Página de partido liberal já foi página de apoio a Costa. E presidente demitiu-se por isso

Miguel Ferreira da Silva sai por causa de página criada pelo seu vice, que em 2014 apoiava o então presidente da Câmara de Lisboa à liderança do PS. Partido já sabia disto desde 2016

O presidente da Iniciativa Liberal, Miguel Ferreira da Silva, demitiu-se esta quinta-feira depois de conhecida a origem da página de Facebook do partido: já tinha sido uma página de apoio a António Costa.

Segundo o presidente demissionário, "a Comissão Executiva da Iniciativa Liberal deliberou, por maioria, tomar uma posição sobre a origem da página de Facebook do partido", que foi tornada pública nessa mesma plataforma. "Não me revendo nessa posição, manifestei convicta e profundamente que, sendo a Iniciativa Liberal uma plataforma de cidadania ativa e uma alternativa assumida à atual forma de fazer política, deveria assumir todas as responsabilidades com a mesma convicção com que luta, diariamente, por uma maior liberdade política", explica-se o próprio na sua página de Facebook.

A página em causa começou por querer capacitar Portugal com António Costa, agora tem na sua Iniciativa Liberal um palco de críticas ao atual primeiro-ministro. Alexandre Krauss é consultor de estratégia e vice-presidente do mais recente partido português, Iniciativa Liberal, mas em 2014 não resistiu em criar uma página de apoio ao então presidente da Câmara Municipal de Lisboa para Costa se candidatar à liderança do PS. Confuso? Mudam-se os tempos, muda-se a política.

Entre um gesto e outro, Krauss aproveitou a página de apoio a Costa para a transformar na página do novo partido liberal, garantindo logo à partida que os muitos que tinham começado a seguir a página inicial passassem a ser notificados das atividades da Iniciativa Liberal. No Twitter, esta passagem foi agora notada por Alexandre Poço, vice-presidente da JSD, que ironizou num tweet seu: "Isto é que foi capacitar."

No histórico da página da Iniciativa Liberal lê-se que a mesma foi criada em 27 de maio de 2014 com o nome de "António Costa 2015 - Capacitar Portugal". Um ano mais tarde, em 13 de maio de 2015, já com Costa na liderança do PS, a página passou a chamar-se simplesmente "Capacitar Portugal".

Depois de realizadas as eleições, resolvida a geringonça, censurado o curto governo de Passos Coelho e Paulo Portas e instalado o governo socialista com o apoio inédito da esquerda parlamentar, Alexandre Krauss voltou a alterar o nome da página para Liberal Portugal (em 26 de janeiro de 2016) e oito meses depois, em 26 de setembro, com o movimento liberal a querer constituir-se partido, para "Iniciativa Liberal".

O partido explicou esta quinta-feira que já conhecia a origem da página desde o final de 2016. Reconhecendo que a "intervenção cívica" de Krauss no Facebook "teve alguns meses de existência onde recolheu pouco mais de 4 mil seguidores, deixando de ser atualizada no primeiro semestre de 2015 por divergências profundas do criador da página com o projeto de António Costa e na forma como chegou ao poder", a Iniciativa Liberal reconhece que "voltaria a ser recomeçada e renomeada para Iniciativa Liberal no início de 2016, cogerida por pessoas que procuravam em Portugal um espaço de discussão sobre liberalismo político, social e económico".

"Quando no final de 2016 os membros fundadores do que viria a ser a Associação Iniciativa Liberal tiveram conhecimento da origem da página, estiveram de acordo que essa era uma informação irrelevante na sua decisão de fazerem parte deste projeto, preferindo manter os contributos e ideias recebidas como Iniciativa Liberal", explica a Comissão Executiva do partido.

Na hora da demissão, Ferreira da Silva escreve que queria acabar com a página. "Sou a favor do fim da página. Votei vencido pela convicção inabalável de que o liberalismo implica responsabilidade. Acreditando que não é possível apontar o caminho sem estar disponível a percorrê-lo, apresentei a minha demissão, por não me rever na posição aprovada pela direção do partido."

Esta página de Krauss já tinha sido notícia em 2014: na altura, segundo o jornal Público, a página foi criada menos de 24 horas antes de Costa anunciar a sua candidatura contra Seguro, depois da vitória "poucochinha" dos socialistas nas europeias desse ano. O próprio consultor explicava, nas páginas desse jornal, que estava indignado com a "barreira de estatutos paleolíticos" que o então líder do PS invocava para evitar ir a votos.

A "gota de água", dizia Krauss, foram as proclamações de vitória dos socialistas na noite eleitoral, pelo líder, António José Seguro, e pelo cabeça-de-lista, Francisco Assis. "Como é que não veem que aquilo foi um resultado insignificante, numa altura em que temos pessoas de esquerda e até de direita cansadas de um Governo neoliberal e que o populismo começa a emergir?", indignava-se no Público de 28 de maio de 2014. Horas antes de António Costa dar o passo em frente, Krauss criou uma página no Twitter, que já não existe, e depois outra no Facebook, que agora é a morada da Iniciativa Liberal.

Em 2014, o consultor - que foi assessor dos socialistas Jorge Lacão, Pedro Silva Pereira e de José Sócrates no primeiro governo deste - sonhava com a hipótese de converter a sua "plataforma independente" de apoio a Costa numa "estrutura institucional". "Pode evoluir para isso, seria um gozo e um prazer. Se surgir o convite, analisaremos. Se não, continuarei a fazer o que estou a fazer", admitia ao Público.

O DN enviou por email um conjunto de questões a Alexandre Krauss sobre a alteração no apoio a Costa e o alojamento da página da Iniciativa Liberal naquela que em tempos foi a morada em que os costistas se reviam, mas não obteve qualquer resposta até à publicação deste texto.

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