Presidente de Pedrógão admite que não consultou processos das casas recuperadas

Apesar de insistir que são "todas de primeira habitação", Valdemar Alves não pode garanti-lo. Afinal, o autarca admite não consultado qualquer processo

O presidente da Câmara de Pedrógão Grande admitiu na noite passada que não consultou os processos da reconstrução de casas suspeitos de irregularidade, denunciados recentemente por um reportagem da TVI. "Eu não consultei processos nenhuns. Confio nas pessoas que os elaboraram". Valdemar Alves falava aos jornalistas no final da sessão pública de esclarecimento convocada pela Assembleia Municipal, mas que acabou por não esclarecer grande coisa.

O autarca insistiu várias vezes na ideia de que "não há nenhuma irregularidade" e que todas as casas reconstruídas são de primeira habitação. Mas a verdade é que não chegou a consultar os processos, nem antes nem depois das denúncias. "Confio nos funcionários e nas pessoas que assinaram as suas declarações de honra", disse, desvalorizando a proposta de deputado municipal (Rui Capitão, PSD) que apontava como solução a suspensão das construções em curso, suspeitas de irregularidade.

"Não ouvi essa proposta e ele não tem competência para isso. Os processos estão no Ministério Público e temos que respeitar isso, senão qualquer dia temos julgamentos em praça pública", concluiu o presidente da Câmara, ao cabo de quase quatro horas de discussão, numa sessão que tinha como ponto único a "análise da execução da aplicação de fundos doados às diversas instituições para recuperação de património habitacional na sequência dos fogos de 2017". Do princípio ao fim, o presidente Valdemar e a vice-presidente Margarida Guedes empenharam-se na defesa da honra.

"Não houve administração nenhuma de dinheiros por parte da câmara e não foi recuperada nenhuma casa que não tenha ardido", repetiu várias vezes o autarca durante a sessão, que decorreu na Casa da Cultura, um auditório que foi pequeno demais para acolher tantos populares, mesmo numa sessão marcada para as 17 horas.

E afinal, a manifestação agendada para as 16h30- convocada via Facebook, a pedir a demissão do executivo municipal - acabou por não acontecer. Era bom pronúncio para Valdemar Alves, o autarca que trocou a camisola do PSD pela do PS nas últimas eleições autárquicas, já depois do fogo de 17 de junho, que agora faz arder de novo toda a discussão em torno da reconstrução das casas. Foi a ele que o presidente da Assembleia deu a palavra, logo ao início.

E o presidente desse órgão fiscalizador do município é nada menos que António Tomás Correia, líder da Associação Mutualista do Montepio. Ao longo daquela longa sessão, assumiu também ele a defesa dos autarcas em causa, numa assembleia em que o regimento parecia apenas aplicar-se ao público, o único a quem foi contabilizado o tempo utilizado para falar. De resto cada um dos membros falou sem restrições, a maioria dizendo-se envergonhado pela forma como Pedrógão anda nas bocas do mundo.

A vergonha, segundo os carrosséis

Luís Paulo Fernandes, eleito como independente nas listas do PSD, é um dos subscritores da petição que corre na net a exigir o apuramento das alegadas fraudes. "Eu neste momento tenho vergonha de ser de Pedrógão. Todos os pedroguenses vão pagar esta fatura para resto da vida. Ou isto fica transparente como a água e o azeite, ou mais vale eu mudar a sede social da minha empresa", disse, ele que é proprietário de uma empresa de carrosséis, entre as várias que existem no pinhal interior.

"Passei e 12 concelhos nas últimas semanas a licenciar os carrosséis e tive vergonha de cada vez que dizia ser de Pedrógão Grande", sublinhou. Seguiram-se várias intervenções do mesmo teor, sempre alinhando na ideia de como seria importante esclarecer o país sobre os fundos aplicados na reconstrução das casas.

O presidente da Câmara chamou os técnios da autarquia para essa função, replicando tudo o que está descriminado no site do fundo REVITA. Mas por explicar ficaram várias questões. Por exemplo, como é que estão reconstruídas casas de segunda habitação, em Vila Facaia, quando ainda há "cinco famílias que estão a viver em casa de familiares", como apontou o presidente da junta, José Henriques.

Já depois de terminada a sessão, o presidente da Câmara voltaria a ser confrontado com a pergunta, respondendo então que "isso é que o dizem as pessoas". E garante que há "um relatório do professor Xavier Viegas que o mostra, e vai ao encontro da verdade. As que se fizeram são habitações de primeira necessidade", insiste. Um jornalista da SIC lembra-lhe que na reportagem da TVI se mostram casas em que não morava ninguém e foram reconstruídas. "Tem que me dizer quem é para consultar esse processo", retroca Valdemar. Mas não viu a reportagem? Não conhece estes casos?- insiste o repórter. "A entrevista da TVI não me merece respeito nenhum. São inverdades. Nada daquilo corresponde à verdade", conclui o autarca, acusado por alguns deputados municipais de não se ter preparado convenientemente par a entrevista.

Confrontado pelo DN com os casos, e questionado se não seria mais claro explicar cada um deles na reunião extraordinária da AM, Valdemar escusou-se à resposta. Nas últimas semanas o autarca contratou uma empresa de comunicação (Bueno Press) para o assessorar neste processo.

Ainda assim , a comunicação faz-se com dificuldade. Num concelho claramente envelhecido, na sala da Casa da Cultura dois jovens destacaram-se naquela meia dúzia de intervenções do público: Andreia Dias, que pediu aos autarcas transparência, "em vez de estarem preocupados se os deputados da bancada do PS têm água" e Vasco Esquina, de apenas 18 anos, que fez a denúncia: "95% dos que viram reconstruídas as casas de segunda habitação têm cunhas na Câmara". Para memória futura fica também a intervenção de José Dinis Marques, um dos imensos residentes em Lisboa que regressa amiúde à terra: "foi um erro terem ido a eleições em outubro, depois da tragédia. Ponderaram já alguma vez apresentar a vossa demissão?"

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.