José Mário Branco: Homenagens à esquerda, silêncio à direita

Na hora da morte, a esquerda surge a uma só voz homenageando José Mário Branco. Do PSD ou do CDS nem uma palavra. À direita do PS, Marcelo foi a excepção no silêncio

José Mário Branco foi militante do PCP na década de 60 do século passado, fundando depois em 1974 um partido concorrente, a UDP, tendo no final da década de 90 apoiado o nascimento do Bloco de Esquerda. Não foi por isso, porém, que os comunistas o deixaram de homenagear.

"É um cantor que deu voz à luta, às inquietações dos trabalhadores e do povo", disse a deputada comunista Ana Mesquita, que até o parafraseou: "Veio do Porto [onde nasceu em 1942] e, para nós, continuará sempre mais vivo do que morto."

Segundo a parlamentar, "faleceu um dos grandes compositores e cantores da música portuguesa, que se destacou na música de intervenção e não só, com uma enorme influência em artistas do país". "Ele destaca-se não só individualmente, mas também no trabalho com José Afonso, na criação de um som moderno, marcante, não só em termos estéticos, e que depois acabou, em termos simbólicos e históricos, a alcançar um grande valor por via do que foi a 'Grândola, Vila Morena', senha da revolução".

Além do mais, há que reconhecer o seu papel "como divulgador, ao recuperar muita música tradicional portuguesa, pondo em prática muitas das recolhas de Michel Giacometti", além da "disseminação do poema português, de que é exemplo 'Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades' (Camões)", bem como a sua "generosidade artística" que o levaram a "outras tendências musicais, como o fado" (produziu Camané e Katia Guerreiro, por exemplo).

José Mário Branco é considerado um dos mais importantes autores e renovadores da música portuguesa, em particular no período da Revolução de Abril de 1974. O seu trabalho estende-se também ao cinema e ao teatro. Morreu ontem, com 77 anos, vítima de um AVC.

No país políticos multiplicaram-se as vozes de homenagem - mas todas à esquerda, com a excepcção do Presidente da República.

"Era inconfundível, inconfundível na sua voz, inconfundível na sua independência, na sua rebeldia, na sua não acomodação."

Falando com jornalistas em Belém, Marcelo lembrou-o como "um lutador" na oposição à ditadura e depois da revolução e uma voz "inconfundível" de uma "geração de Abril". Foi alguém "sempre insatisfeito", para quem "havia uma parte de Abril que estava por realizar" e que, por isso, "continuou sempre a ser portador dessa insatisfação".

"E, nesse sentido, foi um símbolo de resistência, um símbolo de luta, um símbolo de esperança e um símbolo de permanente exigência à democracia portuguesa", considerou o chefe de Estado. "Era inconfundível, inconfundível na sua voz, inconfundível na sua independência, na sua rebeldia, na sua não acomodação."

"A obra foi muito importante, foi importante musicalmente, mas nele a música não se distinguia da luta e, nesse sentido, foi importante para a construção da democracia."

Marcelo Rebelo de Sousa manifestou "consternação" pela morte do compositor e cantor, "apesar de tudo, tão cedo" e expressou-lhe "reconhecimento", por ter sido "um lutador na resistência durante a ditadura" e também "um lutador na revolução" e "depois da revolução".

No seu entender, "a obra foi muito importante, foi importante musicalmente, mas nele a música não se distinguia da luta e, nesse sentido, foi importante para a construção da democracia". "E mesmo pessoas que se encontravam em quadrantes muito diferentes do seu quadrante - era o meu caso, na altura da revolução e nos tempos que se lhe seguiram - mesmo para todos esses, ele era uma referência, porque nunca desistiu de lutar pelas suas convicções", acrescentou.

Segundo o chefe de Estado, "José Mário Branco "nunca aceitou honrarias, nunca aceitou condecorações em vida", assinalou, referindo que tentou condecorar José Mário Branco em vida, mas que "ele, com a sua independência, avesso a esse tipo de reconhecimentos, sempre recusou". Quanto a uma futura condecoração póstuma, não excluiu essa possibilidade, mas ressalvou que "depende agora da família, dos seus mais próximos", e admitiu que queiram "ficar fieis à sua vontade, o que é respeitável".

"A erudição musical de José Mário Branco acolheu vários géneros, sem hierarquias, e estendeu-se a outros artistas, com quem colaborou, de José Afonso a fadistas como Carlos do Carmo ou Camané"

Usando o Twitter, o primeiro-ministro, António Costa, lamentou a morte de José Mário Branco, considerando-o uma "figura cimeira da música moderna e da cultura portuguesa". "O primeiro álbum - Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971) - foi prenúncio da revolução de Abril e de uma obra empenhada e combativa", escreveu.

Na mesma nota, o primeiro-ministro salientou que a "erudição musical de José Mário Branco acolheu vários géneros, sem hierarquias, e estendeu-se a outros artistas, com quem colaborou, de José Afonso a fadistas como Carlos do Carmo ou Camané". "Não esqueceremos a sua música, a sua inquietação."

Quem também reagiu foi o presidente da Assembleia da República, o socialista Eduardo Ferro Rodrigues. "José Mário Branco é inquestionavelmente um dos maiores nomes da canção portuguesa, num percurso que começou muito antes do 25 de Abril e que durou até aos dias de hoje. E que durará, na verdade, enquanto tivermos memória", escreveu, numa nota enviada à Lusa.

Em comunicado, o Bloco de Esquerda - com quem o compositor teve várias colaborações - falou num "destacado artista, cantor e compositor" e também "um lutador político antifascista e combatente contra as opressões e as desigualdades".

"Homem comprometido com a construção de um mundo melhor, é autor de uma obra singular no panorama musical, tornando-se o expoente da música de intervenção portuguesa, tendo por isso sido perseguido pela PIDE até se exilar em França."

"O Bloco de Esquerda presta homenagem ao destacado artista, cantor e compositor, que foi também um lutador político antifascista e combatente contra as opressões e as desigualdades", sublinhou o partido. Na vida de José Mário Branco, na perspetiva dos bloquistas, "foi sempre marcante a indignação perante diferentes opressões, o apelo ao combate à exploração capitalista e a defesa da luta popular".

Também o PEV disse, igualmente em comunicado, ter recebido a notícia da morte com "profundo pesar". "José Mário Branco, músico, autor, poeta, produtor e um dos nomes mais importantes da música portuguesa dos últimos 50 anos. Homem comprometido com a construção de um mundo melhor, é autor de uma obra singular no panorama musical, tornando-se o expoente da música de intervenção portuguesa, tendo por isso sido perseguido pela PIDE até se exilar em França. A sua obra não se cingiu à música de intervenção, tocou desde a música de intervenção e a canção de Abril até ao fado", lia-se na nota emitida pelo partido parceiro do PCP na CDU (Coligação Democrática Unitária).

Já o partido Livre afirmou, numa nota à imprensa, que para artistas da sua dimensão "a morte nunca existirá" e que "resistir é vencer".

"Para figuras da dimensão de José Mário Branco, a morte nunca existirá. E como nos canta no seu último álbum de 2004, resistir é vencer", sublinhou o partido em comunicado. O Livre definiu José Mário Branco como um "incansável lutador antifascista", realçando as muitas participações do artista em "ações pela democracia" tanto em Portugal como no mundo "nunca cedendo na defesa do princípio da liberdade".

"Ficarão para a história muitas das suas canções como 'Inquietação', 'Ser Solidário', o sempre atual 'FMI' ou ainda o poema de Natália Correia 'Queixa das Almas Jovens Censuradas'."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG