"Houve quem dissesse a Caetano que teria o mesmo fim de Allende"

No dia em que se comemoram os 40 anos da morte de Marcello Caetano, recuperamos uma entrevista com Luís Menezes Leitão, publicada originalmente a 4 de novembro de 2014.

O último ex-presidente do Conselho tem sido esquecido pelo filão editorial da investigação histórica nacional mais recente. As setecentas páginas de Marcello Caetano - Um Destino vêm esclarecer alguns equívocos sobre o sucessor de Salazar.

Recorda na sua biografia sobre Marcelo Caetano que, num banho de multidão que recebeu em 1969, houve uma popular que afirmou: "Este Salazar é muito diferente do outro." É a sua opinião também?

Marcelo Caetano é uma figura muito diferente de Salazar e isso ficou bem claro após toda esta investigação. A ideia de se o ver como uma continuação ou uma personagem semelhante é incorreta, porque são completamente distintos: Salazar era um político hábil e o Estado Novo era uma estrutura para se manter no poder; Caetano é um institucionalista que acreditava no Estado Novo, mas com maior estrutura ideológica.

Não eram tão unidos como a história teima em registar!

Desde o início que houve entre ambos um grande conflito, de que as pessoas não se apercebem, pois acham que foi um processo de transição pacífica. Só que a chegada de Caetano ao poder é resultado de anos de oposição a Salazar.

Situação contrária à ideia de que foi "renovação na continuidade"?

Essa é uma frase de um seu ideólogo, António Sardinha, que foi mal interpretada. Caetano queria continuação mas com renovação de quadros e políticas. Pior quando será vista como "evolução na continuidade", que nunca foi sua intenção.

Não é o próprio que provoca essa visão ao definir Salazar como "génio" e ele uma "pessoa normal" quando assume o poder?

O que queria dizer era que tínhamos um "génio", mas como estes não são eternos devemos prepararmo-nos para o substituir pelo homem comum. Só que Caetano não era esse homem comum e não se justificava ter feito um discurso tão minimizante. Até porque no início teve um grande apoio popular, mesmo que estivesse muito condicionado por Américo Tomás e pelas Forças Armadas.

Pode dizer-se que existe por oposição a Salazar e constrói a carreira para lhe suceder, umas vezes subserviente, outras ofensivo?

Subserviente só o foi no início e de uma forma contrariada. Quando foi chamado para trabalhar com Salazar pode ter-se deixado seduzir mas cedo se desilude. Desde os primeiros conflitos entre os dois que tem na ideia vir a ser o seu substituto e de o derrubar logo que surgisse oportunidade. Como não tinha condições políticas, aguardava e ia preparando o caminho.

Coloca-se sempre como potencial delfim, contudo ao receber o poder é incapaz de o manter?

É preciso ver que esteve mais de cinco anos no poder. Ganha estatuto de delfim enquanto ministro da Presidência, imposto por Craveiro Lopes, o que desagrada a Salazar. Que resolve a questão correndo com ambos e dando fim ao estatuto, seguindo-se o de sucessor ao longo de uma travessia no deserto em que assume o reitorado de Lisboa. Quando Salazar fica incapacitado, aparece no Conselho de Estado, deixando todos perplexos, como que a dizer: estive dez anos à espera e cá estou.

Momento em que Américo Tomás toma conta da situação...

O presidente ouve imensa gente e, como a maioria preferia Caetano, é obrigado aaceitar. Pensa que, sendo o primeiro, ia queimar-se. São anos de grande expansão económica e de modernização do país. Simultaneamente, está cercado pela questão ultramarina que condicionava tudo, e pela contestação internacional que torna a questão colonial de âmbito generalizado. Do que as pessoas se esquecem é que Caetano tem desde sempre uma ideologia colonialista e é contra uma transição.

Não o surpreende que com tanta experiência caia na armadilha de Spínola e Costa Gomes e não saiba mudar o rumo para o 25 de Abril?

Não foi capaz, não teve o pragmatismo suficiente para resolver a questão, além de que não tinha condições devido a Tomás.

Se, no tempo de Salazar, Tomás era considerado um corta-fitas, o que mudou no tempo de Caetano?

As circunstâncias eram distintas porque Caetano não tinha a legitimidade de Salazar por ser fruto de uma indicação presidencial.

Quem lê esta biografia não fica mais ​​​​​​​desiludido com Marcelo Caetano?

Acho que não, nem era a minha intenção. O que encontrei foi alguém bastante coerente, embora seja altura de se tirar Marcelo Caetano da sua encruzilhada. A verdade é que nunca quis a evolução do regime, foi um equívoco dos seus apoiantes julgar que queria algo que nunca quis. Creio que já estamos numa fase em que devemos olhar com desprendimento o que fez e não apenas para o que poderia ter feito. Não era um segundo Salazar, nem um liberalizador do Estado Novo.

Não poderia ter ido mais longe?

Não esquecer que é o fundador do Estado social. É certo que podia ter feito um regime democrático como foi o caso de Adolfo Suarez em Espanha, mas não era alguém que tivesse esse propósito. Tinha uma ideologia antidemocrática e nunca quis eleições livres, apenas corretas de modo a continuar tudo igual.

Que lugar terá na história?

Espero que esta biografia contribua para lhe dar um lugar menos injusto, pois tem uma importância histórica que não está a ser reconhecida. Mesmo que tenha tido um final trágico, pois estava a ser atacado por todos os lados. Até houve quem lhe dissesse que iria acabar como Salvador Allende no Chile, a suicidar-se, o que o deixou desesperado. Os últimos tempos foram dramáticos em termos pessoais.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG