Não Merecia António Vieira aos Portugueses...

Artigo de opinião de Arnaldo do Espírito Santo, Maria Cristina Pimentel e Ana Travassos Valdez, professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sobre o padre António Vieira

Em dia de St. António, façamos como fez o Padre António Vieira em 13 de Junho de 1654 e preguemos aos peixes, já que os demais não nos querem ouvir, uns por ignorância da História, outros por motivos políticos.

A morte de George Floyd nos EUA rapidamente fez retomar uma discussão global sobre o passado da Humanidade e sobre a responsabilidade do presente relativamente ao passado da Humanidade, em particular, a escravatura. Ao historiador não cabe julgar nem interpretar o passado com os olhos do presente. É impossível compreender a história do século XVII com os olhos do século XXI. Portanto, julgar o passado com os princípios morais do nosso século é um erro.

Anteontem, a estátua do Padre António Vieira, voltou a ser vandalizada. Temos de ser honestos sobre Vieira e sobre a história portuguesa. Só lermos a sua obra nos pode ajudar a compreender as suas acções e a sua visão sobre o papel de africanos e ameríndios. Jesuíta, diplomata, homem de retórica e teólogo ímpar, Vieira foi provavelmente um dos maiores apoiantes de africanos e ameríndios, além de um dos expoentes máximos da cultura portuguesa.

Vieira era um dos homens mais avançados do seu tempo. E se a sua vida tinha um objectivo - o estabelecimento de um Quinto Império na Terra - a sua vida foi também marcada por polémicas que muitas vezes o deixaram abandonado à sua sorte e sem protecção real.

A 28 de Novembro 1659, Vieira dava conta a D. Afonso VI de como a guerra declarada de algumas tribos indígenas era consequência da forma como eram tratadas pelos colonos portugueses. Vieira assumia a sua causa como justa, assegurando ao Rei que só o respeito pela liberdade dos Índios, «contra os maus tratos dos portugueses, de que só se pode desconfiar e de que só se dão por seguros debaixo do amparo e patrocínio dos padres [missionários]», será o instrumento «da conservação e aumento desta monarquia» (Cartas, J. L. de Azevedo (org.), 1979, t. I, 547-548). É esta estratégia de defesa dos Índios a todo o custo que tem erguido vozes recriminatórias contra os Jesuítas e em particular contra Vieira, por se ter servido da pregação da fé e da religião para adormecer a legítima revolta dos Índios. Não se pode, porém, deixar de assinalar que esta é uma interpretação distorcida da realidade dos factos e do contexto em que eles ocorreram.

Em primeiro lugar, passados cento e trinta anos sobre o primeiro plano de D. João III para o governo e administração da Terra de Santa Cruz em 1530, no tempo em que Vieira exerceu a sua actividade missionária mais intensamente, a colonização e assimilação dos Índios à cultura ocidental era um facto consumado. Os seus obreiros tinham sido os portugueses e, por períodos e em regiões limitadas, os franceses e os holandeses. Um problema premente da colónia era a necessidade de mão-de-obra, tanto mais que os Jesuítas e em especial o Padre Vieira se opuseram frontalmente à escravização dos Índios. A tal ponto que cerca de dois anos após a carta acima citada, chegou a Lisboa expulso pela Câmara do Maranhão, ou seja, pelos colonos. Neste curto espaço de tempo Vieira recusara-se a pactuar com as "entradas no sertão", cujo único fim era abastecer as fazendas com mão-de-obra escrava.

Em segundo lugar, deve ter-se presente que Vieira, à chegada a Lisboa, onde esperava justiça, foi ultrapassado pelos acontecimentos e pelas intrigas da corte e do Conselho Ultramarino. Os revoltosos do Maranhão foram benquistos, enquanto Vieira foi desterrado para o Porto e depois abandonado à Inquisição. Como é evidente, estes factos mostram que nem o poder real nem tão-pouco os colonos tiveram em Vieira um agente ao serviço das suas políticas entre os Índios. Pelo contrário. A primeira vandalização de Vieira foi feita no Maranhão pelos colonos, não pelos Índios que se refugiavam nele. A segunda foi feita quando os estudantes de Coimbra o queimaram em efígie, em estátua, como herege, por ele defender a minoria judaica. Sobre esse insulto escreveu Vieira palavras repassadas de grande mágoa:

"(...), não posso deixar de me magoar muito que no mesmo tempo em uma Universidade de portugueses se afronte a minha es­tátua, e em outra Universidade de castelhanos [México] se es­tampe a minha imagem" (Cartas, t. III, 490)

Em terceiro lugar, recordamos que Vieira tinha do mundo uma visão interpretada modernamente em termos de utopia, mas que para ele era uma realidade escatológica indubitável. Chamou-lhe Quinto Império e depois reino de Deus consumado na Terra, no qual entrariam todos os perseguidos e maltratados. Chegou ao ponto de defender, em risco de heterodoxia, a teoria de que cristãos e judeus, baptizados e não baptizados, haviam de ter lugar todos eles, universalmente, nesse reino. Se conviveu com a escravatura dos Negros nunca a defendeu. Limitou-se a verificar um facto quando escreveu que sem Negros não haveria Brasil. Mas doía-lhe fundo na alma quando lhes pregava e dizia:

"Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado. A paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoutes, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio" (Sermões, parte IX, 1686 - pregado na Bahia em 1633).

Leiam Vieira. Antes de o julgar leiam-no todo, com inteligência e sensibilidade. E para concluir, de novo Vieira, com ironia amarga, a propósito de ser queimado em estátua quando vivia:

"Não merecia António Vieira aos Portugueses, depois de ter padecido tanto por amor da sua pátria e arriscado tantas vezes a vida por ela, que lhe antecipassem as cinzas e lhe fizessem tão honradas exéquias" (Cartas, t. III, 465).

Os autores escrevem segundo o antigo acordo ortográfico.

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