"Não há uma solução fácil" contra as "fake news"

David Stillwel, professor de 'big data analytics' e Ciências Sociais na Universidade de Cambridge, considera que o fenómeno pode ser um problema para a democracia, mas diz que "não há solução fácil" no imediato

David Stillwell, que lidera o centro de psicometria de Cambridge, publicou em 2013 um artigo científico no qual concluía que através da atividade no Facebook era possível traçar com fiabilidade um perfil e prever comportamentos de personalidade de um utilizador, esteve esta sexta-feira em Lisboa para encerrar a conferência sobre ética e responsabilidade no ISCTE. Entre outros temas, falou dos problemas de desinformação nas modernas democracias e da necessidade de as pessoas se tornarem mais conscientes sobre as informações sobre si próprias que colocam nas redes sociais

Questionado sobre se se deveria criar legislação para as 'fake news' [desinformação], David Stillwell considerou, em declarações à Lusa, que "não há solução fácil" que resolva a questão de imediato.

"Não sei como poderá ser resolvido, se é com legislação, se é encorajar as plataformas a fazerem mais [sobre o assunto] ou se mais educação" para os cidadãos.

No caso da literacia mediática (educação), o cientista considerou que isso "leva mais tempo" a ter efeito e, em "última análise, nunca alcança todas as pessoas".

De acordo com o professor da Universidade de Cambridge, as fake news podem ser um problema para a democracia, uma vez que "é importante haver um debate político assente no que realmente está a acontecer no mundo". Se "as pessoas são levadas a acreditar em coisas que não são verdade, então é mais difícil debater".

David Stillwell disse ainda à Lusa que as pessoas com mente mais flexível são as que têm "maior probabilidade" de serem levadas "a acreditar em teorias da conspiração".

Reiterando que este tema não tem uma resposta fácil, Stillwell defendeu "o direito de as pessoas dizerem o que querem".

No entanto, isso não quer dizer que "o direito de uma pessoa dizer o que quiser tenha de ser enviada a milhares de pessoas", numa alusão ao que acontece com as partilhas de comentários nas redes sociais, rematou.

Um artigo que é um alerta

Em relação ao artigo que a sua equipa publicou em 2013, mostrando que através da atividade no Facebook era possível traçar um perfil e prever comportamentos de personalidade de um utilizador com fiabilidade, David Stillwel explica: "A razão porque publicámos [este artigo] foi para demonstrar que estes dados [como colocar um 'gosto' na página da rede social Facebook], que podem passar por pôr um 'like' em filmes, música, que não são privados, podem ser usados para prever uma série de coisas pessoais sobre as pessoas".

O estudo demonstrava que simples interações nas redes sociais "podem revelar mais do que se pensa" sobre um utilizador.

"O que mudou com o passar do tempo foi o facto de as pessoas ficarem mais conscientes" da importância dos seus dados pessoais, de que essas 'simples' interações revelam muito de si, prosseguiu.

Para David Stillwell, o acesso a dados pessoais tem "dois lados" e não pode ser visto apenas de uma forma negativa. "Tudo depende da forma como são usados: se é um problema ou uma oportunidade", sublinhou.

Se por um lado, através dos dados pessoais se pode traçar um perfil e adaptá-lo a cada consumidor de forma a fornecer "um melhor serviço", também há o risco de este poder ser usado indevidamente contra o utilizador.

A obtenção dos dados não acontece apenas no mundo digital, através da utilização do cartão de crédito, do cartão de fidelização nas lojas, é possível cruzar informação, traçar um perfil e prever o comportamento, notou o especialista.

"Costumo perguntar às pessoas se sabem quem é que pode prever quando é que vamos morrer. Será o meu médico? Não, provavelmente será o meu supermercado", pois através dele pode-se traçar o tipo de alimentação, prosseguiu.

Por isso, "dependendo da forma como é aplicada" a informação, tal "pode ser positivo ou negativo", apontou.

Além disso, notou, as pessoas "deveriam estar mais conscientes dos direitos" que constam no RGPD, em vigor desde maio do ano passado.

"Um dos direitos [no RGPD ]de que gosto é a portabilidade dos dados", que permite ao utilizador pedir uma cópia dos seus dados a uma empresa e, se assim o entender, entregar a outra entidade concorrente.

Transparência nos dados e na publicidade

Outro dos direitos que aprecia no regulamento é o direito que o cidadão tem em questionar uma empresa sobre a decisão tomada com base nos seus dados pessoais.

"Por exemplo, se pedir um empréstimo e este for rejeitado, tem o direito de questionar a razão", prosseguiu. "Acho que as pessoas ainda não se aperceberam destes direitos porque quando começarem a exercê-los" haverá "grandes mudanças". Isso, diz, obrigará as empresas a reforçarem os seus procedimentos no tratamento de dados pessoais.

E isso aumentará a ética das empresas? Para David Stillwell, a "chave está na concorrência", porque "quando se tem várias opções, [as empresas] passam a concorrer assentes em quem tem mais ética, quem é mais fiável", atributos do género, salienta o cientista.

A "transparência", ou seja, para onde vão os dados pessoais é uma questão essencial.

"É preciso explicar às pessoas o que é feito com os seus dados", porque assim que as pessoas perceberem isso passam a ter "controlo", outro dos pontos essenciais no processo.

"Assim que as pessoas perceberem o que está a ser feito com os seus dados vão passar a querer assumir o controlo dos mesmos" e isso será uma situação mais equilibrada, já que passam também a ser detentoras dos "benefícios". Atualmente, "é apenas a empresa que beneficia disso", salientou, defendendo ainda a necessidade de haver transparência em toda a publicidade.

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