Rangel avisa: será "incompreensível" não reconduzir Joana Marques Vidal

O eurodeputado do PSD atacou esta sexta-feira o primeiro-ministro por anunciar descidas do IRS para emigrantes entre 2011 e 2015 e nada dizer sobre os portugueses na Venezuela em emergência humanitária. E defendeu a recondução da procuradora-geral da República, ao contrário de Rui Rio.

Paulo Rangel foi extremamente duro com o governo de António Costa, a quem acusou de "falhar" em funções fundamentais do Estado, na aula que deu esta manhã de sexta-feira na Universidade de Verão do PSD. E ao contrário do que o Presidente da República tinha pedido aos partidos para não colocarem a crise na Venezuela no debate político, o eurodeputado social-democrata quis manifestar a sua indignação sobre o modo como o governo está a gerir o assunto.

"É revoltante que numa altura em que há uma comunidade portuguesa e muitos luso descendente a passar fome e risco de vida pela violência e pelo colapso do sistema de Saúde na Venezuela, haja um programa para os emigrantes de 2011 e 2015 e não haja para os emigrantes em estado emergência. Tem de se fazer política com isto!"

Rangel recordou que António Costa anunciou na rentrée do PS, em Caminha, António Costa, enquanto secretário-geral do PS, anunciou a descida do IRS para os emigrantes que deixaram o país entre 2011 e 2015. Fez isto, frisou, em plena crise na Venezuela, sem ter "dito nada sobre os emigrantes em emergência humanitária. Dizem que é preciso recato, mas é preciso denunciar isto!" O recado estava enviado de Castelo de Vide também para Belém.

"É revoltante que numa altura em que há uma comunidade portuguesa e muitos luso descendente a passar fome e risco de vida pela violência, e pelo colapso do sistema de Saúde na Venezuela, haja um programa para os emigrantes de 2011 e 2015 e não haja para os emigrantes em estado emergência. Tem de se fazer política com isto!"

Rangel invocou o que se está a passar em países como a Eslováquia, Roménia e até Malta, de interferência dos governos na Justiça, para fazer a defesa da manutenção da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, no cargo. "Era mau sinal, quando temos uma apreciação pacífica do seu desempenho que fossemos introduzir aqui um ruído. O governo fará o que quiser, mas terá que responder pelo que fizer", disse, reforçando que Joana Marques Vidal foi "apolítica" e apanhou vários casos de corrupção. "Será incompreensível se o governo não a reconduzir".

Esta posição de Rangel contraria a que Rui Rio tem mantido sobre esta matéria. Não só no debate com Santana Lopes para as diretas do PSD, se mostrou pouco entusiasta do mandato da procuradora, como recentemente remeteu a decisão sobre a continuação do seu mandato, que termina em outubro, para o governo e o Presidente da República.

[sobre a PGR]"Era mau sinal, quando temos uma apreciação pacífica do seu desempenho que fossemos introduzir aqui um ruído. O governo fará o que quiser, mas terá que responder pelo que fizer"

Mas o antigo líder parlamentar do PSD, que foi candidato à liderança e que quase voltou a entrar na corrida às últimas diretas contra Rui Rio, trazia ainda mais farpas ao executivo. O caso do furto de armas no paiol de Tancos, levou-o a desferir mais um golpe. "Que confiança podemos ter em quem tutela as Forças Armadas?" - perguntou, recordando que António Costa quer atirar as responsabilidades pela falta de respostas sobre este caso para o Ministério Público. Mas Rangel apontou o dedo ao responsável: "Se um chefe do Estado-Maior do Exército não sabe responder tem de se demitir".

Nas falhas do governo em questões de soberania, Rangel recordou ainda o que se está a passar com as alegadas irregularidades com a reconstrução de casas em Pedrógão."O governo com os incêndios do ano passado não aprendeu nada. Depois de Pedrógão Grande, teve o 15 de outubro e depois se olharmos para os desvios para a reconstrução, com 21 casos na justiça, que é uma questão delicadíssima, o governo não faz a mínima diligência. Falhou na prevenção, no combate e até na reparação".

A Administração Interna também não escapou. O eurodeputado do PSD, que é vice-presidente do PPE, acusou o ministro das Finanças, Mário Centeno, de continuar a fazer cativações que têm efeitos devastadores. "O ministro dá com uma mão e tira com a outra". E deu o exemplo do que está a acontecer com a segurança rodoviária. "Se o número de mortes na estrada está a aumentar. é porque a prevenção rodoviária não está a funcionar. Morrem quase 500 pessoas por ano".

"O governo com os incêndios do ano passado não aprendeu nada. Depois de Pedrógão Grande, teve o 15 de outubro e depois se olharmos para os desvios para a reconstrução, com 21 casos na justiça, que é uma questão delicadissima, o governo não faz a mínima diligência. Falhou na prevenção, no combate e até na reparação".

Num país que estava a fazer há 20 anos progresso nesta área, "está a falhar uma política pública pela mesma razão que falha a saúde, e nos comboios. Para fazer flores com política de rendimentos, está a cortar nos serviços públicos. Nem no tempo da troika aconteceu isto", garantiu.

Em resposta a uma das alunas se haveria algum candidato português ou do sul da Europa à presidência da Comissão Europeia, Paulo Rangel reconheceu que Pedro Passos Coelho seria um "excelente" candidato, mas admitiu que a sua eleição seria muito difícil. Defendeu ainda Durão Barroso: "Foi um excelente presidente da Comissão!"

Queda económica grave e Trump

Paulo Rangel deu ainda aos alunos da Universidade de Verão uma aula vasta sobre os problemas com que a Europa e o mundo se confrontam. Começou pelo Brexit, passou ameaça russa, até à questão Síria. "Não há praticamente nada que não nos aconteça. Temos uma queda económica grave, que pode provocar uma crise económica, provocada pelas economias emergentes. Temos um mapa mundi cheio de problemas", frisou.

Os maus efeitos da globalização, os milhares de desempregados que gerou, expressam-se, defendeu, no Brexit. A saída do Reino Unido da União Europeia "é problema enorme e tem uma origem comum a outros problemas da UE" e que nos Estados Unidos também determinaram a eleição de Donald Trump.

"se tívessemos um presidente dos EUA como Obama ou Clinton não teríamos o Brexit neste ponto. Pegavam no telefone e mediavam a situação. O sr. Trump quer tudo quando pior melhor e isso tem um efeito direto sobre a Europa".

Rangel considerou que Trump tem, aliás, um grande efeito de perturbação da UE. "Se não fosse ele haveria um conjunto de problemas que não estaríamos a sentir agora", porque disse, os presidentes americanos costumam ser mediadores na Europa. "Há um impasse nas negociações do Brexit e dificilmente poderia estar pior. O problema não é o diálogo Londres/ Bruxelas, o problema é o diálogo Londres/ Londres, porque não sabem o que querem. Este ano, não houve uma semana que o governo de Teresa May não estivesse em risco de cair, mas agora pode cair a qualquer momento".

Na sua opinião, "se tívéssemos um presidente dos EUA como Obama ou Clinton não teríamos o Brexit neste ponto. Pegavam no telefone e mediavam a situação. O sr. Trump quer tudo quando pior melhor e isso tem um efeito direto sobre a Europa".

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