"As Forças Armadas estão no período mais grave da sua história"

Nem sempre as Forças Armadas estiveram na melhor forma. O caso de Tancos não é único, e houve, na História, outros desaires. Abílio Pires Lousada, tenente-coronel e especialista em História Militar, acaba de publicar uma obra que se chama precisamente Glórias e Desaires da História Militar de Portugal

Este novo livro, Glórias e Desaires da História Militar de Portugal coincide com as comemorações do centenário do Armistício e dá a conhecer eventos histórico-militares positivos e negativos das campanhas em que as Forças Armadas portuguesas estiveram envolvidas ao longo dos séculos. A começar, precisamente, por La Lys. O livro desse professor dedicado à investigação académica depois de deixar as fileiras, coincide também com um período negro da instituição militar. Abílio Lousada, visto por outros militares como um reputado professor, é sócio da Revista Militar e da Associação Ibérica de História Militar, além de membro do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão. Autor e coautor de seis livros, participou noutros oito sobre temas da sua especialidade e é, ainda, colaborador da Comissão Portuguesa de História Militar e, entre outros, do Jornal do Exército.

Há mais glórias ou desaires na história militar portuguesa?
Há mais glórias do que desastres e também algumas ilusões pelo meio. Há factos gloriosos quer em terra quer no mar e alguns desastres inenarráveis, também em terra e no mar, mas sem um cariz tão abrangente e tão numeroso como as glórias. São 31 acontecimentos da nossa história militar e um deles é precisamente La Lys.

Qual foi o ponto de partida?
Mais do que uma investigação, este é um livro de divulgação. Fui professor de História Militar em três escolas militares: na Escola Superior Politécnica do Exército, no antigo Instituto de Estudos Superiores Militares [agora Instituto Universitário Militar] e na Escola Superior de Guerra em Luanda. Diria que este livro é a minha biografia como professor de História Militar. Aproveitando a iniciativa da editora, pensei em arrumar acontecimentos histórico-militares - não são só batalhas - parecidos, numa vertente militar mas também política e social, e contar a nossa história militar de fio a pavio, num contexto que pode ser lido de forma temática e não cronológica. O livro começa em 1128, com São Mamede [24 de junho], e termina com a revolta militar de 25 de Abril de 1974.

São as balizas cronológicas da história militar portuguesa...
Sim, mas fugi às batalhas clássicas. Estão no livro, são analisadas, estão descritas, mas escrevi segundo a matriz do leitor que, querendo ler, quer perceber e gostar de modo a ter motivação para continuar a ler. Procurei fazer um equilíbrio: não deslustrar o rigor da investigação científica e da escrita académica e, ao mesmo tempo, tentar ir ao encontro do cidadão comum que simplesmente gosta de história.

Os militares portugueses foram muito inventivos?
Não. A originalidade do que chamo invenções e engenhos dos militares portugueses tem que ver com necessidades que os levaram a ter de improvisar engenhos para ultrapassar situações mais ou menos difíceis, seja para defesa da soberania e da própria terra, seja para estender o território e conquistar espaço à custa do inimigo. Com um senão, a nível naval: a nossa matriz identitária ao nível da inovação, onde de facto nos distinguimos, foi na guerra no mar. Daí que um dos engenhos e inovações que descrevo é a batalha de Diu [3 de fevereiro de 1509], com D. Francisco de Almeida, centrada no binómio embarcações - que eram de primeira linha - e no canhão, que fazia fogo a partir dos navios e permitiu aos portugueses, logo no século XVI, entrar de rompante e estabelecer-se no Índico, ser o interlocutor privilegiado - nem sempre bem aceite - no comércio do mar muito à custa do poder naval, centrado na superior tecnologia e robustez das embarcações, da inovação e da vanguarda do material de guerra (sobretudo ao nível da artilharia). E, claro, não podemos ignorar os grandes capitães-de-mar-e-terra - o termo refere aquele que comanda no mar e continua a comandar em terra durante as conquistas - e que, talvez, o primeiro tenha sido mesmo D. Francisco de Almeida.

Que outros exemplos destaca?
O aproveitar das máquinas de guerra medievais, como aconteceu com D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa em 1147. O que o primeiro rei faz é aproveitar a presença dos cruzados e a mais-valia que eles tinham como sapadores para construir máquinas de guerra capazes de levar avante uma conquista que demorou mais de quatro meses. O destaque, para além da balística, dos trabuques, das catapultas, vai sobretudo para as torres de assalto. Outro exemplo completamente diferente, da necessidade que faz o engenho, tem que ver com as Linhas de Torres. Na terceira invasão francesa, portugueses comandados e orientados pelos ingleses, fizeram aquilo que é uma inovação imensa, uma matriz de engenharia não expectável para os próprios franceses e que foi aproveitar o terreno ondulado da região de Torres Vedras e Mafra para criar as linhas assentes em fortes e fortins que barraram o acesso de Massena à cidade de Lisboa.

E que planos nunca deveriam ter sido postos em prática?
Escolhi quatro, que chamo planos malditos e são diferentes uns dos outros. Dois deles estão no contexto de uma guerra civil. A batalha de Alfarrobeira [20 de maio de 1449], com o infante D. Pedro, uma figura importantíssima que foi regente e que no contexto bastante conturbado de intriga de corte e competição da alta nobreza, acabou por se envolver ou deixar envolver no combate de Alfarrobeira, onde as suas tropas foram desbaratadas e ele próprio acabou por ser morto. Outra situação tem que ver com a guerra de irmãos, 1828-1834, entre o infante D. Pedro e o infante D. Miguel. Este tinha tudo para se sustentar no trono num contexto de divisão interna, onde o irmão, imperador do Brasil, não era de todo bem quisto por grande parte da nobreza e pela própria Igreja. D. Miguel conseguiu desbaratar todo esse capital, primeiro por enorme antipatia que criou na sociedade portuguesa e, depois, acabou por se apoiar em cabos-de-guerra que se revelaram autênticos desastres na forma de conduzir o conflito. Outra tem que ver com Tânger em 1437, no reinado de D. Duarte.
A corte dividiu-se porque a empresa era arriscada e os apoios não eram numerosos. D. Henrique atacou por terra e o irmão, D. Fernando, por mar, mas uma operação mal preparada em Lisboa e apoios não concretizados em Ceuta levaram a assaltos que se revelaram completamente desastrosos. A última foi em Moçambique e na Guerra do Ultramar, em 1970. Com [o general] Kaúlza de Arriaga, o comando militar pretendeu localizar os núcleos de guerrilha ao longo da fronteira e destruí-los para terminar a guerra. Para isso idealiza a Operação Nó Górdio, com militares dos três ramos, que vão encontrar e ocupar as bases dos guerrilheiros comandados por Samora Machel. O grande problema é que esses elementos se retiram antes da ocupação e vão dispersar-se para além de Téte e para outras áreas do território.

Como historiador militar, admite novas intervenções de militares na vida política como no passado?
​​​​​​​Os militares portugueses estiveram sempre envolvidos na política. Se no futuro será possível? A minha perceção é que não, antes pelo contrário. Neste momento, as Forças Armadas vivem com um dilema diferente: estão a deixar-se afastar da sociedade. O grande desafio é reganhar... não direi influência mas prestígio junto da sociedade. Esse é para mim o grande desafio do futuro. Não tanto olharem para o poder político no sentido de terem influência ou poder - nem me parece que isso seja desejável - mas voltarem a ganhar a nação. As Forças Armadas estão no período mais grave da sua história e por uma razão simples: estão a perder o contacto com a sociedade e a perder uma matriz identitária, que é serem a reserva última da Pátria, a reserva moral da Nação enquanto instituição com uma mística castrense que a identifique face às outras instituições.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG