"Madeiras de castanho e de carvalho de Monchique eram muito valorizadas na construção naval dos Descobrimentos"

Entrevista a João Pedro Bernardes, arqueólogo e professor da Universidade do Algarve, que fala de como a serra de Monchique era preciosa para os romanos pelas termas e sagrada para os árabes.

Antes da chegada dos romanos e da construção das Termas já a serra de Monchique tinha importante ocupação humana?

Sim, desde há cerca de 6000 anos, no período Neolítico, que se regista uma importante ocupação humana na serra de Monchique, atraída pela abundância da água e diversidade de recursos vegetais e animais. Conhecem-se dezenas de túmulos coletivos, alguns megalíticos que expressam um certo regionalismo, estudados sobretudo nos anos 40 do século passado. Os túmulos pré-históricos são também conhecidos nas épocas dos metais, na Idade do cobre e, mais tarde, com as cistas da Idade do Bronze, que tornam a Pré-história da serra de Monchique uma das mais interessantes do sul do país e que revelam um grande dinamismo demográfico antes da chegada dos Romanos.

Encontraram-se vários vestígios da era romana, até uma estatueta da deusa fortuna. Significa isso que eram termas de grande fama na época?

Os romanos ocuparam vários pontos da serra de Monchique, dando início à exploração das suas águas termais, que sacralizaram, nas Caldas de Monchique. Na verdade, são eles, os Romanos, os fundadores de uma das imagens de marca desta serra ao construírem aí as termas que vão sendo sucessivamente reocupadas e renovadas ao longo dos últimos dois mil anos. Eram, certamente, termas frequentadas e bem conhecidas na região, tal como hoje, e cuja excecionalidade do seu manancial justifica a sua sacralização e a presença dessa estatueta da deusa fortuna. Mas, note que a madeira e a exploração de outros recursos da serra eram também, já nessa época, motivo de grande atração.


Com a conquista pelos árabes, a serra ganhou um simbolismo mais sagrado, segundo alguns defendem? Sobretudo o alto da Fóia?


Repare que a serra de Monchique, que desce praticamente até ao mar, é algo de excecional e diria mesmo de excêntrico no contexto do Algarve antigo ou islâmico, pelo que é natural que daí decorra alguma conotação com o sagrado. É, (ou era!...), um verdadeiro oásis, diferente de tudo o resto da região, o que levou alguns a chamarem-na de Sintra do Algarve. Era também uma referência para mareantes e navegadores, mas também um ótimo local de refúgio, pela sua quase intransponibilidade, para movimentos dissidentes ou de guerrilha. Por exemplo, em meados do século IX estabeleceu-se aqui, no Munt-Saquir, ou Monte sagrado, como era conhecida então esta serra, um grupo berbere que combatia o poder estabelecido, da mesma forma que o "Remexido", chefe guerrilheiro que combateu contra os liberais no século XIX, e pôs o Algarve a ferro e fogo, tinha aqui o seu quartel general.


Foi excecional a visita de D. João II para tratamentos ou outros monarcas também conheciam as virtudes das águas da serra?

O facto de os médicos de D. João II recomendarem as termas de Monchique para o rei se aliviar das suas maleitas, em 1495, como nos conta Garcia de Resende, demonstra que as propriedades das suas águas eram famosas e bem conhecidas na corte de Lisboa. Por isso, mas também pelas suas madeiras de castanho e de carvalho muito valorizadas na construção naval da expansão marítima, Monchique recebeu a atenção de bispos e de outros reis, como D. Sebastião que desejou conceder-lhe o título de vila, por volta de 1573, a que Silves, de quem dependia, se opôs energicamente. No tempo do Marquês de Pombal foi mesmo construída uma grande estrada que ligava Monchique ao porto de Vila Nova de Portimão, para escoar as valiosas madeiras da serra e, nessa época, foi separada da cidade de Silves e elevada a vila a 13 de janeiro de 1773.


Há ideia de haver incêndios constantes no passado ou houve alguma mudança no tipo de vegetação que explique os casos recentes?


Um dos grandes problemas que justificam em grande parte os incêndios dramáticos a que assistimos tem a ver precisamente com a alteração radical do coberto vegetal. Se lermos as descrições da serra de Monchique dos últimos séculos - e há muitas! - o que se realça é a abundância das águas correntes, fontes e levadas, da vegetação de carvalhos e até de castanheiros que tornavam a serra de Monchique a sub-região mais fresca e aprazível do Algarve. Obviamente que a introdução de novas espécies, nomeadamente do eucalipto, nas duas últimas décadas, contribuiu para alterar radicalmente aquele cenário tantas vezes descrito como edílico.


A serra de Monchique tem resistido à desertificação do interior? Além do turismo há outras atividades económicas?

Tocou no ponto que, logo após esta tragédia dos incêndios, é o aspeto mais dramático e que marcará a região por muitos anos. Há alguns anos que se assistia na serra de Monchique à implantação de uma pequena economia rural assente nos recursos da terra e nas riquezas naturais e paisagísticas que ainda se preservavam, onde o turismo rural se combinava com percursos da natureza, com o património cultural, com a gastronomia e com pequenas produções certificadas como a do medronho, do mel ou dos enchidos. Isto estava a afirmar-se como um importante instrumento para manter a serra habitada e economicamente sustentável, a que se juntavam algumas comunidades de estrangeiros atraídos pela calma e paisagens naturais. Obviamente que tudo isto está agora posto em causa. Creio, porém, que se pode aproveitar esta oportunidade para restaurar a serra de Monchique com as espécies autóctones, de forma a termos de volta a Sintra do Algarve ou a "Nova Cintra" como lhe chamou o rei D. Sebastião, no século XVI.

Sugere algum livro a quem queira saber mais sobre a história desta parte do Algarve?

Nos últimos anos muito se tem investigado sobre o Território e a História de Monchique, nomeadamente no âmbito do curso de mestrado em História e Património da Universidade do Algarve. Mas o que de momento me vem à memória é um livro que retrata as primeiras explorações arqueológicas na serra de Monchique do século passado desvendando as ocupações humanas numa altura em que a serra de Monchique ainda era bem genuína. Chama-se Estudos Arqueológicos nas Caldas de Monchique de José Formosinho, O. da Veiga Ferreira e Abel Viana, publicado pelo Instituto de Alta Cultura em 1953.

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