Rute Agulhas: "Os sinais começam por ser subtis, com tentativas de controlo"

Rute Agulhas, psicóloga do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, fala sobre as paixões obsessivas e a que sinais se deve estar atento

Em que tipo de perfil se encaixa Ricardo Numes, o homicida de Bárbara?
O comportamento homicida, alegadamente motivado por uma obsessão, em sequência de uma alegada rejeição por parte da pessoa amada, parece enquadrar-se numa personalidade narcísica e dependente, alguém com muita dificuldade em lidar com a rejeição, baixa autoestima e que necessita do reconhecimento externo, por parte dos outros.

Trata-se de alguém com dificuldade em lidar e aceitar a perda. Pode haver ainda um delírio de ciúme, associado a um sentimento de posse, o que dificulta a ideia de que o objeto amado possa amar outra pessoa, que não o próprio.

Estes processos normalmente traduzem-se em comportamentos de perseguição e assédio, muitas vezes associados a elevada impulsividade, podendo assumir diversas formas e escalar em termos de severidade. O homicídio poderá ser o culminar desse processo de escalada.

A tentativa de suicídio que se segue ao homicídio poderá estar associada a arrependimento, após um ato impulsivo, ou a ideia de que não vale a pena viver sem o objeto amado.

Como é que uma mulher deve saber se está perante uma pessoa com este risco? A que sinais devem estar atentas?
As mulheres e os homens, uma vez que estas dificuldades não são exclusivas dos homens. Por vezes os sinais começam por ser muito subtis, com tentativas de controlo do outro, muitas vezes mascaradas com demonstrações de amor.

O elevado numero de telefonemas e mensagens em que se quer saber o dia-a-dia da outra pessoa, o que faz, com quem faz, onde está.

As reações por vezes mais desajustadas ou mesmo agressivas face a alguns comportamentos que se consideram desadequados (por exemplo, a mulher usar uma determinada roupa, ou não ter atendido logo o telefone). A dificuldade em lidar com a frustração e a ameaça (ainda que imaginária) da perda.

Qual a melhor forma de lidar com a situação?
Estar atento aos sinais e não os desvalorizar, considerando que são manifestações de amor e que o ciúme é algo positivo (ainda que quando manifestado de forma extrema).

Pedir ajuda a entidades competentes quando perceber que o comportamento começa a escalar e a ficar mais severo.

Como é que uma pessoa que todos viam como bem-disposta e comunicativa, como era o caso de Ricardo, passa a ter este comportamento e acaba a matar?
Muitas dificuldades não são expressas de forma clara aos olhos de terceiros e é preciso conviver de forma mais próxima com as pessoas para perceber determinados aspetos da sua personalidade e a forma de funcionar. Acontece o mesmo com os agressores na violência doméstica e os agressores sexuais.

Mas como é que ele, perante os colegas, conseguia disfarçar este grau de uma obsessão?
Como acaba por ser direcionada de forma exclusiva a outra pessoa, apenas esta tem a noção do que está a acontecer. Por isso é tão importante que a pessoa alvo deste tipo de comportamentos partilhe a situação com alguém de confiança e peça ajuda.

Por vezes, a vítima deste tipo de comportamentos não os valoriza devidamente, minimiza a sua gravidade ou até os legitima.

Será outra pessoa, mais distante do ponto de vista emocional, que poderá eventualmente perceber o que está a acontecer e sinalizar a situação.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG