Sefarditas. Alex é advogado britânico, toda a vida viveu em Londres, mas vai ser português

Cidadão do Reino Unido vai beneficiar da lei que concede a nacionalidade a descendentes de judeus sefarditas. Alex assume, apesar de não falar a língua e só ter vindo cá duas vezes: "É parte da minha identidade."

Alex Abrahams tem 32 anos, é advogado britânico, toda a vida viveu em Londres, mas está a um passo de se tornar cidadão português. Não é caso único, pelo contrário: os últimos dados conhecidos, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, relativos a 2017, referem que, em dois anos, foram avaliados, só de cidadãos naturais de Israel e Turquia, 6463 pedidos, com um total de 2436 a beneficiarem da lei que concede a nacionalidade a descendentes de judeus sefarditas. É esta mesma lei que o britânico invoca para pedir a nacionalidade portuguesa.

Abrahams reconhece que a ligação que tem é "incrivelmente ténue", tendo em conta as gerações da família que já passaram entre a Idade Média - onde Alex encontra as suas raízes portuguesas - até aos dias de hoje, como explicou à BBC, que relata num extenso trabalho online como os judeus estão a regressar a Portugal. "Metade da minha família vem dessa comunidade e dessas tradições. Eu acho que se os meus avós e bisavós e os seus antepassados hoje estivessem vivos, eles também aproveitariam esta oportunidade." Alex assume: "É parte da minha identidade."

Os Abrahams chegaram ao Reino Unido no início do século XX para fugir da agitação política e civil no continente europeu: a família materna aportou nas ilhas em 1914, vinda de Salónica, atual Tessalónica, na Grécia, para escapar à guerra nos Balcãs, onde vivia há gerações. Os judeus de Salónica foram expulsos dos reinos ibéricos séculos antes.

Alex recorda à BBC que o avô dele, Harry Assael, lhe dizia sempre para nunca se esquecer que ele era sefardita - o nome pelo qual são conhecidos os judeus originários da península Ibérica. "O meu avô, apesar de ter nascido em Londres, falava com a sua família em ladino", explicou o advogado. "É um espanhol medieval com alguma pronúncia em português, infundido com pedaços de turco, italiano e hebraico."

A identidade sefardita chegava a casa de Alex também pela boca. O avô e a avó "costumavam cozinhar algo chamado bimuelos durante a Páscoa", uma derivação ladina para a palavra em espanhol buñuelos, uns bolinhos fritos. "Basicamente são donuts feitos de matzá", semelhante ao pão sem fermento. Ao descrever os fritos, Alex ri e brinca: "Eles ficam bem se lhes puseres mel."

O Decreto-Lei n.º 30-A/2015, de 27 de fevereiro, permite a concessão da nacionalidade portuguesa, por naturalização, "aos descendentes de judeus sefarditas portugueses, através da demonstração da tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objetivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar, descendência direta ou colateral".

Alex Abrahams será um deles, três anos depois de ter visto o anúncio sobre a lei portuguesa e depois de ter visitado Portugal por duas vezes.

Como o próprio contou à BBC, Alex gastou cerca de 2 500 libras, cerca de 2830 euros, no pedido de cidadania portuguesa. O pedido em si não custa muito, mas o britânico teve de contratar um advogado em Lisboa e muitos documentos tiveram de ser autenticados ou enviados por correio. Tudo a somar, como reconhece Alex.

O processo também levou cerca de dois anos e meio e ainda não terminou oficialmente - ele aguarda para ter os seus dados inscritos no registo de nascimento português. Depois disso, Alex poderá obter um cartão de cidadão e um passaporte com a bandeira portuguesa - uma vantagem também em tempos de Brexit.

Como a cantora e compositora Ana Silvera, de 38 anos, que o DN entrevistou em abril. Natural de Londres, e que vive nos dias de hoje entre o Reino Unido e a Dinamarca, depois de já ter passado pelos EUA, Ana é descendente de sefarditas, judeus expulsos de Portugal e de Espanha pela Inquisição nos séculos XV e XVI.

Curiosamente, nem todos os membros da família de Alex Abrahams partilham do entusiasmo. "A minha mãe acha que sou louco", confessou Alex à BBC, apesar de serem as suas raízes familiares que lhe dão o direito de reivindicar a cidadania portuguesa em primeiro lugar. "Ela achou ridículo quando eu lhe contei, mas à medida que mais pessoas se inscreveram, ela começou a levar isso mais a sério."

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