Os "estados gerais da direita" passaram ao lado do estado particular do PSD

Críticas ao atual sistema político marcaram o primeiro dia da Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL)

Passava pouco das cinco da tarde quando a crise no PSD irrompeu de rompante na sala, com o jornalista e comentador João Miguel Tavares a puxar do telemóvel para ler o título de uma notícia de última hora - "PSD a ferver. Miguel Morgado pondera avançar caso sejam marcadas diretas". Morgado estava sentado mesmo ao lado, como orador do mesmo painel, mas tirando o momentâneo embaraço do deputado social-democrata e a risada geral na sala cheia do pequeno auditório da Culturgest, em Lisboa, o caso ficou por aqui.

A atualidade política caiu com estrondo em cima da 1º Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL), e o desfile de nada menos do que quatro potenciais candidatos à liderança do PSD - no preciso dia em que essa discussão foi reaberta - prometia não tanto uns estados gerais da direita, mas uma incursão paralela ao estado particular do maior partido da oposição. Mas, como pretendiam os organizadores, isso não aconteceu: o tema "presidência de Rui Rio" ficou do lado de fora da Convenção. Exceção feita ao referido episódio, a crise no PSD não chegou a entrar portas adentro do encontro. Mesmo com Morgado, Pedro Duarte e Miguel Pinto Luz a pronunciarem-se, do lado de fora, sobre o desafio de Montenegro, enquanto o próprio, numa passagem breve pela Culturgest, se escusava a comentários.

O que se ouviu, e muito, foram críticas ao sistema político e aos seus principais agentes. Luís Marques Mendes abriu as hostilidades logo de manhã, classificando o que se tem passado nas últimas semanas na Assembleia da República - nomeadamente com os casos de falsas presenças dos deputados no plenário - como "assustadoramente deprimente". A reforma do sistema eleitoral foi a solução apresentada por quase todos os intervenientes no debate (com exceção de Pedro Lomba, que sustentou que há que ser realista e que não haverá acordo entre os principais partidos nesta reforma) para uma maior aproximação entre eleitores e eleitos. O que, para nomes como Marques Mendes ou José Ribeiro e Castro, passa pela criação de círculos uninominais, em que os eleitores votam não numa lista, mas numa pessoa em específico.

Depois do sistema eleitoral, a Educação e a Juventude. E foi neste último painel que se ouviu nova crítica contundente ao sistema partidário, neste caso na figura das juventudes dos partidos. "Acabem com as juventudes partidárias, é uma desgraça, é patético, são mini academias do pior que há na política", atirou Sofia Afonso Ferreira, líder do Democracia 21, movimento que quer constitui-se como partido - e isto num painel onde estava um membro da JSD e um ex-dirigente da mesma estrutura (Miguel Pinto Luz). Coube ao primeiro, Gaspar Macedo, rebater a ideia, defendendo que as juventudes partidárias são a única forma de os jovens conseguirem ter voz dentro dos partidos. O social-democrata aproveitou, aliás, para deixar um reparo ao próprio PSD. "Agora vou cascar no meu partido, não sou o primeiro, está na moda", afirmou, antes de falar na disputa da liderança - mas na do ano passado. "Falaram em renovação e depois apareceram-me dois candidatos com mais de 60 anos", ironizou.

As críticas aos políticos voltaram a ouvir-se no debate subordinado ao tema "Captura de interesses, um combate permanente" e à muito citada falta de empenho político no combate à corrupção. Neste ponto coube a Miguel Morgado (que é também do MEL) contrariar esta visão, defendendo que a generalização deste tipo de críticas não só não é justa como acaba por ter reflexos na qualidade dos intervenientes políticos, afastando os melhores quadros da vida política.

Na assistência, Pedro Pereira, jovem de 20 anos que pertence também à JSD, aproveitou o dia de férias para ir à Convenção. Diz que soube da iniciativa pelas notícias que deram conta da desistência da Francisco Assis e Paulo Trigo Pereira do painel de oradores, e resolveu ir à Culturgest, sobretudo pela discussão em torno da Europa - um tema sobre o qual "praticamente não há debate" em Portugal. Apesar de pertencer ao PSD, não vê com maus olhos o que se passa à direita do espetro político português: "Há muitos movimentos de direita que estão a aparecer, não faz sentido excluir essas opções do futuro político".

Sexta-feira, é Pedro Santana Lopes, presidente do partido Aliança, quem abre o segundo dia de trabalhos da convenção do MEL, que já tem uma desistência a assinalar - Luís Montenegro, que deveria participar num painel de debate sobre "Novas Realidades Europeias e Mundiais". A líder do CDS, Assunção Cristas, faz o discurso de encerramento, imediatamente antes da apresentação das conclusões da Convenção.

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