"Cumpriu o objetivo": a última explicação da Proteção Civil sobre as golas inflamáveis

Afinal, os kits não são de combate a incêndios nem de proteção individual, mas um ensaio de sensibilização, diz agora a Proteção Civil. Dono da empresa que fabricou as golas, marido de presidente de Junta socialista, diz que Estado é que quis versão mais barata.

"O kit cumpriu o seu objetivo. Estes equipamentos servem sobretudo para uma proteção temporária, num movimento que se espera que seja rápido, e nunca para enfrentar um incêndio florestal". Esta é a mais recente explicação da Proteção Civil - nas palavras da comandante operacional Patrícia Gaspar - sobre a distribuição de 70 mil golas inflamáveis às populações no âmbito do programa "Aldeias Seguras". Entre avanços e recuos, afinal o que é que já se disse sobre a distribuição de um kit de proteção que afinal não tinha como objetivo proteger mas "sensibilizar" as pessoas, segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC)?

Proteção Civil quis poupar no preço dos kits

Os kits são compostos por um colete, uma gola antifumo, um apito, uma bússola e uma lanterna, uma garrafa de água e uma barra de cereais e ainda um conjunto de primeiros socorros e estão a ser distribuídos desde o verão de 2018 em zonas de risco elevado de incêndio no âmbito do programa "Aldeia Segura - Pessoas Seguras". A ANPC afirma que devem ser vistos como um "estímulo à implementação local dos programas" para sensibilizar as populações.

"Estes materiais não assumem características de equipamento de proteção individual, nem se destinam a proporcionar proteção acrescida em caso de resposta a incêndios", afirma a Proteção Civil.

Dois oficiais de segurança do distrito de Castelo Branco disseram ao JN que "a gola aquece muito" e "cheira a cola". Estes oficiais queixaram-se também do colete refletor, também feito em poliéster.

O fornecedor das golas, a empresa Foxtrot Aventura, disse esta sexta-feira que propôs que as máscaras fossem feitas de material resistente às chamas, mas a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) não terá aceitado a sugestão por ficar mais caro, tendo alegado que as golas eram distribuídas numa lógica de "merchandising" e "propaganda".

"Propusemos um material ignífugo, de forma a ser resistente ao fogo, mas não quiseram porque era mais caro", começou por explicar Ricardo Fernandes, citado no jornal Observador. E acrescentou: "O tratamento ignífugo seria um valor muito mais elevado, no mínimo mais do dobro do valor", disse ao jornal online.

O contrato de adjudicação das golas tem um valor de 102.200 euros (mais IVA).

O portal da contratação pública inclui dois contratos no âmbito dos programas "Aldeia Segura" e "Pessoas Seguras" com a empresa Foxtrot Aventura, um dos quais relativo a "kits de autoproteção", designação que tem sido publicamente utilizada pelo Governo. Dois oficiais de segurança do distrito de Castelo Branco disseram ao JN que "a gola aquece muito" e "cheira a cola". Estes oficiais queixaram-se também do colete refletor, também feito em poliéster.

Empresa que produziu as golas pertence a marido de autarca do PS

A compra de 15 mil kits de autoproteção, no valor de 165 mil euros mais IVA., também foi uma aquisição low cost, segundo Ricardo Fernandes, dono da Foxtrot Aventura. Ao Observador, diz que propôs "um kit de sobrevivência, com tudo", mas que o custo eram 95 euros por kit. O kit que acabou por ser distribuído às populações acabou por ficar a 14/15 euros (11 euros, sem IVA). "Não têm a mesma qualidade", admitiu Ricardo Fernandes, que é casado com uma autarca do PS.

A empresa Foxtrot Aventura, Unipessoal Lda foi constituída por Ricardo Fernandes a 18 de dezembro de 2017 e tem como fins "turismo de natureza".

Segundo a revista Sábado, Ricardo Peixoto Fernandes é casado com Isilda Silva, presidente socialista de junta de freguesia de Longos, em Guimarães. A Foxtrot Aventura, criada há 18 meses, já vendeu 330 mil euros em golas e kits - os tais que lançaram a polémica.

O primeiro contrato celebrado entre a Foxtrot e a ANPC, representada por Carlos Mourato Nunes (cuja filha foi nomeada para o governo em novembro, lembra a Sábado) é referente à aquisição de 70 mil golas a entregar em 30 dias com o custo de 102.200 euros mais IVA (125.706 euros)

Uma semana depois foi assinado um novo contrato para "15 mil kits de auto proteção no âmbito dos programas 'Aldeia Segura' e 'Pessoas Seguras'". O preço foi de 165 mil euros mais IVA (202.650 euros)

No guia de apoio à implementação dos programas "Aldeia Segura" e "Pessoas Seguras", o 'site' da ANEPC refere um "kit de abrigo", constituído por reserva de água engarrafada, alimentos não perecíveis, estojo de primeiros socorros, um rádio, lanterna, itens de higiene, artigos especiais para lactentes/idosos/pessoas com deficiência, máscaras com filtros de partículas, água e alimentos para animais de companhia, e um apito ou outro equipamento para sinalização.

Em 2018, aquando da apresentação dos programas "Aldeia Segura" e "Pessoas Seguras" (em parceria com as associações nacionais de municípios e freguesias), foi anunciada a distribuição de sinalética e de 10 mil 'kits' de autoproteção e outros materiais, além da criação da figura do oficial de segurança para transmitir avisos às populações, organizar evacuações e realizar ações de sensibilização.

Sintra vai recolher golas inflamáveis dos kits

A Câmara Municipal de Sintra, que tem 12 aldeias nos programas "Aldeia Segura" e "Pessoas Seguras", anunciou esta sexta-feira que vai "recolher de imediato todos os componentes inflamáveis" do 'kit' entregue pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).

Em resposta à Lusa, a autarquia informou que "desconhecia" as informações vindas a público sobre a composição dos materiais que compõem o 'kit' destes programas, e que o presidente da Câmara Municipal, Basílio Horta (eleito pelo PS), decidiu recolher estes materiais, nomeadamente coletes e golas.

Os materiais recolhidos serão substituídos por "equipamento que garanta a segurança dos voluntários".

No município de Sintra, a ANEPC disponibilizou 'kits' aos 24 oficiais de segurança dos programas "Aldeia Segura" e "Pessoas Seguras" -- dois por cada uma das 12 aldeias -- e, no âmbito de sessões de esclarecimento, distribuiu "cerca de 30 golas" à população, segundo fonte da autarquia.

A câmara contabilizou a necessidade de substituir 24 coletes e cerca de 54 golas, processo que vai ser assegurado "durante a próxima semana".

A notícia desta sexta-feira do Jornal de Notícias dava conta de como tinham sido distribuídas 70 mil golas antifumo fabricadas com material inflamável (poliéster). Em resposta, e através de um comunicado, a ANEPC disse que os materiais distribuídos no kit - a gola, uma lanterna, apito, garrafa de água, barra energética e bússola - não são de combate a incêndios nem de proteção individual, mas de sensibilização de boas práticas.

Em entrevista à SIC Notícias, ao início da tarde, Patrícia Gaspar, comandante operacional da ANEPC e que coordenou o incêndio do ano passado em em Monchique, sustentou a mesma explicação e foi mais longe ao dizer que os kits entregues - desde o verão do ano passado - eram o pontapé de saída para um programa em que kits válidos iriam ser distribuídos. Quanto os que já foram entregues são apenas " uma proteção ligeira para situações pontuais", esclareceu.

As novas explicações da ANEPC chegaram depois de o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, ter dito que a Proteção Civil "devia ter imediatamente apresentado desculpas públicas" sobre a distribuição de golas antifumo com material inflamável bem como "proceder à sua substituição".

"A autoridade foi negligente. É grave e inaceitável. Dizer que é só para sensibilizar é pior a emenda que o soneto, não deviam ter ido por aí. Não deviam ter dito isso", disse ao DN o responsável, lembrando que podia ter sido negligência grave caso alguém tivesse usado a gola, que é inflamável e em vez de de se salvar podia matar. "É grave e inaceitável", reforçou.

"Aquilo não é para uma brincadeira, não é só para andar com aquilo às costas para brincar aos incêndios", disse ainda Jaime Marta Soares.

Por sua vez, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, confrontando pelos jornalistas com a distribuição de kits inflamáveis, demonstrou nervosismo e chegou a dizer que os microfones dos jornalistas "também são inflamáveis", descrevendo como "irresponsável e alarmista" a notícia do JN.

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Betinho

"NBA? Havia campos que tinham baldes para os jogadores vomitarem"

Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus há seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.