Mais velhos, mais instruídos, a trabalhar nos serviços: retrato da população portuguesa

Na última década o número de residentes baixou em quase 300 mil. Número de idosos aumentou 18%. Mais de metade da população portuguesa tem apenas o ensino básico, mas os indicadores revelam uma clara melhoria nos níveis de escolaridade.

Portugal tem menos habitantes que há dez anos, tem mais 18% de idosos, mas tem também uma população mais instruída, que trabalha esmagadoramente no setor terciário, e que é um pouco (mas só um pouco) menos pobre que há uma década. Um retrato que resulta de dados compilados pela Pordata, base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, para assinalar o Dia Mundial da População, que se cumpre este sábado.

Entre 2009 e 2019 Portugal perdeu 282 mil pessoas, sobretudo nas camadas mais jovens - abaixo dos 15 anos, mas também na população em idade ativa, entre os 15 e os 64 anos. A quebra é particularmente visível na faixa etária dos 0 aos 14 anos, que regista um decréscimo de população residente de 13,7% nestes dez anos, uma diminuição a que não será alheia a baixa taxa de natalidade que o país vem registando. É, aliás, o saldo migratório (saíram 28 mil e entraram 72 mil pessoas no país no ano passado) que evita uma queda mais acentuada no número de residentes.

Já o número de idosos aumentou 18% na última década e há agora 161 idosos por cada 100 jovens com menos de 15 anos - uma desproporção que tem vindo a aumentar de ano para ano, traduzindo-se no já identificado envelhecimento da população portuguesa. Na comparação com a população ativa, o saldo é agora de 34 idosos por cada 100 pessoas em idade ativa quando, há dez anos, estava na proporção de 27 por 100. No mesmo período, houve um aumento de 3% no número de pensões pagas pela Segurança Social: mais 95,5 mil.

Outro dado relevante em relação à população mais velha resulta da composição dos agregados familiares: em Portugal há 934 108 pessoas que vivem sozinhas e, destas, 55% têm 65 ou mais anos.

Mas não é a população mais velha a que está em maior risco de pobreza - é mais jovem. No conjunto da população esse risco (após transferências sociais) é de 17%, nos jovens abaixo dos 18 anos é de 19%. No cômputo global há uma ligeiríssima melhoria entre os números (neste caso comparando 2008 com 2018), que não vai além das sete décimas.

Famílias monoparentais aumentaram 39%

Um dos capítulos que apresenta alterações significativas é o das famílias. No ano de 2009 realizaram-se 40 391 casamentos, dez anos depois esse número foi de 33 272 - deste total, 2% são casamentos entre pessoas do mesmo sexo (677 em números absolutos), uma realidade que estava vedada pela lei há dez anos. Cada dois em três casamentos que se realizam em Portugal são feitos pelo civil: os casamentos católicos caíram 12% numa década.

Um contexto com repercussões em relação aos filhos: no ano passado 57% dos nascimentos registados em Portugal ocorreram entre pais não casados, um aumento de 19 pontos percentuais face a 2009. E, do total de crianças que nasceu fora do casamento, 19% ocorreu entre pais que não viviam juntos.

Famílias monoparentais são esmagadoramente femininas

Os agregados familiares também têm vindo a mudar. De acordo com a Pordata, os agregados de uma só pessoa aumentaram em 35%, as famílias monoparentais cresceram 39% e o número de casais sem filhos subiu 15%.

Um dado adicional, em relação às famílias monoparentais, que representam atualmente 11% do total das famílias: são esmagadoramente femininas (391 568 contra 67 776 em que o elemento adulto é um homem).

Escolaridade ganha terreno, mas mais de metade da população só tem o ensino básico

Na Educação, os números do país em 2019 não são brilhantes: mais de metade da população com mais de 15 anos (51,5%) não tem mais que o ensino básico. No ensino secundário são cerca de 23% e 20% no ensino superior. Cerca de 6% não tem qualquer instrução.

Mas, em termos comparativos, os níveis de escolaridade da população portuguesa vão dando mostras de notórias melhorias. Há dez anos nada menos que 63,4% dos portugueses só tinha o ensino básico, o que se traduz numa melhoria de 12 pontos percentuais. Na mesma altura apenas 14,5% dos portugueses tinham completado o secundário e 11% o ensino superior. A população sem qualquer nível de escolaridade estava então nos 11%.

No mesmo período a taxa de abandono escolar (percentagem de pessoas entre os 18 e os 24 anos que deixou de estudar sem ter completado o secundário) caiu 20 pontos percentuais.

De acordo com os dados da Pordata há, atualmente, 970 mil alunos no ensino básico, 399 mil no secundário e 385 mil no ensino superior.

Comércio e serviços continuam a ganhar peso como empregadores

No que se refere ao contexto laboral há dez anos o setor terciário já era aquele que empregava mais pessoas, mas esta foi uma tendência que se acentuou significativamente desde então. Os setores do comércio e serviços congregam agora quase 70% da população empregada em Portugal, mais 9% que há uma década.

Atualmente, 5% dos residentes em Portugal trabalham na agricultura, que continua a registar uma tendência de queda. Já o setor secundário, as indústrias, acolhe 25% da população empregada e tem mantido, nos últimos anos, alguma estabilidade nos números.

Cerca de 40% dos trabalhadores por conta de outrem não tem o ensino secundário, mas esse valor é mais alto entre os empregadores, alcançando os 50%

De acordo com os números reunidos pela Pordata (que congrega dados do Instituto Nacional de Estatística) o país tem uma taxa de emprego de 55%, sendo que 10% do total de empregados trabalha a tempo parcial. Entre a população que não trabalha a grande maioria são reformados (1,7 milhões), seguindo-se os estudantes, considerando apenas aqueles que têm mais de 15 anos (799 mil).

Do total de trabalhadores nacionais por conta de outrem, 22% recebem o salário mínimo nacional. Ainda neste campo, no que se refere à escolaridade, há um dado curioso - cerca de 40% dos trabalhadores por conta de outrem não tem o ensino secundário, mas esse valor é mais alto entre os empregadores, alcançando os 50%.

No que se refere à divisão por profissões os agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, pesca e floresta, sofreram uma quebra de 56% no número de pessoas que se dedicam a estas atividades. Já os trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífice registam uma redução de 29%.

Num movimento contrário a última década viu duplicar os que trabalham em atividades intelectuais e científicas, que representam 19% do total da população empregada.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG