Marine Le Pen na Web Summit divide socialistas

Há quem exija que o convite à líder da extrema-direita seja retirado, como Tiago Barbosa Ribeiro, e quem entenda que tem até é bom que discurse na conferência que se realiza em Lisboa, como João Vasconcelos

Está na lista de oradores, não está na lista, está outra vez na lista. Enquanto não há qualquer resposta da organização da Websummit sobre a presença de Marine Le Pen no encontro que vai realizar-se em novembro, em Lisboa, a polémica sobre o convite à líder da Frente Nacional prossegue e já divide socialistas.

Tiago Barbosa Ribeiro é um dos que se manifesta visceralmente contra o convite à líder do partido Reunião Nacional (antiga Frente Nacional). Num post publicado no Facebook, o deputado socialista diz não perceber o que levou alguém a convidar Marine Le Pen para falar na Web Summit. "Nem o que esperaria que as pessoas aprendessem, a ouvir aquela espécie de fascismo 2.0 em relação ao velho extremismo do seu pai".

O deputado diz não ter percebido se a dirigente política foi ou não desconvidada para o evento. "Sucede que se não foi, tem de ser", afirma Tiago Barbosa Ribeiro. Esta "confusão" sobre a vinda de Marine Le Pen a Lisboa existe depois de a organização da Web Summit ter tirado no sábado o seu nome da lista de oradores convidados para a conferência que se realiza entre 5 e 8 de novembro e na segunda-feira ter voltado a integrá-lo, tal como o DN noticiou. Procurámos uma explicação para esta situação dos responsáveis pela conferência, mas não obtivemos até ao momento qualquer resposta.

Tiago Barbosa Ribeiro escreve: "Não podemos permitir este branqueamento do fascismo numa Europa onde ele vai ressurgindo com roupagens trendy, como seria o caso de convidar uma dirigente fascista para subir ao palco de um evento financiado com dinheiros públicos portugueses. Não colhe nenhuma tentativa de apelar à 'tolerância democrática' para dar voz a quem quer acabar com a tolerância e com a democracia".

Considera ainda o deputado que ao fascismo não se dá voz. "Proíbe-se, como na Constituição da República Portuguesa. Mata-se o mal pela raiz, bem cerce, evitando a contaminação da democracia e as tragédias do século XX europeu. É por isso simples até que percebam a mensagem: Le Pen não pode falar na Web Summit."

A vinda daquela dirigente política francesa a Lisboa também fez levantar a voz de outro deputado socialista. No sábado, dia em que o nome de Le Pen desapareceu da lista de oradores da Web Summit, João Galamba publicou no seu Twitter afirmou: "Não se juntam, não [à lista de oradores], que a gente não aceita. Normalização de fascistas já ultrapassa em muito o aceitável."

Debater para combater

Numa posição oposta, o socialista João Vasconcelos - o ex-secretário de Estado da Indústria que foi uma das caras da vinda do evento organizado por Paddy Cosgrave para Lisboa - também na mesma rede social considera que "se Le Pen será ou não oradora na Web Summit é uma decisão 100% da organização desse evento privado". Ao DN, Vasconcelos diz não sentir nenhum desagrado com a presença da deputada francesa e finalista da segunda volta das presidenciais contra Emannuel Macron.

João Vasconcelos, que diz ser um dos participantes na Web Summit, entende que "ouvi-la é a melhor maneira de combater eficazmente as suas ideias". E tem a convicção de que Marine Le Pen "tem mais a perder do que a ganhar com a vinda a Portugal". Sublinha ainda que trazer estas pessoas, com as quais não tem qualquer afinidade política, a debate, é a melhor maneira de combater as suas ideias. "Ignorar Trump ou o que levou ao Brexit não é o melhor caminho", diz.

"Assistir a uma intervenção desta senhora num dos eventos mais tolerantes, sofisticados e cosmopolitas que conheço será um momento único e mais uma vez demonstrador de que a Websummit já não se trata só de tecnologia e startups mas sim de futuro e de debater que sociedade queremos. Para isso temos de ouvir todos, nomeadamente os que pensam diferente", escreveu o ex-secretário de Estado no Facebook.

Quanto ao facto de a conferência ser financiada pelo Estado, em 1,3 milhões de euros, não considera que deva existir qualquer intromissão das autoridades portuguesas no seu conteúdo. "O Estado apoia pelo impacto económico que vai ter no país. Espero que nunca se escolha as iniciativas pelo seu conteúdo", frisa ao DN.

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