Em Cacém e S. Marcos muita gente mudou o voto e o PAN quase chegou aos 6 %

Sintra é o concelho de Lisboa onde o PAN alcançou maior percentagem de votos. Atingiu o máximo na freguesia Cacém e S. Marcos - 5,80 %. Muita gente mudou o voto. Tal como fizeram Elisabete e Aurora.

"Mudei, porque costumo votar em quem me parece melhor. Não tenho um partido em que vote sempre. é conforme. Em cada eleição penso: 'este merece o meu voto'", diz Aurora Condeço, 70 anos, contabilista reformada. Mora no Cacém, junto ao Parque Linear D. Domingos Jardo, que tem um pequeno riacho a separar a sua freguesia da de Agualva. Ao lado, é a estação de comboios, que serve as duas localidades.

"O parque foi uma grande melhoria na freguesia, antigamente não havia nada onde pudéssemos passear os animais," explica Maria José Reis, 72 anos, também ex-contabilista. Tem um gato, tem tido sempre animais ao longo da vida e de vários tipos, até um cágado.

Muitas pessoas aproveitam aquele espaço para fazer caminhadas ou mesmo correr, alguns passeiam os cães, há sacos disponíveis para os donos apanharem os dejetos dos animais. Isto, enquanto não estiver acabado o segundo parque canino da freguesia, onde os cães podem passear à vontade, sem trela, este do lado do Cacém.

O primeiro parque canino fica em São Marcos, um bairro dormitório, separado do Cacém pela IC19. Não se vê praticamente ninguém nas ruas durante o dia. O resto é betão, dos prédios e das vias terrestres, muitas rotundas. É a parta mais nova da freguesia, criada com a reorganização administrativa de 2013, e que une São Marques ao Cacém. O presidente de junta é Paulo Adrego, do PS:

O Cacém tem mais movimento, sobretudo idosos e jovens que vão ou veem da escola, também comércio. Nas estradas que atravessam as zonas habitacionais, são mais os cartazes e avisos a alertar para o bem-estar dos animais do que propaganda política. E há 15 dias abriu o Petcafé, na rua de Angola, que também tem serviço de banhos e de tosquias.

Os Censos de 2011 (os últimos) indicam uma população de 38 701, sendo que estavam inscritos para votar 31 659, mas foram mais os que ficaram em casa. A freguesia teve uma abstenção de 50,52 %. Entre os 15 588 que votaram, 904 fizeram-o no PAN.

Maria José não estranha a subida do PAN nas eleições legislativas. (3,28%). "As mentalidades estão a mudar e as pessoas gostam que os animais tenham condições. Hoje em dia, essas questões são mais faladas, não é o meu caso que toda a vida defendi os animais. Mas a minha neta já me disse: 'Avó, daqui a cinco anos posso votar e vou votar no PAN'. explicou.

O partido elegeu quatro deputados nestas legislativas, mais três do que obteve na legislatura anterior). Pelo distrito de Lisboa, passam a fazer parte do Parlamento André Silva e Inês Real, esta última é jurista e trabalha na Câmara Municipal de Sintra desde 2006. É Chefe da Divisão de Execuções Fiscais e Contraordenações.

Cristina Rodrigues, que se candidatou nas autárquicas por Sintra, foi, agora, eleita por Setúbal. E Bebiana Cunha tornou-se deputada pelo Porto. .

Mas, se os resultados foram bons no geral, há concelhos em que ultrapassa em muito os números nacionais, como é o caso de Sintra, em que atingiu 5,10 % dos votos, conquistando o voto de 8 550 eleitores.

Conquistou 5,80 % dos votos na União das Freguesias do Cacém e de S. Marcos, quase o dobro de 2015 (2,88 %). A subida não se deverá à campanha que fizeram junto na localidade pois os moradores não se lembram de ver carros e megafones do partido, dizem até que nem houve muita divulgação partidária em geral. E do PAN não se veem cartazes.

Não foi preciso marketing e campanhas para Elisabete Luís, 56 anos, que confessa não ligar muito à política. "Votei PAN e foi a primeira vez que votei no partido, defendem o planeta e o planeta é tudo", justifica. Não diz em quem votou anteriormente, apenas que decidiu mudar por alguém que defende a natureza.

Acompanhada da sua cadela, a Ariel, está na loja "Quatro patas" a comprar-lhe comida. O negócio é um franchising, que conta 21 lojas no país. "O grupo está em expansão e, aqui, no Cacém, cada vez se vê mais pessoas com animais", diz a funcionária Raquel Santos.

Aurora e Maria José aproveitaram alguns minutos desta segunda-feira de manhã para pôr em conversa em dia. Não revelam em quem votaram, dizem, apenas, que não foi no PAN. "Ainda pensei nisso, mas acho que é nossa obrigação tratar bem os animais e a natureza, não é preciso aderir a um partido para tratar bem os animais", defende Aurora.

Tem um canário, mais nenhum animal de quatro patas desde que lhe morreu o cão. Vai adotando os gatos que lhe aparecem à porta, também os dos amigos, chega a fazer panelas de comida. E tem muitas histórias para contar: "Na noite do furacão, houve uma gatinha que me veio trazer o filho na boca, arranjei-lhes uma caminha e passaram a noite em minha casa. Achou que eu era a pessoa certa para a ajudar."

Maria José aprecia o discurso de André Silva, no que diz respeito aos animais e ao ambiente, mas não chegou para mudar o seu voto, que há muitos anos é no mesmo partido. "Um partido não deve ser só animais e natureza, acho que têm de rodar mais".

Aurora e Maria José vivem com os maridos, consideram-se pessoas de esquerda. Esquerda que viu aumentar substancialmente a sua votação na freguesia e com as subidas do PS (41,09 %) e do PAN (5,80 %). Com uma grande queda do PSD/CDS, de 27,38 % (2015) para 15,06 % (2019); sendo que o CDS obteve agora 2,98. O BE desceu de 14,74 % para 12,30 % e o PCP/Os Verdes de 11,25 % para 7,76%.

"As pessoas estão enganadas", assegura Ricardo Bento, 29 anos, mecânico. Também foi um dos que mudou a sua votação nestas legislativas, tinha votado nas anteriores "em Marinho e Pinto", (PDR), identificava-se mais com a pessoa do que com o partido, por isso, mudou. Informa: "Votei no PSD, não tenho problema em dizer, que desceu bastante aqui no Cacém, mas até acho que é normal. As pessoas estão um bocado enganadas. O PS diz que está tudo bem quando entre e tudo mal quando está para sair, enquanto que o PSD tem tentado endireitar as coisas".

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