Passos ataca forte e feio os "truques de ilusionismo" do governo

Chegou "discreto" a Cascais, como convém a um ex-primeiro-ministro, mas ao microfone Pedro Passos Coelho atacou forte e feio o governo de António Costa, a quem acusou de "truques de ilusionismo". Parecia o líder da oposição na campanha de Paulo Rangel.

A expectativa na sala, 450 militantes, na Quinta de Mações em Bicesse, Cascais, era a de que a inesperada incursão de Passos Coelho na campanha de Paulo Rangel passaria ao lado da política mais pura e dura, de tão discreto que tem sido desde que saiu de São Bento. Mas não foi nada assim. Num longo discurso, o antigo primeiro-ministro atacou o governo em várias frentes. Houve quem comentasse que parecia o líder da oposição.

"Eles são os campeões da carga fiscal em Portugal!", disparou o antigo líder do PSD, que foi ovacionado quando entrou na sala e teve de transpor muitos abraços e beijos. Várias vezes utilizou a imagem dos "truques de ilusionismo", que desviam as atenções, para caracterizar a ação dos socialistas e do governo. A quem acusou de ter desperdiçado tudo o que o anterior executivo tinha feito para cativar junto da Europa fundos para investimento.

A palavra "investimento" foi, aliás a mais usada para causticar o executivo. Já não trouxe a ideia do diabo vem aí, mas Passos falou de sempre de anjos sem asas (Centeno e António Costa). "Hoje investe-se menos no Serviço Nacional de Saúde do que no tempo que fui primeiro-ministro sem dinheiro". O antigo presidente do PSD, que praticamente tem andado arredado de todas as iniciativas políticas, voltava a fazer o contraponto entre os socialistas que levaram o país à crise de 2011 e o seu "trabalho árduo" para o resgatar.

O tom também fez a diferença. Passos Coelho estava ali para mostrar como está convicto que é possível mostrar as diferenças entre PSD e PS nesta campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. Porque, disse, os populismos e extremismos só proliferam na Europa porque "os cidadãos ficam desencantados" e quando os políticos "fazem a fuga para a frente" e "passam as responsabilidades". As indiretas para a geringonça estavam aqui todas.

Passos lembrou, mais de uma vez, que há muitos ministros que já vinham do governo de José Sócrates, nome que nunca foi proferido mas esteve sempre presente neste almoço de campanha. "Por cá também andaram a vender ilusões".

"Quando estávamos no governo a ver se conseguíamos resgatar o país da crise muitos dos que estão agora no governo andavam a dizer que a culpa era da Europa. E nós a trabalhar no duro!". O antigo primeiro-ministro recordou que o PS andou a vender primeiro a ilusão de Hollande como a primeira boia de salvação da UE. Depois Renzi em Itália e, por fim, Tsipras na Grécia. "A geringonça que se formou em Portugal já nem quer ouvir falar de Tsipras porque agora é social-democrata. Agora fazem-se vídeos para o presidente Macron...", disse, numa alusão indireta ao vídeo que António Costa fez para o último comício do chefe de Estado francês.

Pedro Passos Coelho, que em 2010 enfrentou Rangel nas diretas do partido, elogiou o cabeça de lista do PSD pela sua "combatividade", "lealdade" e "coragem". E também para marcar a diferença entre a visão do PS, que acusou de ter uma versão lá fora diferente da de cá de dentro - num ataque ao ministro das Finanças, que assumiu em entrevista a meio de comunicação estrangeiro que a austeridade em Portugal não acabou. "Queremos uma Europa de Estados e de governo. Queremos responsabilidade em cada país. Não queremos prescindir da nossa responsabilidade orçamental".

"O PSD não esconde os seus candidatos e não temos problemas de trazer os nossos anteriores líderes para a campanha"

Embalado por uma campanha que nos últimos dias tem ido em crescendo, com muita presença na rua, Paulo Rangel também não poupou em elogios ao "admirável" trabalho que Passos fez no governo. Lembrou que foi Rui Rio quem convidou o antigo líder a entrar na campanha e foi taxativo num também muito feroz ataque ao PS e ao governo. "O PSD não esconde os seus candidatos e não temos problemas de trazer os nossos anteriores líderes para a campanha porque são um bom legado". E mais: "Não temos ninguém para esconder atrás do biombo ou dos arbustos".

O cabeça de lista do PSD, num almoço que contou com a presença do presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, critico de Rui Rio, e de figuras ligadas ao passismo como José Matos Rosa, anterior secretário-geral do PSD, fez ainda um apelo à mobilização do partido para que combatam a abstenção. Uma preocupação que tem expressado nestes últimos dias de campanha.

Sentiu-se nesta primeira aparição de Pedro Passos Coelho numa grande iniciativa de campanha que o partido o recebe de braços abertos. Embora o DN tenha apurado que existiram dúvidas na entourage de Rangel se a participação do antigo primeiro-ministro seria uma mais-valia para a campanha por o país ainda não se ter reconciliado com a sua governação. Mas depois do discurso forte contra o governo de António Costa, sem rebuços, todos ficaram rendidos. "É isto que é preciso!", dizia um militante destacado presente. Passos entrou na sala com o "V" de vitória na mão direita, aquela que Rangel diz ser possível no dia 26 de maio.

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.