'The Sunday Times' elogia Portugal sem turistas e com "cerveja gelada e amêijoas"

Christina Lamb, que é casada com um português e visita o país há 26 anos, conta a experiência de regresso a Portugal após o confinamento em Londres, com liberdades que os britânicos não podem gozar e oportunidade de aproveitar aquilo que noutras ocasiões é difícil por Lisboa estar na moda.

A jornalista britânica Christina Lamb, correspondente internacional do The Sunday Times que é casada com um português, traça no jornal um retrato positivo de Portugal sem turistas.

"Portugal é como o paraíso e estou muito feliz [a expressão em inglês é "happy as a clam", literalmente, "feliz como uma amêijoa"]: céus azuis, cerveja gelada, praias de areia e nenhum turista", é o título do artigo, que começa por descrever a sua experiência de estar a comer amêijoas num bar a olhar para o mar no Estoril.

"Há 26 anos que cá venho desde que me apaixonei por um português [o jornalista e colaborador do Expresso Paulo Anunciação] e nunca vi isto tão glorioso - e tão deserto", escreve, dizendo que o sol brilha, que a areia está macia e convidativa e que a vista para o Atlântico e até à Costa da Caparica é a mais limpa que já viu.

Lamb, que fez a cobertura da guerra do Afeganistão e venceu o prémio de melhor jornalista de guerra da Europa, diz que se sente numa versão "estranha e distópica" do país que conhece, já que as pessoas estão todas a usar máscara - "Portugal é muito muito rigoroso com as máscaras" - e há sinais para que as toalhas de banho fiquem a 1,5 metros de distância e os guarda-sóis a três metros.

"No entanto, é incrível o quão rápido nos habituamos. Mantemos as máscaras numa caixa junto à porta e tiramos uma quando vamos buscar as chaves e óculos de sol. Se nos esquecemos, há máquinas nas ruas que vendem quatro por um euro", lê-se no artigo.

A jornalista explica que como muitas pessoas estava pouco confiante na hipótese de viajar, mas como o passaporte do marido ia caducar e os inquilinos do apartamento do casal no Estoril tinham saído era preciso voltar a Portugal para resolver os problemas. "Pensámos que mais valia transformar a viagem numas férias."

Lamb fala da viagem, na última segunda-feira (15 de junho), com um aeroporto de Heathrow quase vazio e só com uma loja aberta às primeiras horas da manhã, sem local para beber um café. "Em Lisboa, o controlo de passaportes levou momentos e a primeira coisa que vimos foi um café muito acolhedor. Passámos pela câmara de temperatura automática, levantámos o carro alugado através de um check-in automático e conduzimos em direção ao mar. Tudo relativamente fácil."

No exterior a jornalista diz que ficaram ambos encadeados, não só com a luz do sol, mas porque depois de 12 semanas de confinamento em Londres tudo parecia um mundo novo, apesar de familiar. "Talvez os ursos se sintam assim ao sair da hibernação", brinca.

A jornalista disse ainda ter ficado surpreendida com tudo o que está aberto, desde restaurantes a centros comerciais ou salões de cabeleireiros. "Isto é o que a vida pode ser quando entras em confinamento cedo e de forma rigorosa e podes sair ao final de apenas seis semanas", escreve, falando depois dos números mais recentes com apenas uma morte por dia, muito diferentes dos britânicos onde ainda há centenas de mortes diárias.

"Todo o Algarve só registou 15 mortes - apesar de 69 novos casos terem sido identificados após uma festa ilegal em Lagos", refere, dizendo que há sinais de testes ao coronavírus grátis em todo o lado.

"Tudo isto significa que Portugal está agora a disputar com a Grécia para ser o destino turístico mais seguro na Europa", citando depois as declarações do primeiro-ministro António Costa à CNN na semana passada e o facto de a UEFA ter escolhido o país para a final da Champions.

A jornalista refere contudo que por enquanto, parece que o país está todo por conta dos que cá estão, explicando que noutros anos poderia ficar uma hora na fila da gelataria Santini mas agora é servida de imediato, apesar de só três pessoas poderem entrar de cada vez.

O seu sotaque inglês é contudo alvo de desconfiança. "Tornámo-nos os leprosos da Europa", escreve, contando que amigos lhe perguntam "como é que é lá", como se ela viesse de um país arrasado pela guerra como o Iémen. "Poucos da família do meu marido querem encontrar-se connosco", indica ainda.

"Sinto-me culpada por estar a aproveitar a minha liberdade enquanto em Londres toda a gente está ainda em confinamento. Mas não vou mentir: há algo muito bom em ter os meus locais favoritos de Lisboa só para mim, especialmente nos anos mais recentes em que a cidade ficou super na moda, cheia de turistas", lê-se no texto, em que explica que locais como a Torre de Belém (onde normalmente é impossível entrar) estão à sua espera.

Nos Pastéis de Belém não há filas e as vendas caíram de 30 mil para quatro mil por dia, segundo lhe explicou o gerente, com a jornalista a lembrar as consequências que isso trás para uma economia como a portuguesa, dependente do turismo.

"Quer seja pela sua história, a sua beleza, a sua cozinha ou a forma como lidou com o coronavírus, Portugal merece ter os turistas de volta. Mas, por enquanto, vou pôr a minha máscara e aproveitar", escreve.

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