Quando a política (ainda) atrai os mais jovens

40% dos mais novos não querem saber de política, segundo um estudo da OCDE de maio. Estes cinco militantes partidários serão a exceção. Fomos saber porquê

Luís Carvalho não compreende a desatenção dos jovens na política. Estudante de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa, ele é militante da Juventude Socialista desde os 18 anos, fazendo agora parte do Secretariado Nacional dos Estudantes Socialistas. Admite que a tal desconfiança possa existir pela imagem que a política dá. Tantos casos que, em tribunal, fazem manchete. "Mas a política é um meio nobre, há pessoas de bem", acredita.

Isso é, para ele, essencial. "É uma forma de trabalhar para um bem comum, de mudar o mundo segundo aquilo em que acreditas." No seu caso, foi o amor pela igualdade e pela liberdade que o fez juntar-se à JS. Foi sempre um assunto à hora de jantar e, aos 18 anos, pensou que era a idade certa para fazer alguma coisa. "Três dias depois, participei numa conferência em que, por acaso, um dos assuntos era a legalização da prostituição. Fiquei logo apanhado! Era isto que eu queria, debater e discutir ideias." Para Luís, nem sempre é dos jovens a responsabilidade pela fraca participação política. "Os partidos têm bastante dificuldade em se aproximar dos jovens." E nem as juventudes partidárias nem a escola ajudam. "Um jovem pode ser bom a História, a Matemática, mas é importante que também seja um bom cidadão, e para isso tem de perceber alguma coisa do que se passa na política", defende.

Em todas estas histórias há sempre um bichinho precoce que lhes foi incutido. Com Beatriz Farelo, que logo aos 16 anos decidiu filiar-se no Bloco de Esquerda, foram as aulas de História. Quando o capitalismo foi abordado viu despertar "um sentimento de injustiça". Até chegar ao BE foi um passo: "Foi o partido com o qual mais me identifiquei, mas entrei completamente de paraquedas."

No momento de escolher o curso, optou por Ciência Política e Relações Internacionais. O que a surpreendeu foi ver, no próprio curso, tantos jovens que, mesmo a estudar política, não se envolvem nela na universidade. E esse será o resultado do neoliberalismo e do consequente conformismo, defende. "É como se fossem dando pensos às pessoas, administrassem paliativos, em vez da cura. E mesmo assim as pessoas ficam contentes e pensam que não se pode exigir mais."

Talvez a escola seja o instrumento para deixar os jovens alerta relativamente a assuntos fraturantes, incentivando o debate . "As crianças, ao pensarem nesses assuntos teriam de envolver-se, acho que isso é um passo", sugere Beatriz. E defende que em casos como a recente greve dos professores, em vez de os alunos se revoltarem contra os docentes por não terem as suas notas a tempo, deviam juntar-se à luta.

André Antunes também está a estudar Ciência Política, mas no ISCTE, em Lisboa. Tem 21 anos e é filiado na JCP desde os 18. Começou a participar em manifestações aos 10, com o pai, militante comunista desde a década de 1970. Diz que "quanto mais instruídos são os jovens, mais interesse têm pela política". E apesar de ver um aumento de jovens a votar na sua zona, a Quinta do Conde, lembra que os que se interessam são uma "minoria da elite instruída". Não atribui a culpa necessariamente à escola, antes enumera razões como o papel dos media na descredibilização da política, a obsessão e a dependência das novas tecnologias e o exemplo dos adultos - que não existe. Para ele, a Formação Cívica devia ser ter mais importância como disciplina, até para explicar "o que são direitos e deveres em sociedade". Apesar de os "jovens saberem distinguir as instituições, não sabem o que lá se trabalha".

Com mais anos em juventudes partidárias, José Miguel Ramos Ferreira é presidente da distrital de Coimbra da JSD. Licenciado em Direito, foi presidente da Associação de Estudantes no secundário. "Após ajudar em algumas campanhas do PSD, pensei: porque não entrar?" E foi o que fez, tinha então uns 16 anos. Hoje, aos 29, já conta no currículo ter sido presidente da concelhia de Miranda do Corvo e vice-presidente da JSD. E uma vez que os 30 anos são a idade limite para estar numa juventude partidária, está perto de terminar o seu percurso na JSD em Coimbra. Depois disso, não vê um futuro ligado inteiramente à política. "É um gosto, apenas", refere. O que o desiludiu? "Os jovens não se sentem representados pelas juventudes partidárias, há erros, e quem não consegue assumir isto não tem noção."

José dá o exemplo da Áustria, um dos países mais desenvolvidos do mundo, cujo primeiro-ministro foi eleito com apenas 31 anos. Em Portugal, isso seria praticamente impossível. "A Constituição proíbe que o presidente tenha menos de 35 anos. É uma cultura que tem de mudar." Poderá ser essa uma maneira de parar de se associar o carreirismo aos jotinhas. A ele, nunca o chamaram de carreirista, mas muitos jotas ouvem-no com frequência, uma associação que considera "profundamente injusta". Prova-o com o seu próprio exemplo - José é advogado e gestor -, o do primeiro vice-presidente da JSD, investigador, e o do secretário-geral, fundador e CEO de uma startup.

Há cinco anos a trabalhar com a Juventude Popular, Pedro Reis é presidente da comissão política concelhia de Setúbal. E foram os contactos com diferentes ideologias na família e as conversas sobre política em casa que começaram a despertar-lhe o interesse.

No secundário, participou no Parlamento Jovem, e foi esse o clique para se filiar. Com 25 anos, defende que os jovens não fogem da política, "é a política que por vezes foge a sete pés dos jovens". Justifica-o com a pouca rotatividade dos interlocutores e o esquecimento dos jovens nos discursos. A mudança? "Podia começar na escola." E nas concelhias. "É necessário sair dos gabinetes e conhecer a realidade dos jovens. Perguntar-lhes o que acham, ouvi-los, todos têm algo a acrescentar", acredita. E resume: "Há que pôr os pais a votar nos filhos."

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