúmeros erros e percalços" no método de sufrágio por correspondência.

"É urgente um inquérito ao desenrolar destas eleições legislativas. Os inúmeros erros e percalços nestas eleições exigem a abertura imediata de um inquérito que identifique todas as falhas ocorridas, o impacto de cada uma delas e a definição de boas práticas para o futuro", lê-se num comunicado do partido citado pela Lusa.

Livre diz que aconteceram "inúmeros erros e percalços" no método de sufrágio por correspondência

Um dos problemas na contagem foi a dualidade de critérios face à obrigação de os eleitores emigrantes colocarem uma cópia do seu cartão do cidadão (CC) no envelope maior onde depois é metido o envelope mais pequeno (e não identificado) que transporta o voto.

A contagem fez-se em Lisboa, quarta-feira, no pavilhão do Casal Vistoso. Umas mesas aceitaram essa ausência e outras não. A CNE já está a analisar uma queixa.

Abstenção: pela 1ª vez acima dos 50%

No território nacional, os nulos e os brancos também têm vindo a aumentar mas esse aumento não se equipara ao ocorrido nos dois círculos da emigração (Europa e Fora da Europa). Além do mais, os votos em branco são muito superiores aos nulos, ao contrário do que acontece no voto no estrangeiro.

De 2015 para 2019, os votos brancos passaram de 112,6 mil (2% dos votantes) para 129,6 mil (2,54%). Quanto aos nulos, essa progressão foi de 86,4 mil votos (1,6%) para 88,5 mil (1,74%).

No voto emigrante a abstenção passou de 88,3% para 89,2%

Outra marca do voto emigrante é uma abstenção esmagadora. Sendo certo que, desta vez, o número de votantes foi muito maior do que em 2015 (passaram de 28,3 mil para 158,2 mil), a verdade também é que, por causa do enorme crescimento do número de inscritos, isso não impediu um aumento percentual da abstenção, de 88,3% para 89,2%.

No território nacional, a abstenção foi de 45,49% (contra 43% em 2015). Globalmente, somados os valores da abstenção no estrangeiro e no território nacional, atingiu-se um máximo histórico: 51,43%. Nunca, em eleições legislativas, a abstenção tinha ultrapassado a fasquia dos 50%.

PAN, a 3ª força

Os dois círculos emigrantes, Europa e Fora da Europa, elegem, cada um, dois deputados. Tradicionalmente, o PSD obtinha três eleitos (um pela Europa e dois pelo resto do mundo) e o PS um (Europa).

Do ponto de vista dos votos expressos, o que estas legislativas revelaram foi o PS a crescer e o PSD em perda. Os socialistas acabaram por ficar à frente do PSD (26,24% contra 23,42%) mas ambos os partidos empataram em número de eleitos: dois deputados para cada partido, um por cada círculo. No círculo da Europa ganhou o PS e no de Fora de Europa o PSD (sendo que neste círculo o eleito do PS foi o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva).

Outro dado importante é que o PAN foi a terceira força mais votada, à frente do BE, CDU ou CDS-PP. O partido - que no conjunto do país passou de um deputado para quatro - obteve 7653 votos (4,84%) na soma dos dois círculos emigrantes. Um resultado ligeiramente superior ao resultado global do partido (3,32%). No círculo da Europa ficou em 4º lugar, atrás do PSD, PS e Bloco de Esquerda; no Fora da Europa em 3º.

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