Sindicato desafia Antram para nova reunião na quinta-feira, mas não cancela greve

O Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas quer voltar à mesa das negociações com os patrões, mas não cancela greve. Desafia a Antram para uma reunião na quinta-feira, às 15:00, e apela ao "bom senso e à humildade" dos dirigentes da associação representante das transportadoras.

Ao terceiro dia de greve, o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) lançou "um desafio público" à Antram. "Queria lançar um desafio público ao dr. André Almeida, à Antram, para que amanhã às 15:00 possa estar na DGERT (Direção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho) para falar connosco, para que nos sentemos à mesa e encontremos uma proposta que agrade às duas partes para fazer terminar isto", disse o advogado que representa o SNMMP, Pardal Henriques que falou numa "conciliação", mas sem cancelar a greve.

A proposta do porta-voz do sindicato para que haja o retomar das negociações foi lançada aos patrões esta quarta-feira, junto à Companhia Logística de Combustíveis, em Aveiras de Cima, onde está concentrado um piquete de greve. Para Pardal Henriques, é preciso "terminar com esta palhaçada".

Aos jornalistas, referiu que se não se encontrar "uma solução para resolver o problema, a tendência é para piorar, é para o caos aumentar" porque "os postos de gasolina vão começar a ficar secos e a revolta das pessoas vai aumentar".

Defende que a possibilidade de alargar a requisição civil, assumida pelo Governo, é "acabar completamente" com o direito à greve.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Siilva, afirmou que um eventual incumprimento dos serviços mínimos, como ameaçado pelo sindicato, obrigará o Governo alargar a requisição civil. Posição confirmada pelo ministro do Ambiente, Matos Fernandes, que destacou o "caso grave de incumprimento" em Loulé.

"Aqui é um por todos e todos por um", diz sindicato

Aos jornalistas, Pardal Henriques voltou a criticar a forma como os motoristas têm sido tratados. "Obrigarem estes senhores a trabalhar com uma pistola apontada à cabeça, a pressionarem para irem trabalhar, a ameaçar constantemente estas pessoas, é lamentável. Ponderar ainda por cima aumentar esta requisição civil de uma forma mais abrangente é acabar com o direito à greve, um dos poucos direitos que ainda restam aos trabalhadores", considerou.

O representante do SNMMP explicou também a razão pela qual os trabalhadores decidiram pelo não cumprimento dos serviços mínimos. "Eles disseram que se um dos colegas deles fosse preso, também eles não queriam fazer mais. E sim, hoje com determinação das pessoas que decidiram não cumprir serviços mínimos e a requisição civil, decidiram resistir e disseram: "não vamos fazer os serviços mínimos. Se é para ir um preso então vamos todos presos", reforçou. "Aqui é um por todos e todos por um".

Uma posição que o sindicato já tinha anunciado na manhã desta quarta-feira. Francisco São Bento, presidente do SNMMP, garantia que os trabalhadores "não vão cumprir os serviços mínimos" e que o sindicato continua aguardar que "haja abertura por parte da Antram", para negociar, acusando as empresas de estarem "a impor trabalhos diários normais, como se não houvesse greve".

Declarações que surgem após as declarações do ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Matos Fernandes, que na terça-feira disse que "14 trabalhadores não cumpriram a requisição civil", sendo que 11 já foram notificados pelo incumprimento da requisição civil. A GNR identificou três no distrito de Faro, quatro em Lisboa e três em Setúbal. "Todos alegaram baixa médica", revelou Matos Fernandes.

"Se é para levar os 11 colegas presos, então vão ter de levar todos, têm que arranjar autocarros grandes para poder levar esta gente toda", reagia, esta manhã, Pardal Henriques, advogado do sindicato de motoristas de matérias perigosas, sublinhando ter provas de que há motoristas que "andam a fazer serviços particulares, serviços que não fazem parte da greve". O também porta-voz do SNMMP garantia que os motoristas não iam cumprir "nem serviços mínimos nem requisição civil" na sequência das notificações do governo.

Governo está disponível para acolher eventual reunião entre sindicatos e Antram

O Ministério do Trabalho disse esta quarta-feira que a Direção-geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT) está "naturalmente disponível" para acolher uma eventual reunião na quinta-feira entre os sindicatos dos motoristas e a associação patronal Antram.

"Se as partes (sindicatos e Antram) quiserem reunir, a DGERT está naturalmente disponível, em qualquer ocasião, como aliás sempre esteve", adiantou fonte oficial do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social à Lusa.

A GNR e a PSP asseguraram o transporte de combustível em 28 camiões-cisterna

André Almeida, porta-voz da Antram, considerou que a recusa dos trabalhadores em efetuar os serviços mínimos vai prejudicar gravemente a economia: "Isso vai significar problemas graves na economia portuguesa."

A GNR e a PSP asseguraram, na segunda e terça-feira, o transporte de combustível em 28 camiões-cisterna no âmbito da situação de alerta declarada pelo Governo devido à greve dos motoristas de matérias perigosas, foi anunciado esta quarta-feira. "Na sequência da situação de alerta declarada pelo ministro da Administração Interna, foram assegurados pela Guarda Nacional Republicana [GNR] e pela Polícia de Segurança Pública [PSP], entre os dias 12 e 13 de agosto, transportes de combustível em 28 veículos pesados de transporte de mercadorias perigosas", referiu o ministério da Administração Interna em comunicado.

71 camiões saíram de Aveiras

Os motoristas de empresas conduziram entre as 06.00 e as 10.00 pelo menos 71 camiões-cisterna, apesar do aviso do porta-voz dos motoristas de matérias perigosas de que ninguém ia "fazer absolutamente nada hoje", disse à Lusa fonte governamental. De acordo com a mesma fonte, partiram de Companhia Logística de Combustíveis (CLC), em Aveiras de Cima em Lisboa, 35 camiões entre as 06:00 e as 08:00, e 36 entre as 08:00 e as 10:00.

Estes camiões-cisterna que saíram estavam a ser conduzidos por motoristas de empresas e sem escolta de militares, adiantou a mesma fonte.

Camiões sob escolta em Leça da Palmeira

Já esta manhã, em Leça da Palmeira, vários camiões entraram pelas 10.00 sob escolta policial na refinaria da Petrogal, embora o sindicato assegurasse que o "boicote" aos serviços mínimos é para continuar."O boicote não terminou. Os motoristas que estavam em greve continuam em greve. A maior parte dos motoristas que entraram [na refinaria] não estavam aqui [no piquete de greve], mas foram pressionados para vir trabalhar", disse Manuel Mendes, coordenador do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), em declarações aos jornalistas no local.

Numa zona do país onde o Governo não decretou requisição civil ou militar, vários motoristas com destino à Petrogal de Matosinhos, distrito do Porto, recusaram esta quarta-feira fazer serviços mínimos, mas pelas 10:00 vários camiões entraram na empresa sob escolta policial, entretanto desmobilizada, constatou a Lusa no local.

Ao início da manhã a Polícia de Segurança Pública tinha mandado retirar os camiões que, em protesto, estavam parados junto à entrada da refinaria. Os motoristas acataram a ordem e decidiram, então, tirar os camiões mas sem entrar na refinaria até que chegaram os colegas que estão a cumprir serviços mínimos.

Manuel Mendes, um dos coordenadores do sindicato de motoristas de matérias perigosas em Leça da Palmeira, disse que os grevistas estavam "a abordar os outros colegas, a bem", para "pararem" e se juntarem a quem está na paralisação, pois o objetivo da greve é serem "tratados com dignidade" e terem "melhores salários".

Com Isaura Almeida e Lusa.

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