Bloqueio da ponte. O princípio do fim do cavaquismo foi há 25 anos

A 24 de junho de 1994, o bloqueio da Ponte 25 de abril, em protesto contra o aumento das portagens, terminou em confrontos com a polícia e com uma carga policial sobre os manifestantes. Um jovem foi baleado e ficou paraplégico

Faz segunda-feira 25 anos. Faltava pouco para as sete da manhã do dia 24 de junho de 1994 quando seis camiões bloquearam o acesso sul da ponte 25 de abril, num movimento de contestação popular após dias de "buzinão" de automobilistas, que provocava todas as manhãs longas filas de carros. O bloqueio da ponte sobre o Tejo, contra o aumento das portagens de 100 para 150 escudos, marcou o princípio do fim do "cavaquismo", num clima de confronto entre o governo liderado por Cavaco Silva e o Presidente Mário Soares.

Além da RTP, nessa altura estavam já no ar a SIC e a TVI, que fizeram horas de emissões em direto, nesse dia e nos seguintes, mostrando imagens dos engarrafamentos que atingiram quase 50 quilómetros, até Setúbal, e depois os confrontos com a polícia.

Mostraram, desde manhã cedo, o bloqueio, e a chegada à praça da portagem do helicóptero do então ministro da Administração Interna, Dias Loureiro, bem como o apedrejamento pelos populares das forças policiais, as cargas da força de intervenção da GNR ou as detenções de manifestantes. Tudo em direto. À noite, já depois de desimpedida a passagem na ponte e de se voltar a pagar as portagens, grupos de motoqueiros tentaram retomar o bloqueio. E foi de madrugada que se deu a carga policial em que um jovem de Almada ficou ferido e paraplégico.

O bloqueio apanhou o então primeiro-ministro, Cavaco Silva, na Grécia, numa cimeira europeia, e foi o ministro da Defesa, Fernando Nogueira, a responder à crise. Dias Loureiro, com a tutela das polícias, foi à ponte para falar com os organizadores do protesto, e tentar um acordo. Em vão. Dias Loureiro diria que apesar de "algum protesto genuíno e espontâneo", havia "uma mão política escondida" atrás da organização. E Cavaco Silva acrescentou que os responsáveis seriam "pessoas ligadas ao Partido Comunista ou aos partidos da extrema-esquerda".

Há 25 anos Portugal tinha saído de umas eleições europeias, em 12 de junho, em que o PS ganhara ao PSD por uma margem mínima (meio ponto percentual). O país era governado há nove anos por Cavaco Silva e pelo PSD, com uma segunda maioria absoluta conseguida nas eleições de 1991. Um resultado que apanhou de surpresa Mário Soares, o fundador e líder histórico do PS que chegou à Presidência da República em 1986 e que, nessa altura, já criticara os tiques de autoritarismo da maioria laranja.

Depois de um primeiro mandato pacífico entre São Bento e o Palácio de Belém, as relações Cavaco-Soares azedaram e ganharam contornos de confrontação mais ou menos aberta, por exemplo durante a chamada "Presidência Aberta" em 1993, em que o presidente "destapou" casos de pobreza na região de Lisboa.

O bloqueio da ponte ditou mais algumas conversas tensas entre Cavaco Silva e Mário Soares, com o presidente a criticar abertamente a estratégia do Governo na gestão da crise. E foi em 22 de setembro que o Chefe do Estado falou e fez a defesa do "direito à indignação" dos cidadãos, no seminário "O Estado de Direito, o Advogado e a Proteção dos Direitos do Cidadão".

Depois de, em maio de 1993, ter dito que não sabia se iria recandidatar-se nas eleições, em outubro o semanário Expresso noticiou o famoso "tabu" e titulou: "Cavaco pode deixar a liderança do PSD." O primeiro-ministro deixaria mesmo o PSD que, com Fernando Nogueira na liderança perdeu as eleições de 1995 para o socialista António Guterres.

"As coisas não voltaram a ser iguais"

Fernando Lima, ex-assessor de Cavaco Silva, admite que o bloqueio da ponte 25 de Abril foi um momento de viragem no cavaquismo, em que "as coisas não voltaram a ser iguais" e se antecipava o "fim de um ciclo".

Após o bloqueio da ponte seguiram-se semanas de dura contestação ao governo e, por fim, no final do ano, o aumento das portagens.

"As coisas não voltaram a ser iguais e ainda faltava um ano para o Governo cumprir o mandato, com uma tarefa muito complexa pela frente que era preparar Portugal para a adesão à nova moeda europeia. Quando em finais de outubro de 1994 o Expresso notícia em manchete que Cavaco Silva podia deixar a liderança do PSD, não se recandidatando à presidência do partido, tal só podia significar que se fecharia um ciclo. Assim veio a verificar-se", lembra o antigo assessor, que acompanhou o ex-primeiro-ministro da década de 1980 aos tempos da Presidência da República (2006-2016).

Olhando para os acontecimentos de há um quarto de século, Lima explica o que aconteceu na ponte com "uma conjugação de fatores", a começar pela "erosão de nove anos de poder", juntando-lhe o "clima económico em Portugal", o "descontentamento popular", e a "grave crise económica" que a Europa vivia - a França era "varrida nessa altura por manifestações violentas".

Para Fernando Lima, que descreveu o que viveu nesses anos no livro O meu tempo com Cavaco Silva, e os recordou agora à agência Lusa, a oposição "apostava fortemente na crispação política" para debilitar os sociais-democratas "por todos os meios". "O aumento inesperado do preço da portagem da ponte serviu de catalisador com a repercussão e efeitos que se conhecem", aponta.

E podia o Governo de Cavaco Silva ter caído naqueles dias de junho? No livro publicado em 2004 Fernando Lima admitiu esse cenário como possível, mas só se "não tivesse agido com firmeza", com o recurso à força para "preservar o princípio do exercício da autoridade do Estado", como agora lembrou à Lusa - "No dia do bloqueio, a continuidade do Governo nunca esteve em causa, mas o prolongamento da crise por várias semanas fez pensar no governo se tinha condições para poder exercer a sua autoridade face aos desafios de ordem pública com que estava a ser confrontado".

"Um ponto de referência no exercício da cidadania em Portugal"

"Este movimento de cidadãos na Ponte 25 de Abril criou um novo paradigma dos protestos - a partir daí as populações adotaram o buzinão, os trocos [dificultados com notas de elevado valor] e as marchas lentas como forma de protesto em diversas causas - e foi o ponto mais alto e de referência do movimento de cidadania e do exercício da cidadania", diz também à Lusa Aristides Teixeira, que participou nos protestos e alguns dias depois do bloqueio se tornou presidente da nova Associação Democrática de Utentes da Ponte 25 de Abril (ADUP).

Como recorda Aristides Teixeira, "o então ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, justificou o aumento das portagens com a necessidade de se observar o princípio do utilizador-pagador, mas os utentes defendiam, já nessa altura, que as portagens se destinavam apenas a pagar a construção da ponte, tal como tinha sido anunciado pelo anterior regime, que previa a extinção das mesmas quando o custo da obra estivesse liquidado, o que, na realidade, nunca aconteceu".

Embora os primeiros protestos tivessem começado em 18 de junho, com muitos automobilistas a buzinarem sempre que atravessavam a ponte, o bloqueio terá apanhado o executivo de surpresa, alega. "Isto apanhou o governo desprevenido. Os membros do governo já se tinham esquecido do que tinham decidido há cinco meses e aquilo caiu-lhes quase como um presente envenenado, porque se aproximavam eleições. Não era conveniente", diz Aristides Teixeira.

"Com Mário Soares [Presidente da República] a dizer que tínhamos direito a manifestar a nossa indignação, o governo estava perfeitamente aflito, não sabia o que fazer e a decisão que tomou só podia ser a de suspender as portagens", acrescentou.

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